1.
De frente para o quadro negro, passando matéria, ele ouviu aquela velha frase de sempre: “Professor, sai da frente!!”.
- Só se eu ficar invisível! Não está vendo que estou passando matéria? Espera um pouco. – retrucou.
Ele tinha bastante paciência, mas, vez ou outra, dependendo do dia ou da turma, ficava irritado. Ao termino da aula, guardou o material, pegou suas coisas e foi para casa.
2.
Ao chegar à escola, no dia seguinte, foi chamado à sala do diretor.
- Temos uma reclamação contra o senhor. – falou o diretor.
- Reclamação? Mas de que tipo?
- Vieram os pais de um aluno e disseram que você foi muito sem educação quando ele lhe pediu licença. Não conseguiu terminar de copiar a matéria e agora está com o caderno incompleto. Como o senhor explica isso?
- Ora, isso é um mal entendido. Não foi bem assim e isso não é motivo para ser chamado à sala da direção. Com licença, senhor diretor, vou à sala de aula.
- Sinto muito, mas o senhor não trabalha mais aqui. Está demitido. Um outro professor já está em seu lugar.
Sem acreditar, nem questionou e saiu da sala. Certamente isso tudo se resolveria. Impossível uma simples resposta daquela custar seu emprego. Foi para a sala dos professores e ficou aguardando. Ninguém veio chamá-lo para a sala de aula.
3.
Em casa, com a TV ligada, ainda não se conformava com o ocorrido. Como pagar as contas? Onde arrumar aulas naquela época do ano? O telefone toca.
- Alô?
- Boa tarde! É com o senhor mesmo que gostaríamos de falar. Soubemos que está desempregado e gostaríamos de oferecer um trabalho. O senhor é professor, não é mesmo?
- Sou sim, mas quem está falando?
- Nos apresentaremos depois, por ora apenas abra seu e-mail e venha ao endereço que lhe enviamos. Uma boa noite. - desligou.
4.
Era uma escola bonita, da qual ele nunca ouvira falar. Tudo muito calmo e não se via a movimentação comum a uma escola. Pagariam muito bem, mais do que o comum. Só teria que tomar uns medicamentos “para um melhor desempenho” como disseram.
- Bom dia classe. – disse ao entrar na sala, se apresentando e fazendo uma introdução da matéria. Turma calma e silenciosa. Pareciam todos muito ricos. Começou a escrever umas coisas na lousa quando alguém lhe diz, educadamente:
- Professor, o senhor está na frente, não consigo copiar.
Maldita pergunta, pensou, mas se acalmou para responder
- Já saio da frente. Tenha só um pouco de paciência.
- O senhor não é como os outros professores. Atrapalha muito. – respondeu o aluno.
Sem entender, continuou a aula, mas aquilo soou estranho para ele, pois ainda não havia conhecido nenhum outro professor daquela escola, tentando imaginar o que o tornaria tão diferente. E o que ele fazia para atrapalhar tanto, como disse o aluno?
5.
Passado uma semana, continuava sem conhecer nenhum dos professores, embora, vez ou outra, ouvia seus movimentos pelos corredores e suas vozes em salas ao lado, mas nunca os via. Continuava a tomar os medicamentos, só não entendia em que estaria melhorando seu desempenho. Passou a se dar bem com os alunos, até mesmo com o que havia dito que ele atrapalhava muito, embora percebia que os alunos não o encaravam diretamente. Todos os dias, em casa, ficava alheio a tudo, numa calma acompanhada de solidão, pois desde que começou o novo trabalho não saíra com nenhum amigo nem ninguém.
Certo dia, esqueceu-se de levar alguns materiais para a sala e pensou em pegar emprestado de algum colega, na sala ao lado. Abriu a porta e percebeu que os alunos estavam sozinhos, sem professor.
- Onde está o professor de vocês? – perguntou
- Dando aula! – respondeu um aluno, sem olhar para ele.
- Dando aula onde? – tornou a perguntar. Nisso, ouviu uma voz vinda de frente ao quadro negro.
- Bem aqui, oras. Onde mais poderia estar?
Olhava mas não via ninguém. Estaria ficando louco? Ou cego?
- Mas… não estou te vendo! – disse, com certo espanto.
- Que novidade. – disse a voz com ironia – O que precisa?
- Hamm… giz… - disse ainda espantado. E o giz foi-lhe entregue, como que flutuando pelo ar, até chegar a suas mãos agora invisíveis. Depois disso, percebeu por que não tinha mais problemas com seus alunos…
Texto todo seu???? Muito bom, reconhecimento de situação...kkk! Adorei!
ResponderExcluirtexto meu, hehehehe... viajando um pouco... bejus
ResponderExcluirgostei mesmo, vc deveria mandar pra alguma editora que tenha uma linha variada de autores que publique coletâneas de contos-crônicas!!! parabéns!
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