quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Aos Meus Amigos - 6


Nossos pais haviam nascidos numa fazenda próxima à nossa cidade, na qual o avô Tonico tinha sido administrador. Era uma grande fazenda de café, onde havia uma colônia em que moravam os trabalhadores. Certa vez, o tio Mané decidiu pegar a molecada e levar para conhecer a fazenda, só que iriamos de bicicleta. A ideia era atravessar a fazenda até chegar ao rio represado, o que daria, ida e volta, mais de quarenta quilômetros. Claro que todos topamos.
Saímos bem cedinho num domingo da casa da vó Cotinha. Além do tio Mané e de nós quatro, meu irmão também foi, o que causou certo espanto em todos, pois o negócio dele era ficar na frente da televisão ou com seu toca fitas ouvindo música. Levamos alguns pães com mortadela e garrafas térmicas com água, e assim fomos.
Aproveitamos a maior parte de cidade para evitar pegar muita pista, devido ao perigo dos caminhões. Quando chegamos à pista, praticamente a atravessamos e andamos só um pouco por ela, já caindo numa estrada de terra bem calma.
_ Agora o único perigo são os areiões.- Disse o tio Mané.
Areião era quase sempre a certeza de um tombo de bicicleta. Claro que estávamos acostumados a andar por eles em nossas aventuras, mas meu irmão não muito. O grande segredo para não cair ao passar pelo areião é não travar o guidão da bicicleta, seguindo o movimento imposto pela areia ao pneu, mas isso se não for subida, porque se não fica tão pesado para pedalar que tem que descer e empurrar mesmo.
Em uma descida com partes de areião, o tio Mané avisou:
_ Tomem cuidado em alguns trechos, se não é tombo certo.
_ Lourenço, não trava o guidão da bicicleta não, se não você cai. – Disse o João.
_ Ah, tá! Pode deixar. – Respondeu Lourenço, com certo sarcasmo.
O João e o Lourenço não se davam muito bem, por alguma razão. Meu irmão era mais velho, mas sempre era o João que se dava bem nas brigas, e eles viviam brigando.
Começou a descida e todos passaram pelo primeiro areião, apesar do meu irmão apresentar certa dificuldade.
_ Lourenço, o que te falei?
_ Não enche João!
No Segundo areião chegamos a dar uma enroscada, tendo que diminuir bem para não cair. Meu irmão chegou a ter que por o pé no chão.
_ Tá tudo bem, Lore? – Era como eu chamava meu irmão, por ser um jeito mais fácil de falar quando ainda era bem pequeno.
_ Tá. Só o João que fica enchendo o saco.
No terceiro e maior areião não deu outra: o Lourenço tomou um tombaço, batendo a barriga no guidão e ficando no chão, chorando. Todo mundo parou para acudir, e o tio Mané, ajudando meu irmão a se levantar, perguntou:
_ Lourenço, você não deixou o guidão mole?
_ Não.
_ Por quê? Foi por isso que você caiu.
_ Achei que o João estava zoando comigo, e que cairia se deixasse ele mole.
_ Você tem que confiar mais nas pessoas, Lourenço. Não é porque vocês vivem brigando que ele deseja seu mal. Vamos. Limpa a areia, toma um pouco de água e vamos continuar.
E assim seguimos, deixando Lourenço ir mais à frente junto com o tio Mané enquanto dávamos disfarçadas risadas pelo tombo do meu irmão. Sorte ele não ter se machucado...

_ Foi naquela casa que eu e meus irmãos nascemos. – Apontava o tio Mané para uma casa bem simples, feita principalmente de barro e madeira. – O vô Tonico acordava todo dia bem cedinho pra tirar leite da vaca enquanto a vó Cotinha preparava o café e o pão caseiro assado na hora. Aí acordava a gente, preparava as marmitas, e íamos ajudar o vô na plantação de café.
Era tudo muito simples. Parecia que o tempo tinha parado por ali, apesar de não ter mais pés de café e tantos trabalhadores. Quem se manteve por ali ficou por não ter para onde ir, vivendo das poucas galinhas e hortas que mantinham ao redor da casa, mas o tamanho dos terreiros para secar o café, agora abandonados, impressionava. Eram maiores que quadras de basquete.
_ Vocês estão vendo aquele predinho maior ali? Aquela era a venda da colônia. Uma vez confundiram sua avó com uma assombração. Foi assim...
E o tio Mané contou a história: Certa noite minha avó foi até a venda comprar algo, e havia um grupo de pessoas reunidas, um pouco assustadas, comentando da nova assombração que rondava a região.
_ É uma bola de fogo, flutuando. De tempo em tempo ela se abaixa e rela no chão. Quando flutua de novo, sobe uma língua de fogo da parte do chão onde ela tocou. – Comentou um dos colonos.
Nisso minha avó começou a dar risada.
_ Que é isso, dona Cotinha. Tô falando séria. A senhora não acredita em mim?
_ Acredito sim, seu Albino. Só que isso não é assombração nenhuma. Sou eu. É que como em volta de casa tem muita formiga, toda noite saio com o lampião procurando pelos buracos delas para colocar querosene e por fogo. Aí vendo daqui, parece uma bola de fogo que rela no chão e faz as línguas de fogo. Só isso.
Depois daquele dia, disse o tio Mané, as pessoas passaram a acreditar menos em crendices e procurar explicações melhores sobre as coisas. São grandes as lições que aprendemos com os mais velhos.

Pedalamos muito. Já estávamos cansados e com fome, mas queríamos muito chegar ao rio antes de fazermos uma parada. Não sei que horas era, mas já passava do meio dia quando o avistamos.
_ Olha lá! Chegamos! – Gritou empolgado o André.
Jogamos nossas bicicletas no chão e fomos arrancando as roupas para entrar no rio só de cueca, enquanto o tio Mané tirava os lanches da mochila para podermos comer.
Fizemos guerra de barro, brincamos de briga de galo, competimos quem ficava mais tempo debaixo da água, mas quando pensávamos que passaríamos a tarde ali brincando, o tio Mané gritou:
_ Vem, molecada. Vamos comer que temos que voltar.
_ Mas já, tio? Acabamos de chegar... – Choraminguei.
_ Pois é, Leo. Vocês viram o tempo que demorou para chegarmos. Se ficarmos muito, teremos que pegar a estrada de noite, o que é perigoso. E aqui tem muito mato, podendo vir lobos e outros bichos perigosos.
Ficamos todos tristes, claro, mas não queríamos imaginar alguma onça, lobo ou cobra aparecendo por ali. Saímos da água, quietos, e fomos comer.
_ Que tombão o Lourenço levou, hahahaha. – Provocou o João.
_ Hahahahaha. – Todos rimos, menos o Lourenço e o tio Mané, claro.
_ Para de provocar, João. – Aconselhou tio Mané. – Não quero briga. Só vou dar uma mijada e já volto. Limpem toda sujeira. Não quero nenhum papel por aí.
Assim que o tio Mané saiu, o João voltou a provocar:
_ E ficou chorando que nem menininha.
Os olhos do Lourenço se encheram de lágrimas, e ele começou a ficar vermelho de raiva. Nunca tinha visto meu irmão daquele jeito.
_ Para, João, se não...
_ Se não o que? Você sabe que não pode comigo.
_ Para, João. Deixa meu irmão em paz. O seu pai também falou pra você parar.
_ Mas é verdade. Ele sabe que não pode comigo. – E se aproximou do Lourenço, desafiando.
Meu irmão sempre foi de ficar quieto e sair de perto quando o João mexia com ele, mas naquele dia parecia que algo tinha mudado. Lourenço se levantou para encarar o João, que estranhou e hesitou um pouco.
_ Que foi? Vai querer brigar comigo? – Falou o João, mas não mais tão confiante. Manezinho, André e eu também estávamos surpresos, assistindo sem conseguir acreditar.
_ Eu posso bater em você. – Disse Lourenço, bem baixinho.
_ O que você disse? – Perguntou João, sem acreditar no que tinha ouvido.
_ Eu posso bater em você! – Repetiu Lourenço, já mais alto e com os olhos vermelhos pelo choro e raiva.
Nisso o João começou a recuar, e Lourenço foi para cima. João tentou dar um soco no Lourenço, mas errou, e nisso Lourenço deu um soco no nariz do João, que começou a chorar quando percebeu o sangue que descia.
_ Que tá acontecendo aqui? – Era o tio Mané.
_ O Lourenço bateu no João, pai.
_ Mas foi o João que começou, tio. – Defendi meu irmão, e o André ficou do meu lado.
Tio Mané tirou um lenço de pano do bolso e colocou sobre o nariz do filho.
_ Deita um pouco e coloca a cabeça para trás. Manezinho, pega a garrafa de água para o pai.
Manezinho trouxe a água, e o tio Mané derramava de pouco em pouco sobre a testa do João.
_ Já vai passar João. Não foi nada.
_ E o Lourenço, pai, o que o senhor vai fazer?
_ Nada filho. Você mereceu e sabe disso. E já está na hora de vocês pararem de brigar. 
Depois daquilo arrumamos as coisas para voltarmos. Todos estavam muito quietos, e na volta toda não saí do lado do meu irmão. O percurso todo foi cansativo e demorado. O clima voltou ao normal depois de um tempo, permitindo até brincadeiras entre Lourenço e João, e todos nos divertimos muito. E depois daquele dia, nunca mais o João mexeu com o meu irmão, e nunca mais brigaram.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Aos Meus Amigos - 5

(Não acompanhou desde o começo? Então aproveite 

O tio Mané adorava pescar. Vez por outra nos levava à beira do rio nos fins de semana para pescarmos traíra ou arrumava um barco a remo para pescarmos corvina no meio do rio. Mas a diversão mesmo era quando ele organizava os acampamentos.
Íamos para uma fazenda de uma conhecida dele numa cidade vizinha, à beira do rio represado. Não tinha energia elétrica, banheiro ou qualquer tipo de luxo. Éramos nós e a natureza. A barraca era uma lona de caminhão estendida sobre uma armação de madeira que montávamos ao chegar. Às vezes dormíamos em redes estendidas entre as árvores também, mas só quando estava muito calor. Geralmente íamos o vô Tonico, o tio Mané com os dois filhos, o André, depois que perdeu o medo do escuro, meu pai, eu e às vezes meu irmão. De vez em quando ia algum amigo do tio Mané também.
Além de pescar, sempre tinha alguns afazeres, como buscar lenha para a fogueira e recolher o lixo para não deixar nada espalhado pela natureza. Nunca levávamos gelo, de modo que as bebidas eram mantidas frescas deixando dentro da água do rio, presas a uma cordinha. Para as necessidades tínhamos que nos afastar, abrir um buraco com a enxada e depois tapar tudo certinho. À noite costumávamos queimar bosta de vaca seca para espantar os pernilongos, que eram muitos. Em volta da fogueira contávamos histórias de terror e piadas, onde todos participavam. Numa das noites, o tio Mané propôs um campeonato de peidos: quem desse o peido mais alto ganhava. Todos se esforçavam muito, saindo alguns caprichados, mas o vencedor foi meu pai. O duro foi que acabou melando a cueca na brincadeira. No dia seguinte era aquela tiração de sarro ao ver a cueca dele pendurada na corda improvisada de varal.
Num dos lugares onde armamos o acampamento estava com um cheiro muito forte de carniça, e começamos a procurar de onde vinha. Logo encontramos um burro morto, dentro de um buraco.
_ Francisco, vamos tirar gasolina do carro e tacar fogo nesse burro. – Disse o tio Mané ao meu pai.
_ Não sei não! Acho que não vai prestar. É melhor mudar o acampamento. – Foi o conselho dado pelo vô Tonico.
_ Que isso, pai. É só tacar fogo que logo o cheiro passa.
O vô Tonico tinha razão, era melhor ter mudado de acampamento. O burro ficou queimando a noite toda, de modo que além do cheiro de carniça continuar, ficava um cheiro de queimado horrível, e todo mundo estava incomodado.
Os adultos sempre levavam umas pingas para tomarem durante a noite, enquanto papeávamos ao redor da fogueira, e o tio Mané já estava um pouco pra lá do normal quando anunciou:
_ Vou dar uma cagada.
Era assim mesmo o tio Mané, nunca teve papas na língua, sempre falando muita besteira e palavrões, o que nos divertia muito. E lá foi ele, com a enxada numa mão e o papel higiênico na outra. Foi até um local não muito longe, arriou as calças e começou a cagar. O cheiro da bosta chegou no seu nariz, junto com o cheiro do burro queimado e a cachaça na barriga e na cabeça e não deu outra: começou a vomitar. Conforme vomitava estando de cócoras mais saia merda e mais forte ficava o cheiro, vomitando mais. Era um ciclo. Tempo depois vem o tio Mané, abatido.
_ É! Acho que vou dormir...
_ Que aconteceu, Mané? – Pergunta meu pai.
_ O cheiro do burro entrou na minha merda e não aguentei o cheiro e vomitei um monte.
Foi só risada de todos.

A noite seguinte estava linda. Uma lua cheia num céu estrelado refletindo na água do rio. Já não tinha mais cheiro de burro e havíamos pegado alguns tucunarés, que assávamos na fogueira.
_ Tá precisando de mais lenha, Leo. Vão lá buscar.
Um pedido do vô Tonico era sempre uma ordem gostosa de cumprir. João, Manezinho, André e eu já nos levantamos e fomos pegar o lampião para procurar lenha. O Manezinho carregava o lampião, o João levava um facão e o André e eu recolhíamos gravetos do chão enquanto procurávamos madeiras secas maiores.
_ Será que tem mesmo lobisomem por aqui? – Era a preocupação do Manezinho, referindo-se às histórias que meu pai havia contado na noite anterior.
_ Deixa disso, Manezinho. O tio Francisco só contou uma história. – Procurou acalmar João.
_ Mas e se tiver? – Insistia Manezinho, que era o mais novo de nós.
_ Aí a gente taca pedra nele e usa o facão. Depois sai correndo. – Era o plano do André, tão confiante.
Para quem não conhece, o lampião a gás tem uma redinha chamada camisinha para conter o gás incandescente e iluminar, e é bem comum a camisinha pegar fogo se estiver mal colocada. Caminhamos pela mata, todos em silêncio, pensativos quanto às nossas reações no caso de aparecer um lobisomem. De repente, um barulho vindo do mato.
_ Que isso?
_ Você jogou alguma coisa lá, André? – O André era cheio de assustar a gente.
_ Eu não. Juro.
_ Vai iluminando que vou dar uma olhada, Manezinho.
E lá foi o João, à frente com o facão seguido de Manezinho com o lampião. O André e eu nos preparávamos para algo com pedras e paus nas mãos. De repente, a camisinha do lampião pega fogo, e ouve-se mais uma vez um barulho do mato. João grita:
_ Corre, gente, que eu vi um negócio peludo!
Foi aquela gritaria e correria em direção ao acampamento, deixando para trás as madeiras e o próprio lampião. Antes de chegarmos ao acampamento, meu pai, meu irmão, tio Mané e o vô Tonico já vinham em nossa direção, assustados.
_ Que foi? Alguma cobra?
_ Não. Tinha um negócio peludo no mato atrás de nós. – Disse o João.
_ Vocês viram coisas, seus medrosos. – Falou meu irmão, que não era muito de ficar com a gente,
_ Medrosos, é? Vai lá então! Todos nós vimos o bicho. – Falei.
_ Será que era o lobisomem, tio Francisco? – Perguntou assustado o Manezinho.
_ Isso não existe, Manezinho. Foi só uma história que inventei. Cadê o lampião que estava com vocês?
_ Eu deixei cair no chão lá atrás.
_ Tomara que não tenha quebrado o vidro, e deve estar vazando todo o gás. Vamos lá buscar, pai. – Disse o tio Mané.
Todos fomos atrás deles, morrendo de medo. Até meu irmão, que havia desconfiado, estava um pouco assustado. Chegando ao local, tio Mané pegou o lampião e desligou o gás, vendo que o vidro estava inteiro. Nisso, o vô Tonico foi andando mais à frente, em direção ao mato, apontando a lanterna à bateria.
_ Olha lá, todo mundo, mas vem em silêncio.
E lá estava o nosso bicho peludo, quieto e assustado no mato: uma linda capivara com alguns filhotinhos...

Quando voltamos para casa estávamos todos animados, cheio de histórias para contar.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Aos Meus Amigos - 4

(Não deixe de ler desde a Introdução em: http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html)


Numa das vezes em que havia circo no Terreno do Circo decidimos ir. Era um domingo à tarde, por volta das 15 horas, mas como condição para nos deixarem ir teríamos que levar o Ivan junto. O Ivan era sobrinho do André, filho de sua irmã Inês. Além do André e da Inês, a tia Josefa tinha um filho do meio, o Rodolfo.
O Ivan era seis anos mais novo do que eu, e era muito chorão. Não gostávamos de brincar com ele por conta disso, mas naquela tarde, se quiséssemos ir ao circo, teríamos que leva-lo.
Ao chegar à bilheteria uma mulher que trabalhava no circo nos fez uma proposta: como estavam com falta de funcionários, se aceitávamos trabalhar de vendedores nas arquibancadas em troca da entrada mais o valor do ingresso em dinheiro no final da sessão. Claro que topamos, e combinamos que o Ivan ficaria sentado na arquibancada enquanto isso, assistindo as apresentações, e que ficaríamos todos de olho nele.
Eu peguei uma bandeja de maça do amor. O André pegou uma bandeja com saquinhos de pipoca. O manezinho ficou com o churros e o João com a batata frita. E assim fomos à labuta, nos espalhando pela arquibancada oferecendo os produtos.
O circo era muito ruim. Uma imitação dos apresentadores da TV com joguinhos e brincadeiras com as crianças feitas por um palhaço mal maquiado e sem graça. Não tinha malabarista, trapezista, equilibrista, mágico e nem nada de um circo de verdade, e, claro, estava bem vazio. Dessa forma, quem compraria nossos produtos?
A solução foi facilmente encontrada: nos revezamos para passar em frente ao Ivan, sempre o convencendo a comprar alguma coisa, mas não demorou para que se enchesse de doces e frituras e seu dinheiro acabasse. Então precisávamos de uma nova estratégia.
_ E se começássemos a comprar um do outro? – Sugeriu o João.
E assim fomos, fingindo que oferecíamos ou estávamos realmente interessados em algo:
_ Vai uma maça do amor aí, chefe?
_ Claro que sim. E por acaso não gostaria de uma pipoca?
_ Humm... deu uma vontade de um churros. Ei, moço! Manda um churros com calda de doce de leite, por favor.
_ Aqui está. E essas batatas parecem ótimas. Manda uma pra cá.
Quando acabou a apresentação fomos prestar contas das vendas. Havíamos ido com algum dinheiro para a entrada e para comprar coisas. Como não pagamos a entrada, tínhamos mais dinheiro para os doces e salgados, e gastamos todo ele. Não éramos tão burros para gastarmos o dinheiro das vendas, o que permitiu fechar a conta direitinho, mas quando recebemos o valor dos ingressos pelo serviço prestado não tivemos dúvida:
_ Ah! Aproveita então e me vê mais um churros e uma batata.
_ Eu quero uma maça do amor e uma pipoca.
_ Eu também vou comprar alguma coisa...

E assim voltamos para casa dos nossos avós, sem ter pagado para entrar no circo, trabalhado, e ainda assim sem um tostão no bolso. Mas a barriga cheia de doces. O duro foi ter que comer o prato de macarronada que nossos pais nos obrigaram na hora da janta, se não ficaríamos de castigo, de novo...

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Aos Meus Amigos - 3

(Não deixe de ler a Introdução em: http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html)


Um dos lugares preferidos para nossas brincadeiras era no Terreno do Circo. Demos esse nome a ele porque de tempo em tempo aparecia algum circo por ali, sempre de qualidade bem baixa. O terreno ficava a uma quadra da casa dos nossos avós, então sempre estávamos lá, principalmente encima de uma grande mangueira que tinha nele.
A árvore era nossa espaçonave. Cada canto representava uma parte da nave com seu setor e suas funções, que íamos revezando de acordo com a vontade geral. Numa das vezes avistamos um bêbado atravessando o terreno do circo, e o André, que era o capitão da vez, alertou:
_ Inimigo alienígena se aproximando. Vamos provoca-lo.
E lá fomos nós:
_ Tá ventando aí, tio?
_ ô, bafo de cachaça.
_ Vai apanhar da mulher chegando em casa.
_ Hahahahahahahaha...
_ Ah, molecada. Vocês vão ver só. – Tentava defender seu orgulho, o pobre indivíduo.
_ Vem pegar a gente então.
Desafio lançado e lá vai o bêbado, nervoso. Para em frente à árvore e tenta imaginar um jeito de subir. A árvore tinha um tronco alto, do qual tínhamos que dar ágeis pulos para segurar num dos galhos e fazer força para subir. Apesar do bêbado ser adulto, ainda era preciso uma boa habilidade para subir, e nas condições em que se encontrava, sabíamos que seria impossível. Estávamos protegidos.
_ Que foi tio, tá vendo duas árvores?
_ Hahahahahahaha...
_ Num tem problema não. – Falou o bêbado – Eu não preciso subir pra pegar vocês.
E começou a pegar mangas no chão para jogar em nós. Inicialmente ficamos preocupados, mas depois que ele tacou a primeira foram mais risadas, pois além da péssima mira, o estado ele era tal que não tinha força nem pra acertar a primeira fileira de galhos, e estávamos bem no alto.
_ Hahahahahaha. Vai comer espinafre, tio.
_ Vocês não vão me escapar. Uma hora vão ter que descer, e eu não saio daqui enquanto isso não acontecer – E se sentou no chão.
“Agora dançamos”, pensamos nós. Estava ficando tarde e ele estava certo: logo teríamos que descer. O Manezinho então falou: _ Espera aí... – E começou a descer, com cuidado.
_ O que é que você vai fazer? – Espantou-se o João, preocupado com o irmão mais novo, mas ele não deu bola.
Numa distração do bêbado, Manezinho se pendurou num galho que o levou até o chão, um pouco distante do tronco, manobra essa que costumávamos fazer em nossas brincadeiras para descer da nave, e saiu correndo gritando:
_ Vou chamar o pai. Ele vai vir aqui e quebrar a cara desse bêbado.
Nunca que o tio Mané faria isso, e ele nem estava na casa da vó Cotinha, mas isso serviu para deixar o bêbado assustado, que, a princípio, esboçou tentar correr atrás do Manezinho, mas acabou desistindo, vendo que ele já virava a esquina.
_ Seus fia da puta – Saiu praguejando – Eu ainda pego vocês, seus vermezinhos... – E foi embora por onde veio.
Descemos da árvore e corremos em direção à casa da vó Cotinha. Viramos a esquina e avistamos o Manezinho saindo de trás de um caminhão.
_ Deu certo? Ele foi embora? 
Todos demos risadas, aliviados, e fomos para a casa da vó, já esperando o café da tarde com suco de pozinho e pão bengala com manteiga que ela sempre preparava.


(Não deixe de ler a continuação em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/10/aos-meus-amigos-4.html )

domingo, 22 de setembro de 2013

Aos Meus Amigos - 2

_ Pra onde vamos hoje? – Perguntei.
_ Vamos para o lado do estádio. – Sugeriu o André.
_ Não sei não! Sempre têm uns moleques encrenqueiros naqueles lados... – Nos alertava João, que era o mais velho dos quatro. Mas isso não intimidou o André, que era o mais arteiro e com ideias mais ousadas, e já emendou:
_ Qualquer coisa a gente sai correndo. Quero ver me pegarem.
Um olhava para o outro, esperando algum sinal de reprovação frente tal ideia. Como não veio, lá fomos nós na direção do estádio pela marginal de terra.
Postávamos corrida um com o outro, mas sempre maneirando na velocidade quando alguém ficava muito para trás. Vez e outra parávamos para olhar um maço de cigarro vazio no chão ou para brincar em alguma parte do córrego.
_ Tá calor hoje, né? – Comentou o Manezinho.
_ E se a gente brincasse de guerra de lama? – Disse o André, já se aproximando da beira do córrego para pegar o barro encharcado.
_ Melhor não. Minha mãe me mata se eu chegar molhado na casa da vó. – Alertei. Mas, mais uma vez, o André tinha uma ideia genial:
_ Ué! A gente finge que caiu sem querer na água, e pronto. – A ideia caiu como uma luva para todos, e ninguém desconfiou que nossos pais não acreditariam de jeito nenhum naquela história.
E a guerra começou. Lama para todo lado, pulando dentro da água com gritos disfarçados do tipo “Opa! Escorreguei”. Eu usava uma camiseta branca, com um cachorro estampado. Não era nova, mas era uma das boas camisetas para se usar no dia-a-dia ainda. Claro que depois disso virou pano de chão...
O João era cheio de querer armar estratégias para tudo, e começou a montar um bunker de terra para se proteger enquanto pedia para o Manezinho fazer bolinhas de barro para jogar na gente. Automaticamente, André e eu já nos vimos como a dupla inimiga dos dois, e começamos a nos armar também.
_ Pega aquela madeira. Tive uma ideia.
Outra das ideias do André, e sempre as que traziam mais problemas para nós, mas a gente sempre acabava topando. Corri e peguei a madeira. Era dessas tábuas compridas, em forma de prancha, usadas em construção. Levei a tábua para o André e ele já havia preparado uma pedra como base para improvisarmos uma catapulta. Enchemos um dos lados da madeira de barro e demos início ao plano: começamos a mexer com o João e o manezinho, jogando algumas bolas de lama neles enquanto eles revidavam, num volume bem maior. Fomos recuando aos poucos para que eles pudessem avançar mais, e, assim que percebemos que os dois estavam a uma distância boa e próximos um do outro, o André gritou:
_ É AGORA! VEM!
Saí correndo e no “Já” combinado pulamos os dois na ponta erguida da madeira, esperando que aquele monte de barro voasse sobre nossos “inimigos” da brincadeira. O barro mal levantou um metro de altura e ainda por cima levamos um belo tombo. Mal conseguimos levantar, decepcionados com nossa arma mortífera, quando uma bola de barro atinge cada um de nós, seguida de várias outras.
_ Hahahaha! Seus tontos. Agora vão sofrer...
E lá vai os quatro, rolando por todo aquele barro, um tentando sujar mais o outro, até que nos cansamos e decidimos nos limpar na água do córrego.
Quando começamos a voltar, avistamos dois meninos no meio da rua de terra com pedras na mão. Faziam sinal para pararmos. Ficamos com pé atrás, mas o fizemos.
_ Deixa a gente dar uma volta na bicicleta de vocês. – Falou um dos meninos.
_ É só uma voltinha. Não vamos demorar. – Falou o outro, sempre exibindo as pedras na mão.
O João tentou se esquivar do pedido:
_ É que a gente tá com pressa. Já estamos atrasados e vamos apanhar em casa se demorarmos mais.
_ Vocês é que sabem. Ou apanham em casa ou apanham aqui.
Um olhou para o outro, sem saber o que fazer, até que ouvimos o André gritar:
_ CORRE! PEDALA O MAIS RÁPIDO QUE PUDER...
Todos fomos pegos de surpresa, inclusive os dois moleques, mas no desespero fizemos o que o André gritou, e saímos com tudo. Apesar do esforço e do medo, era possível perceber pedras passando perto de nós, sendo atiradas pelos dois moleques, até que senti uma forte pancada na cabeça, dando um clarão na vista, e logo as lágrimas começaram a escorrer pelo rosto, mas não parava de pedalar por nada. Tempo depois, o João para próximo a um bar que o pai dele costumava ir.
_ Ufa! Escapamos por pouco. Vamos tomar água aqui.
_ Que foi Leo? Tá chorando de medo?

Respondi à pergunta do Manezinho levando a mão à cabeça e mostrando um pouco de sangue. Todos ficaram assustados. Entramos no bar do seu Terso e mostramos para ele o ferimento. Ele deu uma olhada e disse que não era nada sério, só um pequeno cortinho. Pegou com pouco de gelo, colocou num saquinho e falou para deixar ali por um tempo, para desinchar. Tomamos água da torneira, descansamos um pouco e fomos embora. Nem precisa dizer que não pude dormir nos meus avós naquela noite, tanto por causa da roupa como pelo galo na cabeça.

(Não deixe de ler a continuação em: http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-3.html )

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Aos Meus Amigos - 1


Creio que posso considerar meus primeiros melhores amigos como sendo meus primos. É aquela velha história, ao menos nas famílias da minha época: família grande e que sempre se reúne na casa de um dos avós aos fins de semana. Esses avós, no caso, eram os avós maternos: Vô Tonico e Vó Cotinha. Os tios eram Osório, o mais velho e que seus filhos não tive muito contato devido à diferença de idade; Tia Matilde, no qual seus netos se tornaram bons amigos mais tarde; Tio Mané, esse sim um grande tio para minha infância, com seus filhos João e Manezinho. Tinha a Tia Josefa também, no qual um dos filhos, André, era quem fechava a quadrilha dos primos: João, Manezinho, André e eu, que era filho da caçula dos avós Tonico e Cotinha, Marilda.
Alias, nem me apresentei. Me chamo Leonardo Félix, filho caçula de Marilda e Francisco, e tenho um irmão do meio, Lourenço, e uma irmã mais velha, Rosália. Moramos numa cidade pequena do interior do estado, o que permite uma vida mais tranquila à liberdade e segurança.
Praticamente todos os dias visitávamos o Vô Tonico e a Vó Cotinha. Mas os momentos mágicos mesmo eram aos fins de semana. Chegava da escola e, depois de almoçar e fazer o dever de casa, pegava minha bicicleta, colocava roupas na mochila e lá ia eu para a casa dos avós, onde só voltava no domingo a noite e muitas vezes aos berros por querer ficar.
Meus primos nem sempre dormiam lá aos fins de semana, sobretudo o André, que tinha medo do escuro, mas mesmo assim sempre nos encontrávamos para nossas brincadeiras e aventuras. Geralmente o Vô Tonico saia para caminhar aos sábados cede, pela marginal que passava a poucas quadras de sua casa, ainda de chão de terra, e ia até o matadouro municipal. Para nós era uma farra, pois enquanto nosso avô caminhava aproveitávamos para brincar de guerra de mamona, atravessar o córrego de um lado para o outro equilibrando sobre os canos que o cruzavam e procurando marcas de cigarro pelo chão, que todos nós colecionávamos. E chegar ao matadouro era sempre chocante: restos de ossos de gado espalhados por todos os lados e urubus entre eles. Quando chegávamos em horário de matança, o sangue era jogado no rio, o que o tornava completamente vermelho. Era o Rio de Sangue, como chamávamos. Penso que nos levar até lá foi a forma de meu avô nos ensinar sobre a morte...

Lembro-me uma vez em que o André sugeriu que pegássemos alguns ossos maiores, enrolássemos as camisetas na cabeça e fossemos até a beira da rodovia que passava por ali assustar os motoristas. Não sei como o Vô Tonico não percebeu a movimentação, mas quando nos viu no alto do barranco ao lado da rodovia e fazendo aquela farra ficou muito bravo.
_ Vocês podiam morrer lá. E se um caminhão perde a direção? A mãe de vocês vai ficar sabendo disso...
Essa era uma ameaça gigantesca, principalmente para mim, pois sabia que qualquer castigo implicaria em não dormir os fins de semana na casa dos avós. Voltamos todos cabisbaixos para casa, sem guerra de mamona ou brincadeira no córrego.

Em muitos fins de semana nossos pais iam ao jogo de futebol do time da cidade, e os primos todos ficavam com a Vó Cotinha. Era uma farra, pois nos davam alguns trocados para podermos gastar no bar da esquina ou na sorveteria ao lado. Nossos doces prediletos eram a caixinha surpresa, que, como o nome diz, era sempre uma surpresa de que doce e soldadinho de plástico viria dentro; um pirulito em que se passava num pozinho azedo antes de levar à boca; e o arroz doce, um tipo de salgadinho doce em forma de arroz numa embalagem rosa. Eu também gostava do sorvete quente, que era uma maria-mole em forma de bola de sorvete numa casquinha. Ficávamos todos à frente da TV branco e preto comendo nossos doces até acabar e ir ao barzinho ou sorveteria novamente.
Outra brincadeira comum era fazer cabaninha com as várias madeiras que o Vô Tonico mantinha atrás da casa. Direto a cabana desmontava e era todo mundo saindo de baixo das madeiras esfregando a cabeça de dor, mas sempre tentávamos montar novamente e nos enfiávamos todos dentro dela. Quando ela se mantinha por mais tempo começávamos a fantasiar, dias simulando uma pequena cidade em que cada um tinha uma profissão e morávamos todos juntos, ou numa cena de guerra, em que lutávamos contra inimigos imaginários e aquele era nosso acampamento.

Sim, tínhamos bastante espaço na casa de nossos avós. Um quintal com mangueira, horta, roseiras, pés de fruta, além de outras plantas, que eram a paixão da Vó Cotinha. Mas além do quintal também aproveitávamos os fins de semana andando de bicicleta...

(Não deixe de ler a continuação em: http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-2.html )

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Aos Meus Amigos – Introdução



Todo mundo precisa de amigos. E em todas as fases da vida. Alguns amigos nos acompanham desde que somos pequenos, desde nossa infância. Outros vão sendo encontrados ao longo da vida. Mas uma coisa é certa: todo mundo precisa de amigos.
Quando somos pequenos toda criança que encontramos, não importa onde, é nossa amiga. Basta um olhar, uma curiosidade sobre o que o outro está fazendo que já nos aproximamos e nos enturmamos. Em poucos minutos já apresentamos aquele pequeno companheiro como um amigo.
_ Vem comer. Já!
_ Agora não quero. Estou brincando com o meu amigo.
Depois cada um segue seu caminho, nunca mais se veem, e lá se vai um dos muitos amigos que a vida nos afasta, mesmo que ele não nos faça a menor falta no dia seguinte e nunca mais nos lembremos dele. Mas a palavra foi pronunciada: AMIGO. E no momento em que estivemos com ele nos divertimos muito. Foi um momento mágico.
Lembro-me uma vez, quando era muito pequeno sem ter ideia de que idade tinha, que joguei bola com um garoto num clube que frequentava com minha família. Essa cena não desaparece, ficou gravada na memória, mas até hoje não sei quem era aquele garoto. Será que se tornou um dos meus amigos e nem me lembro? Será que foi nosso único encontro? Por que essa cena se registra como uma das mais antigas quando penso na palavra “amigo”? E a cena que se repete é justamente a da hora da despedida...

(Leia a continuação em: http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-1-nao-deixe-de-ler.html )