terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Aos Meus Amigos - 5 (Parte II)

(Não leu desde o inicio? Então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html )


Durante a semana meu castigo já havia acabado, mas o que me preocupava era a ideia de ter sido algum amigo meu que havia entrado em casa, já que sabiam onde ficava guardada a chave no fundo. Será que algum amigo do Lourenço também não sabia? E se outra pessoa qualquer, ao mexer no fundo, não encontrou a chave? O duro é que, quem quer que seja, a guardou exatamente no mesmo lugar, coisa que um ladrão qualquer não faria.
Na escola o Hugo contava a todos da farra do fim de semana, sempre salientando as graciosidades da minha prima Michele.
_ Apresenta pra gente também Leo! – Dizia o Cleber.
_ Se eu gostar dela a gente faz um esquema: eu arrumo minha irmã e você arruma sua prima. Que acha? – Falava o Mário.
_ Cai fora que ela já é minha, não é mesmo Leo? – Se protegia o Hugo.
Eu nem dava bola, ainda preocupado. Decidi passar no André na saída da aula.
_ Vocês passam no meu primo comigo? É rapidinho. – Pedi para a turma, e eles toparam.
Chegando lá o André não havia chegado da escola ainda, então aguardamos um pouco, o que não demorou.
_ E aí Leo. Acabou o castigo?
_ Acabou sim. Lembra do Hugo e do Cleber né? E esse é o Mário. E aí? Como foi o fim de semana?
_ Foi massa. Jogamos bétia a tarde inteira do sábado e a noite fomos na boate. O Jonatan ficou chapado e deu trabalho de novo, e o Silvinho teve que levar ele embora.
_ E o Vini? Não foi?
_ Não. Disse que tinha outras coisas pra fazer, mas não apareceu no domingo também.
_ Tá certo. Vamos marcar algo para o fim de semana então.
_ Acho que vamos pra cachoeira do seu João. Se seus colegas quiserem ir também sem problema.
Percebi que eles se animaram com o convite, já que sempre lhes contava como eram legais nossos passeios de bicicleta pelas cachoeiras.
_ Ok. Até mais então. – E fomos embora.

Ao longo da semana tentei passar na casa do Vini, mas nunca tinha ninguém. Eu precisava sentir a reação dele ao me ver, só para ter certeza, mas não acreditava que pudesse ser ele já que era um dos meus melhores amigos naqueles últimos tempos, mais até que o André e o Hugo.
Fim de semana. Sexta a noite sai para dar uma volta com os amigos da sala e aproveitamos para encontrar o André na praça e combinar os detalhes da cachoeira no sábado.
_ Vocês vão né? – Perguntei ao Hugo, Cleber e Mário.
_ Tô dentro. – Disse o Hugo.
_ Vou jogar bola amanhã à tarde. – Desculpou-se o Cleber.
_ Acho que não. Nem conheço seu primo, muito menos os amigos dele. – Falou o Mário.
_ Vocês quem sabem. Vai ser da hora.
Tempo depois encontramos o André, o Manezinho e o Jonatan, e eles estavam com copos de bebida na mão, o que meio que assustou o pessoal da escola.
_ Ganhou a alforria Leo? – Perguntou o Jonatan.
_ É. Tô livre de novo. O que tão bebendo?
_ Batidinha de abacaxi. – Disse o Manezinho. – Experimenta. É bem gostoso.
Dei um gole e realmente era uma delícia. Ofereci aos outros, mas eles não quiseram. Percebi que não concordavam com aquilo.
_ E como vai ser amanhã André? – Perguntei.
_ A gente sai logo depois do almoço. Como vamos almoçar na casa da vó saímos de lá e passamos no Jonatan. O Silvinho não vai. E vocês? Vão? – Perguntou para meus amigos.
Como vi que ficaram sem responder resolvi eu mesmo fazê-lo:
_ Só o Hugo. Ou outros dois não poderão. – E dei outro gole da batidinha de abacaxi. O Jonatan acendeu um cigarro. – E o Vini? Passei a semana inteira na casa dele e nada. Falaram com ele?
Silêncio. O Jonatan virou de costas, como que nervoso com alguma coisa.
_ Ele não vai. – Disse com ar estranho o André.
_ Tá certo. Vamos dar uma volta. Nos vemos amanhã então. – Me despedi, louco para dar uma tragada no cigarro do Jonatan, mas sabendo que seria repreendido.

O almoço foi o de sempre na casa dos meus avós, com a única diferença que procurei dar mais atenção a eles até a hora de sair, me surpreendendo cada vez mais com a velhice que os atingiam.
_ Vamos então? O Jonatan deve tá esperando. – Disse o André.
_ Vamos sim. Combinei com o Hugo de encontra-lo lá perto também.
Demos bença aos avós e saímos de bicicleta, o André, o Manezinho e eu. O caminho que fazíamos passava em frente à casa do Vini, mas por alguma razão o André quis desviar. Algo estava muito estranho, e até o final do dia eu teria que perguntar.
Duas quadras antes de chegar na casa do Jonatan avistei o Hugo, um pouco tímido por não conhecer a turma direito, mas empolgado por participar de uma de nossas aventuras. Chamamos o Jonatan que saiu logo em seguida, se aproximando para dizer algo em baixo tom:
_ Compraram o cigarro?
_ A gente compra naquele bar na saída da cidade. – Respondeu o André.
_ Então vamos.
Atravessamos a cidade até próximo à pista. Já sem o mesmo medo de antes peguei o dinheiro e fui comprar um maço. Chamei o Hugo para ir junto, mas ele se recusou. Pouco depois voltei, e o Jonatan já esperava com seu isqueiro na mão. Atravessamos a pista e entramos numa estradinha de terra, parando pouco mais à frente para acender uns cigarros. Dei uma tragada gostosa pelo tempo que fiquei sem fazer isso. O Hugo só me olhava, de cabeça baixa.
_ Hugo, desencana! Não é porque a gente fuma que você tem que fazer isso também. O Manezinho mesmo não fuma. – Disse, para quebrar um pouco o clima, e ele deu um leve sorriso.
Seguimos pela estradinha de terra, tendo mato de um lado e cana-de-açúcar do outro. Procurei ficar mais atrás com o Hugo, enquanto o André seguia como guia e o Jonatan e o Manezinho ao meio.
_ Vamos pegar essa outra estrada. Tive uma ideia. _ Disse o André.
Entramos pelo lado da mata numa estradinha que parecia há tempos abandonada, mas para as bicicletas não era problema. Chegamos a uma pequena ponte de madeira cruzando o riozinho que formava a cachoeira mais à frente. O André parou.
_ A ideia é pararmos com as bicicletas aqui e seguirmos a pé por dentro do rio. Acho que vai ser mais legal.
_ Mas e as bicicletas André? Deixamos onde? Mesmo prendendo com o cadeado é arriscado deixarmos aqui. – Indagou o Manezinho.
_ A gente pode prender uma na outra e afundar no rio. Como ele é estreito elas não vão sair do lugar. – Sugeriu o Jonatan.
Nos olhamos para ver se alguém iria contra a ideia, e como não aconteceu começamos o processo. Percebi que o Hugo estava ficando empolgado com aquilo tudo.
_ Não vamos fazer cagada dessa vez. Trouxe uma bolsinha impermeável. Assim o cigarro não vai molhar. – Falou o André enquanto mostrava orgulhoso a bolsa.
Bicicletas dentro d’água presas umas nas outras e vamos seguir por dentro do rio. De uma margem à outra não dava dez metros, hora estreitando hora alargando, possuindo uma leve correnteza. Com as roupas no corpo e tênis nos pés seguíamos em fila indiana, parando para mergulhar nos lugares mais fundos. Vez ou outra avistávamos alguma aranha ou lugares onde poderia haver cobras e desviávamos o caminho. Fazíamos como nos antigos Treinamentos de Guerra da infância, em que tudo se mostrava um obstáculo a ser enfrentado. Cerca de quarenta minutos depois chegávamos à cachoeira.
_ Iupiiii! – Gritou o Manezinho, já pulando no fosso de queda d’água onde sabíamos não ter pedras.
_ A corda que amarramos da última vez ainda está aqui. – Disse empolgado o André, se pendurando para depois se soltar e cair na água.
_ Vou colocar o cigarro embaixo daquela árvore. – Falou o Jonatan aconchegando o maço como se fosse um filhote.
_ Vamos Hugo! Prefere pular ou se pendurar?
Os olhos dele brilhavam ao ver aquele lugar escondido no meio do mato e que ele nem imaginava existir.
_ Como vocês descobriram esse lugar?
_ Andando por aí de bike. Tem muito lugar legal.
_ E pra beber água? Tô com sede já.
_ Hugo! Olha quanta água aí! É tudo limpo, e é água corrente. – E dei um gole gostoso enfiando quase que a cabeça inteira dentro da água.
Ele ficou um pouco receoso, juntou a palma das mãos e levou um pouco de água à boca, repetindo diversas vezes ao perceber que era boa a água.
Brincamos a tarde inteira, pulando do alto da pedra, se pendurando pela corda, entrando atrás da queda d’água, fazendo guerrinha de saibro e tudo mais. De tempo em tempo acendíamos cigarros, e o Hugo já não se incomodava como antes, estando bem mais enturmado com a galera.
_ É melhor irmos antes que escureça. – Disse o Manezinho.
Tiramos todo saibro do corpo, colocamos nossas roupas ainda encharcadas e começamos a fazer o caminho de volta. Tiramos as bicicletas da água, desprendemos as correntes e estávamos prontos para voltar.
_ Caramba! Que fome! – Disse o Hugo.
_ Vamos pegar umas frutas aqui e depois a gente pega cana na outra estrada. – Sugeriu o André.
Encontramos um pé de carambola e comemos algumas. Chegando na outra estrada quebramos umas canas e as descascamos com os dentes. O Hugo tinha certa dificuldade, mas logo pegou o jeito. Voltamos a pedalar em sentido à cidade.
_ Vamos fumar o último cigarro antes de cruzar a pista. – Disse o Jonatan.
O Hugo já era da turma, fazendo e recebendo brincadeiras de todos, o que me deixou bem feliz. Chegando à praça fomos nos despedir.
_ A gente se vê mais tarde pra boate? – Perguntou o André.
_ Certeza. – Confirmou o Jonatan.
_ Você vai também, né Hugo? – Convidou o Manezinho.
_ Vou ver com a minha mãe, mas acho que não vai ter problema não. – Respondeu.
_ André! – Chamei-o, à parte. – Me conta: o que aconteceu com o Vini? Você sabe de algo.
_ Nada não Leo. Deixa quieto. Mas ele é sujeira. Fica longe.
_ Me fala caramba! Entraram em casa e roubaram algumas coisas. E quem fez isso sabia onde ficava a chave do fundo. Acho que foi ele.
_ Filho da puta! Com você também?
_ Por quê? Quem mais ele sacaneou?
_ Com a irmã do Jonatan. Pegamos ele no pulo tirando folhas em branco de cheque da carteira dela.

“Desgraçado”, pensei. Nos despedimos e fomos embora. Agora tudo se explicava.

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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Aos Meus Amigos - 4 (Parte II)

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_ Cara, eu vou ser tio! – Disse na escola para o Hugo, o Cleber e o Mário, que agora pertencia de fato à turma. O Sidnei e o Tomás haviam se isolado entre eles, o que fez com que o Hugo e o Cleber também se afastassem dos dois.
_ Então a Rosália tá grávida? – Disse o Hugo. – E como seus pais reagiram?
_ Minha mãe quase surtou. Ficou perguntando onde havia errado, por que eles não usaram camisinha e essas coisas. Meu pai que se mostrou mais calmo, querendo saber desde quando sabiam.
_ E vocês foram comemorar? É isso? – Não se conformava o Mário, que tinha duas irmãs.
_ Pois é. Meu pai sempre foi assim. É difícil tirar ele do sério.
_ Se fosse algumas das minhas irmãs acho que meus pais as teriam matado. – Completou o Mário.
_ E você ainda tá de castigo Léo? – Perguntou o Cleber.
_ Até o fim de semana sim.
_ Nem pra jogar bola à tarde?
_ Nem.
A escola cada vez mais nos servia como ponto de encontro e paquera e menos como local de aprendizado. As aulas pareciam eternas e totalmente entediantes, a não ser por um ou outro professor que eram mais legais. Eu particularmente me dava melhor na área de humanas, e detestava as contas e fórmulas.
Na saída da escola, ao pegarmos nossas bicicletas para irmos embora, minha sentença era uma só aquela semana: direto para casa. A turma geralmente passava na sorveteria ou ia tomar um suco, e normalmente eu ia com o Hugo até boa parte do caminho, pois morávamos perto. Mas não aquela semana.
_ Falou galera. A gente se vê amanhã. – Me despedi enquanto paravam na sorveteria.
Quase chegando em casa avistei o Vini, também de bicicleta.
_ E aí Leo. Fim de semana já tá livre?
_ E aí Vini. Já sim. Tão combinando alguma coisa?
_ Acho que vamos jogar bétia. Seu primo que tá agitando. Contamos com você?
Por um instante gelei. Não pelo que o Vini havia falado, e sim por ver minha mãe passar de carro próximo a nós. Certamente ela tinha me visto.
_ Léo? Tá tudo bem? O que aconteceu?
_ Nada não. Fala pro André que depois ligo para ele. Tenho que ir. Falou. – E saí o mais rápido que pude.
_ Léo? Léo? – Ouvia o Vini gritar, mas nem olhei para trás.
Chegando em casa vi que o carro estava lá, então entrei já esperando a bronca.
_ Oi mãe.
_ Oi Léo. Tem lição para hoje? – Perguntou com bastante calma.
_ Só umas contas de matemática e uma leitura.
_ Então faz já pra ficar livre. A propósito, fim de semana vamos para um rancho com a tia Matilde. Sairemos no sábado de manhã e voltamos no domingo.
_ Como assim? Eu não preciso ir né?
_ Claro que precisa. A tia Matilde vai reunir os filhos nesse rancho e chamou a gente pra participar. Faz tempo que você não vê seus primos, sem falar nos de segundo grau, então você vai sim.
_ Mas mãe! Já fiquei sem sair no fim de semana, agora esse também?
_ Ficou sem sair sim, mas porque você mereceu. E esse é um encontro de família, então não tem discussão.
_ O tio Mané e a tia Josefa vão também? – Perguntei, na esperança do André ou do Manezinho também irem.
_ Não. Ela chamou apenas a gente.
Não acreditava naquilo. Novamente perderia um fim de semana com a turma. Aquilo me deixou tão nervoso que estava prestes a enfrentar minha mãe, mas me lembrei do que o vô Tonico havia dito, que teria a vida toda para sair com os amigos, ainda mais sob o risco de um novo castigo. Me calei e perguntei:
_ Posso chamar um amigo para ir então?
_ Quem você vai chamar? Não é aquele Vini Não né?
_ O Hugo. Se os pais deles deixarem ele pode ir?
_ O Hugo pode.

Falei com o Hugo no dia seguinte, na escola, e a tarde ele me disse que os pais dele tinham deixado. Liguei para o André.
_ Vão mesmo jogar bétia no fim de semana?
_ O plano é esse. Vai poder ir?
_ Não. Vou ter que ir para um rancho com meus pais pra um encontro com os filhos da tia Matilde.
_ Sua mãe tá foda heim Léo?
_ Tá sim. Mas marquem algo pro outro fim de semana que vou com vocês.
_ Ok. Falou.
_ Falou.

Na sexta o Hugo dormiu em casa, pois sairíamos bem cedo. Minha mãe não tinha deixado nem a gente dar uma volta, então ficamos vendo televisão e jogando jogos de tabuleiro até dar sono, e bem de manhã fomos acordados por ela. O rancho era bem legal: um casarão central onde ficava uma grande sala com os quartos ao redor e um quiosque contendo a cozinha com churrasqueira. Além do rio represado que formava uma prainha o rancho também tinha piscina.
A tia Matilde foi com a gente, e aos poucos foram chegando seus filhos e netos. Tinha o Alfredo, que era o mais novo, casado com a Bete e tinham um filho ainda bem pequeno, o Vitinho. O Edivaldo, do meio e casado com a Mara, tendo dois filhos, o Juninho e a Cássia, que eram uns cinco anos mais novos que eu. E, por fim, o Lúcio, casado com a Joana e com duas filhas, a Michele, que tinha a minha idade, e a Milena, da mesma idade da Cássia. Fazia tendo que não as via, e tanto o Hugo como eu nos surpreendemos com a beleza da Michele.
_ Sua prima é uma gata heim?
_ Pois é. Nem eu sabia que tava tão gata assim.
Fomos todos nos cumprimentando e arrumando as coisas, separando os quartos e conversando sobre o que fazer de almoço e tudo mais. Logo já nos enturmamos com as primas e fomos para a piscina. Meu irmão ficou vendo televisão no rancho, como sempre.
_ Além de gata sua prima tá gostosa heim?
Apenas sorri e fui jogar água nela e na irmã, o que deu iniciou uma guerrinha e começamos a nos divertir.

O dia todo foi bem gostoso, brincando hora na piscina, hora na represa, hora ao redor do rancho onde possuía algumas matas e outros ranchos. Combinamos de fazer uma fogueira a noite e contar histórias de terror, e cada vez mais o Hugo se encantava com a Michele, que era bem moleque nas brincadeiras e muito legal. A Milena e a Cássia, apesar de mais novas, eram bem divertidas, e grudaram na gente. Então combinamos de dar um susto nelas durante as histórias.
_ ... e foi então que começaram a ouvir barulhos dentro da mata, sem saber o que era, já que tinham se certificado durante o dia que estavam sozinhos... – Narrava eu uma tonta história de terror.
_ Chiiiii... Fez a Michele. – Vocês ouviram esse barulho?
_ Eu ouvi. – Disse o Hugo. – Será que é bom vermos o que é?
Nisso a Milena e a Cássia já estavam com os olhos arregalados de medo.
_ Deixa que eu vou. – Respondi. – Cuidem das meninas. Se eu não der nenhum sinal em dois minutos vocês saberão que algo aconteceu comigo.
_ Não é melhor corrermos para dentro? – Se manifestou a Cássia.
_ Não. – Disse o Hugo. – É melhor vermos o que é pra não assustar o pessoal lá dentro. Vai lá Léo.
Me afastei quase rindo pela arte que havíamos armado. Me dirigi para as árvores próximas à represa e desapareci para a vista deles.
_ Ahhhh!!! – Gritei tempo depois, fingindo.
_ Que foi isso? – Ouvi a Michele perguntando, fingindo susto.
_ Acho melhor eu ir ver. – Disse o Hugo, em tom heroico e se levantando.
_ Não! Fica com a gente. – Choramingou a Cássia.
_ Calma meninas. Eu fico com vocês. Pode ir Hugo. Talvez o Léo precise de ajuda. – Disse a Michele.
O Hugo se afastou e pouco depois também gritou, fingindo dor e angústia. Nisso eu já estava próximo a casa, tendo dado a volta por trás das árvores.
_ Vamos pra dentro! Vamos pra dentro! – Gritavam as meninas.
_ Vamos. Eu levo vocês. – Dizia a Michele, fingindo pânico.
Quando se aproximaram do casarão central saí com tudo vestindo uma capa de chuva amarela que havia no quarto, dando um grito para assustá-las.
_ Ahhhhh!!! – Berravam as duas, virando-se rapidamente para fugir, dando de cara com o Hugo, também com uma capa e gritando.
As duas se agacharam e começaram a chorar. O Hugo, a Michele e eu caímos na risada, enquanto todos saíram do casarão assustados com os gritos.
_ O que tá acontecendo? – Perguntou assustado o Lúcio, vendo sua filha menor aos prantos.
_ Foi uma brincadeira. A gente assustou elas. – Disse a Michele, ainda rindo.
Tomamos uma bronca leve devido o desespero das crianças, mas depois que passou era só risada por parte de todos, até da Cássia e da Milena, que nos xingavam e diziam que se vingariam.
No domingo foi tudo ok. Mais festas, farras e diversão. Depois do almoço arrumamos as coisas, limpamos o rancho e nos despedimos, fazendo promessas de manter contato. O Hugo estava todo apaixonado pela Michele, mas ela não parecia sentir o mesmo por ele.
_ Se divertiu bastante né Leo? – Perguntou meu pai enquanto voltávamos.
_ Foi bem legal pai.
_ E pensar que você não queria vir heim? – Disse minha mãe. – E você Lou, por que não se juntou aos outros? Só ficou na frente da televisão.
_ Só tinha criança. – Respondeu ele.
_ Babaca. – Soltei.
Deixamos o Hugo na casa dele e fomos para a nossa. Começamos a tirar as coisas do carro enquanto minha mãe abria a casa. Quando meu pai fechou o porta-malas viu uma coisa no chão.
_ Bem, você deixou cair sua bolsa? – Perguntou para minha mãe.
_ Eu não. Por quê?
_ Estava aqui na sarjeta. Olha.
_ Mas eu não levei essa bolsa. Ela estava no quarto. – Pegou a bolsa e percebeu que ela estava completamente vazia.
_ Alguém entrou em casa. – Disse meu pai correndo para dentro, preocupado.
Entramos e começamos a vasculhar os cômodos.
_ Meu tênis novo sumiu. – Disse meu irmão.
_ O meu relógio também. – Falou meu pai.
_ Mas não tem nada aberto! Quem entrou sabia onde ficava a chave no fundo. – Concluiu minha mãe.
Fiquei quieto. Não tinha sumido nada meu e eu sabia de pessoas que conheciam o esconderijo da chave: Silvinho, Jonatan e Vini.

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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Aos Meus Amigos - 3 (Parte II)

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_ Vô, posso dormir aqui?
_ Nada disso, Leo. Você está de castigo, lembra?
_ Deixa ele, Marilda. Eu e sua mãe ficaremos de olho nele. Tenho certeza que o Leo não vai desobedecer.
Fazia tempo que eu não dormia na casa do vô Tonico. Cada vez mais o que antes era a diversão começou a se tornar obrigação, pois ao invés de querermos ir pra casa dele almoçar ou jantar queríamos agora sair e nos divertir. Mas é claro que eu ainda amava muito os dois. Lá não tinha telefone, o que me deixava isolado de qualquer amigo. Minha esperança era que algum primo fosse pra lá também, mas, como disse, essa não era mais a prioridade deles também.
_ Vou caminhar de manhã Leo, como sempre. Quer ir?
_ Tá bom, vô. Pode me chamar. – Respondi, desanimado na frente da televisão.
De manhã a vó Cotinha sempre acordava cedinho pra preparar café pro vô Tonico, e quando eu era criança ela sempre me chamava para que fosse me deitar com ele, coisa que eu adorava. Percebi que ela havia se levantado e os ouvi conversar.
_ Bem? Eu chamo o Leo? Não sei se ele ainda gosta de vir se deitar com você.
_ Acho melhor não querida. Ele já tá grande, e talvez pense que isso é coisa de criança.
Aquilo me atingiu com tudo, e quase comecei a chorar. Não aguentei, me levantei e fui até o quarto do vô Tonico, me deitando ao seu lado.
_ Leo? Tá tudo bem?
_ Tá sim, vô. Tá tudo ótimo.
E o abracei como sempre fazia. Percebi que a vó Cotinha observava de fora do quarto.
Como se o tempo tivesse voltado, pouco depois aparece a vó Cotinha com o café do vô Tonico e uma caneca de sopinha de pão, que era leite com achocolatado e pão encharcado dentro, que eu adorava desde pequeno. Aquilo me encheu de alegria e lembranças. Como podemos nos esquecer dessas coisas boas quando crescemos?

Sua mãe me contou o que houve Leo. – Disse o vô Tonico enquanto caminhávamos em sentido ao antigo matadouro, que agora era um campinho de futebol de uma empresa privada. – Por que fez isso? Você sempre foi tão obediente.
Não sabia o que dizer, pois nem eu sabia direito o porquê daquilo. Como explicar que eu era visto como medroso pelos meus amigos?
_ Só queria ficar com os meus amigos, vô.
_ Você tem a vida toda pra isso, Leo. Hoje mesmo poderia estar com eles se não estivesse de castigo.
_ Mas todos eles vão embora mais tarde de sábado. Só quis ficar um pouco mais, acompanha-los, ver o que faziam até mais tarde.
_ E você pensou em pedir isso aos seus pais? Explicar essa sua vontade? Talvez eles tivessem deixado sem precisar desobedece-los.
Fiquei quieto ao perceber que ele tinha razão, apesar de saber que não era essa a real razão para ter ficado até mais tarde.
_ Vamos voltar Leo. Até aqui já está bom.
_ Mas não estamos nem na metade vô! Nem chegamos perto da pista.
_ Faz tempo que não chego até lá, Leo. Meu limite é aqui.
Mais uma vez fiquei quieto, dessa vez por perceber o quanto ele estava velho. Foi muito estanho, pois pela primeira vez me passou pela cabeça que um dia ele nos deixará, e imediatamente olhei para onde antes ficava o velho matadouro, recordando antigas lições.

Meus avós sempre comiam no mesmo prato, juntos. Costume de uma época em que a vida dos dois era mais difícil e que tinham que fazer isso por não haver pratos para todos. Meu lugar desde pequeno era ao lado do vô Tonico na mesa, e era lá que eu estava no momento, pronto para almoçar. Além de nós três também estavam meus pais e a tia Matilde, que era divorciada a muitos anos do tio Ribeiro, do qual nem tínhamos contato.
_ Pegou todos os remédios, mãe?
_ Peguei sim Marilda.
E então reparei na pequena montanha de remédios que minha vó precisava tomar. Sabia que de tempo em tempo meus pais ou algum outro tio a levava ao médico em outra cidade, mas não sabia ao certo por quê.
_ Pra que tanto remédio, vó? – Perguntei.
_ Sua vó tem diabetes e reumatismo, Leo. Já devia saber. – Disse meu pai, que gostava muito do vô e da vó, já que não tinha o mesmo contato com seus próprios pais.
_ Deixa ele perguntar Francisco. Nessa idade já não reparam nessas coisas. Têm seus próprios interesses.
_ Mas já dá pra ver que ele não é mais o mesmo, né mãe? O carinho que ele tinha por vocês, e agora bebendo por aí e chegando tarde... Fora as más companhias com aquele tal de Vini.
_ Não fala assim do Vini! – Disse em tom alto. – Você não o conhece. Ele é meu amigo e é muito gente boa.
_ Tô te falando, Leo: Se te ver andando com ele de novo...
_ Já chega vocês dois! – Interrompe o vô Tonico. – Estamos todos almoçando e isso não é hora para brigas.
_ Tá certo pai. Mas esse menino não é mais o mesmo.
E almoçamos quase que em silêncio, fora um ou outro comentário puxados pela vó Cotinha ou pela tia Matilde.

Passei a tarde com meus avós, jogando baralho ou assistindo televisão. Os dois tinham uma vida bem calma, e eram grandes companheiros um do outro. O vô Tonico adorava tomar caipirinha e fumava bastante, o que sempre dava uma vontade de fumar e beber também. Claro que cigarro eu não ousaria pedir, mas vez ou outra pedia um gole da caipirinha.
_ Só molha o bico, heim? – Era o que ele sempre dizia.
No meio da tarde ouço alguém me chamar, e quando olho por cima do muro percebo que era o Vini, ficando sem saber o que fazer.
_ Tão te chamando Leo. Não vai ver quem é? – Disse a vó Cotinha enquanto preparava um bolo de fubá.
_ Já vi daqui vó. É o Vini. Mas minha mãe não quer que eu fale com ele.
_ Pode ir, Leo. – Disse o vô Tonico. – Mas não saia da frente de casa.
E assim o fiz. Desci a escada e fui até o portão. O Vini veio em minha direção.
_ Ou. Seu primo disse que você tá de castigo.
_ É. Fim de semana sem sair de casa. Pelo menos me deixaram ficar aqui.
_ Chato heim? Ia te chamar pra dar um rolê de bike e fumar uns cigarros, mas acho que não vai rolar, né?
_ Bem que eu queria, mas sem chance.
_ Escuta. Você não tem uma grana pra me emprestar? No outro fim de semana te pago.
Por alguma razão eu disse que não, sendo que eu tinha um pouco de dinheiro no qual certamente teria emprestado a um amigo, mas naquela hora não me senti à vontade para aquilo.
_ Firmeza então. Fim de semana a gente se fala. Até mais, Leo. – E foi embora.
Entrei e me dirigi até meus avós, que continuavam no mesmo lugar: a vó preparando o bolo e o vô ouvindo seu radinho de pilha enquanto tomava caipirinha.
_ Vocês vão falar pra minha mãe que eu conversei com o Vini?
_ Você não fez nada de errado Leo. Não tem por que contarmos. – Disse o vô Tonico. Então me sentei próximo a ele e fiquei desenhando num pedaço de papel de pão que minha vó sempre guardava.

À noite, pouco antes do jantar, minha mãe, meu pai, meu irmão, minha irmã e o noivo dela apareceram na casa dos meus avós, o que achei estranho por estarem todos juntos daquele jeito. Não que isso fosse fora do comum, mas não num sábado à noite. A Rosália e seu noivo, o Roberto, estavam um tanto quietos, com um clima estranho no ar. Ela parecia que tinha chorado.
_ Vão se arrumar. – Disse meu pai para mim e meus avós. - Vamos sair pra comemorar.
Aquilo soou estranho para nós, pois suas feições não pareciam com as de quem fossem comemorar algo. Até que a vó Cotinha se arriscou:
_ Comemorar o que Francisco?
E foi minha mãe quem respondeu:
_ A Rosália tá grávida mãe. Por isso marcaram o casamento. Hoje que nos contaram.
A Rosália abraçou o Roberto e começaram a chorar. O vô Tonico foi até eles e os abraçou:
_ Certamente temos que comemorar. Uma nova criança na família é sempre uma benção.
                     E, quase que automaticamente, todos se abraçaram e começaram a chorar, até mesmo meu irmão e eu.

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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Aos Meus Amigos - 2 (Parte II)

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Depois da primeira bebedeira minha mãe adotou a prática de ter que chama-la para abrir a porta depois que chegávamos de uma balada, cheirando nossa boca para saber se havíamos bebido, o que conseguia driblar facilmente com a técnica ensinada pelo André de abrir a boca mas soltar o ar pelas narinas, além, é claro, de uma boa e forte bala na boca. Dificilmente meu irmão e eu chegávamos juntos, mas ainda assim tínhamos que chama-la. Minha irmã estava com o casamento marcado e, por isso, ganhara o direito de dormir na casa do agora noivo, já não sendo mais um problema para meus pais.
Como meu irmão era mais velho podia chegar um pouco mais tarde do que eu, mas isso quase nunca acontecia. Meu horário limite era duas da manhã, e o dele as três. Por se tratar de uma cidade pequena íamos a pé para todos os lugares de forma que tínhamos bastante liberdade.
_ Tchau mãe. Estamos saindo. – Anunciei.
_ juízo heim! Não esquece de me chamar quando chegarem. Lou cuida do seu irmão.
_ Tá.
Naquela noite iriamos para a boate. Era a única da cidade e onde todos se encontravam. O roteiro era basicamente o mesmo: lanche com os amigos, volta no centro até por volta da meia noite e boate. Meu irmão e eu seguíamos juntos até encontrarmos nossas turmas, e então, adeus.
_ E aí moçada? – Cumprimentei ao encontrar o André, o Jonatan e o Manezinho no lanche. – O Vini não apareceu ainda?
_ Deve tá pra chegar. E aí, comprou o cigarro? – Perguntou o André.
_ Ainda não. Se te der o dinheiro você compra?
_ De novo essa história Leo? Você tem que criar coragem e comprar. Ninguém liga pra idade, só querem vender. – Disse o Jonatan, irritado.
Fiquei quieto, com a cabeça baixa, até que o Manezinho se pronunciou.
_ Daqui Leo. Eu vou.
_ Mas Manezinho, você nem fuma! – Disse, espantado.
_ Não fumo, mas posso comprar. Me dá o dinheiro.
Fiquei um pouco sem graça, mas o fiz, e tempo depois ele volta com o cigarro. Fiquei me sentindo um bosta.
_ Como foi? – Perguntei.
_ Fácil.
E me senti mais bosta ainda.
O Vini chegou e fomos comer lanche, mas o Vini não comia nunca, só nos acompanhava, sempre dizendo que já tinha jantado. Demos um rolê no centro até chegar a hora de ir pra boate. Percebi que o Vini combinava alguma coisa com o André e o Jonatan.
_ Que tá pegando? – Quis saber.
_ O Vini tá sem grana para a boate, e estamos armando um esquema. – Respondeu o André.
_ É. – Disse o Jonatan. – Parece que se você colocar um pouco de álcool nas costas da mão e alguém que já tem o carimbo de entrada colar a mão por cima consegue passar o carimbo.
_ Verdade! Vamos tentar.
O Vini já tinha saído com um pouco de álcool num potinho, então o Manezinho, o André e eu entramos, tendo as mãos carimbadas. Pouco depois o André e o Manezinho saíram com o objetivo de passar o carimbo, e eu fiquei aguardando. Pouco mais de dez minutos depois estavam todos lá, de modo que o Jonatan aproveitou para entrar de graça também, com a promessa de usar o dinheiro da entrada para comprar bebidas para todos nós, e assim descobrimos um jeito de economizar a entrada para beber mais. Só fiquei incomodado por terem chamado o Manezinho para fazer o esquema e não eu...
A boate estava lotada, mal dando para andar. Aos poucos íamos encontrando conhecidos, conversando um pouco e voltando a tentar andar, sempre trombando em outros conhecidos ou paqueras.
_ A Jéssica tá gostosa pra caramba hoje. – Comentei.
_ E se tá! Será que tenho chance? – Quis saber o Jonatan.
_ Desencana. Nenhum de nós tem. Ela só sai com cara mais velho. – Já desanimou o André. E continuamos a andar.
_ Quem pega a próxima rodada? – Perguntou o Vini.
_ Vai você Leo. – Sugeriu o Jonatan.
_ Ok. – Respondi.
Peguei o dinheiro e me dirigi ao bar com o objetivo de comprar três martinis, que dividiríamos. Me coloquei na fila e pouco depois senti me cutucarem o ombro. Olhei.
_ Que você vai comprar?
Era meu irmão e, apesar de saber que eu bebia, era louco pra me pegar no flagra pra poder tirar proveito depois.
_ Um refri. – Disfarcei.
_ Então vou ficar aqui com você. Vou comprar um pra mim também.
“Babaca”, pensei, pois sabia das suas reais intenções. Chegou minha vez na fila e pedi um refrigerante. Dei um sorriso amarelo para ele e sai. Mal dei dois passos para me afastar e dei de cara com o Vini.
_ Pegou as fichas? Vamos pro bar que a galera tá sedenta.
Fiquei sem reação e, ao perceber minha cara, pegou a ficha da minha mão.
_ Porra Leo! Que merda é essa?
_ O babaca do meu irmão colou em mim e ai... – Nem terminei de falar quando o Vini desabafou.
_ Você é muito medroso Leo. Garanto que se pedisse pra você fazer o lance do carimbo você não toparia por medo.
Aquilo bateu forte em mim e, embora tenha pensado em responder, não saia nada da minha boca.
_ Da aqui que eu compro. – Disse o Vini já tirando o dinheiro de mim.

A noite foi passando com todo mundo se divertindo menos eu, que estava quieto e pensativo. Quando o relógio marcou uma e quarenta o Manezinho anunciou:
_ Tô indo galera. Deu meu horário. Vamos Leo?
_ Vou ficar até mais tarde hoje. – Disse quase sem soltar as palavras. Todos olharam para mim.
_ Mas você não tem que chegar às duas horas também? – insistiu o Manezinho.
_ Tenho, mas não vou. Minha mãe não vai nem perceber.
_ Leo, sua mãe sempre acorda, você sabe disso. É melhor você ir. – Disse o André, que não tinha hora para ir embora.
_ Não tenho medo da minha mãe. Não sou medroso. – Disse, fingindo convicção. Todos se espantaram, mas não falaram nada.
O Manezinho foi embora e restaram o André, o Jonatan, o Vini e eu. Meu irmão já não estava mais por lá havia um tempo, e fiquei até acabar a boate por volta das três e meia. Saímos de lá e fomos para frente da igreja comer cachorro-quente. Por volta das quatro e dez o André se despediu.
_ Tô indo nessa pessoal. Tô caindo de sono. Você vai ficar ainda Leo?
Olhei para o Vini, que deu um leve sorriso.
_ Vou sim. Mais um pouco.
_ Bem. Se sua mãe te matar me tira dessa, heim?
_ Já disse que não tenho medo...
Fumamos uns cigarros e pouco depois o Jonatan também foi embora, mas esperei até que o Vini também quisesse ir, já por volta das cinco da manhã.
_ A gente se fala mais tarde.
_ Beleza.
Chegando em casa vejo a luz da sala acesa, e aquilo me apavora. Mal abro o portão e minha mãe já destranca a porta, saindo e me encarando.
_ Onde você estava até uma hora dessas?
_ Ah Mãe! Não enche!
_ O que você disse? Repete se tiver coragem!
Aquela palavra outra vez, coragem. Mas dessa vez o medo foi bem maior e me calei.
_ Quero saber com quem você estava.
_ Com o Vini.
_ É aquele moleque que eu não gosto que mora perto da casa da vó, não é?
_ É, mas...
_ Nada de mas. Nunca fui com a cara dele e não quero você andando mais com ele, entendeu bem?
_ Mas mãe...
_ Já disse e pronto. E você está de castigo. Duas semanas sem sair.
_ Você fala isso dele só porquê ele é podre.
_ Eu sou sua mãe e sei o que é melhor pra você. Aquele menino não presta. Não quero mais você com ele. Agora vai para a cama que amanhã seu pai e eu vamos ter uma conversa séria com você.

Dessa vez obedeci, com os olhos cheios de lágrimas e muito nervoso. O Vini não tinha nada a ver com aquilo. Não era justo ela me proibir de andar com ele. Mas, para minha sorte, aquela noite ela não tinha cheirado minha boca. Do contrário certamente sentiria o cheiro de cigarro.

(Continue a ler em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2014/01/aos-meus-amigos-3-parte-ii.html )

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Aos Meus Amigos - 1 (Parte II)

(Não leu desde o inicio? Então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html )

_ Que tá fazendo, Leo? – Perguntava o André pelo telefone.
_ Tô de boa em casa, assistindo televisão.
_ Dá um pulo aqui em casa. O Jonatan e eu compramos uma garrafa de Uísque.
E foi assim que deu inicio a noite do meu verdadeiro primeiro porre. Minha mãe havia ido jogar baralho na casa de uma amiga. Meu pai estava num churrasco com a turma do futebol e meu irmão tinha saído com seu amigo, o Borges. Minha irmã, pra variar, estava com o namorado. Era um sábado à noite, véspera de eleições municipais. Eu tinha dito aos meus pais que estava cansado e que não iria fazer nada, e a intenção realmente era essa, até ouvir o convite do André.
_ Opa! Já tô descendo.
Troquei de roupa, peguei a bicicleta e fui pra lá rapidinho. Coloquei calça e camiseta novas, pois, conhecendo os dois, certamente daríamos uma volta no centro depois, já que era sábado à noite.
Chegando lá o André e o Jonatan estavam sentados na área, tomando o uísque e jogando baralho. A tia Josefa não dava muita bola por bebermos, e geralmente ficava no seu quarto quando o tio Ernesto estava viajando a trabalho, mal saindo de lá.
_ Pega um copo na cozinha e trás mais gelo para nós. – Disse o André, e assim o fiz.
Enchemos os copos e acendemos cigarros, dando inicio a um jogo de caxeta.
_ Sua mãe não vai sair do quarto mesmo? – Quis ter certeza antes de pegar o cigarro para dar uma tragada.
_ Relaxa Leo. Há essa hora ela já está no décimo sono.
Pouco depois outra enchida de copos.
_ Será que a praça vai tá cheia hoje?
_ Sei lá. Depois da meia noite é lei seca, então acho que vai acabar cedo.
_ Opa! Bati seus imbecis.
E mais uma enchida e cigarros.
_ Vai lá pegar mais gelo, Jonatan.
_ Ok. Vou aproveitar e dar uma mijada. Caraio...!
_ Que foi?
_ Levantei e rodou tudo, hahahaha. Que massa.
E outra rodada...
_ Por que o Vini não veio?
_ Passei na casa dele e não tinha ninguém.
_ Porra! O gelo acabou de novo...
Tempo depois tínhamos matado a garrafa toda.
_ Vamos dar um pulo no centro?
_ Opa! Vamos ver umas gatinhas.
_ Caramba Jonatan! Tinha razão, foi só levantar que deu tontura.
_ A gente tava bebendo sentado. Aí nem percebe que tá ficando bêbado. Da hora, hahahaha.
E saímos os três, trançando as pernas, em direção ao centro onde estava o movimento.
Tudo parecia irreal: as pessoas davam a impressão de estarem mais alegres; as luzes deixavam rastros; os sons estavam mais lentos... não conseguíamos manter a atenção ou terminar um diálogo. Até que encontramos o Vini junto com o Silvinho.
_ E aí moçada. Parece que vocês já estão bem, hahahahaha. Que acha Silvinho?
_ Acho que já passaram do chamado “bem”. Que tá sentindo, André?
Quando o Jonatan e eu olhamos, o André estava pálido, com a cabeça baixa e mais molenga que o normal da bebedeira.
_ Tô passando mal. Acho que vou vomitar...
_ Caramba! Pra levar ele pra casa tá meio longe agora. – Disse o Vini. Então sugeri:
_ Vamos levar ele na minha casa. É aqui pertinho.
_ Mas sua mãe não vai ficar brava?
_ Não tem ninguém em casa a essa hora. E se o André dormir lá não tem problema.
E seguimos em direção à minha casa, de modo que o Jonatan e eu nos apoiávamos um no outro, enquanto o Vini e o Silvinho praticamente carregavam o André.
_ Chegamos. Esperem aí que eu vou pegar a chave. – Disse.
_ Pegar a chave? – Se espantou o Vini. – Mas você não disse que não tinha ninguém?
_ A gente deixa uma chave no armarinho aqui no fundo. Pera aí.
Entrei pelo portãozinho lateral, que ficava sempre aberto, me dirigi ao banheiro do fundo e peguei a chave no armarinho, voltando para frente e abrindo a porta.
_ Vamos levar ele no banheiro. Uma ducha gelada sempre ajuda. – Disse o Silvinho.
Tiramos as roupas do André, que já estava praticamente desmaiado, e o colocamos debaixo do chuveiro, deixando-o lá.
_ Acho que vou para a casa, Leo. – Disse o Jonatan, com ar de muito bêbado.
_ Você tá bem para isso?
_ Devo tá. Amanhã a gente se fala... – E saiu
_ Você tem café aí? – Quis saber o Vini. – Vou preparar um pouco pro André.
Mostrei onde tinha e ele começou a fazer, deixando uma bagunça na cozinha.
Tempo depois tiramos o André do chuveiro, demos café para ele e o colocamos para dormir num colchão na sala do fundo, onde eu costumava dormir aos fins de semana por ter televisão e ficar mais afastado dos outros quartos. Me despedi do Silvinho e do Vini, agradecendo, e resolvi dormir também, colocando outro colchão ao lado do que o André estava. Quando entro na sala ele estava vomitando um monte ao lado do colchão, sujando tudo, e quando acabou voltou a capotar de sono ou bebedeira.
_ André! André! Acorda pra limpar essa merda, porra! – Mas nada dele sequer abrir os olhos.
Chapado, peguei uma toalha de rosto e comecei a empurrar o vômito para baixo do sofá, me livrando momentaneamente daquele nojo. Feito isso decidi, enfim, deitar para dormir. Arrumei o colchão e o lençol e me deitei, mas tudo começou a rodar.
_ Que merda! – Pensei, e levantei para ir ao banheiro, com a ideia de forçar o vômito para ver se melhorava...

_ Leo! Leo! O que você bebeu? Responde moleque... – Perguntava meu pai enquanto me segurava debaixo do chuveiro gelado.
Meu pai e meu irmão chegaram praticamente juntos, e foram para o fundo ver como eu estava, já que havia dito que não iria sair. Com as luzes todas apagadas, meu pai tropeçou em algo macio e começou a dizer:
_ Sai Tobi! Sai! – Referindo-se ao cachorro que pensava estar no meio do caminho, mas o Tobi não saia, e então decidiu acender as luzes, me encontrando lá, caído de bêbado no meio do corredor.
_ Uísque... – Respondia debaixo do chuveiro, mal conseguindo falar.

Acordei pelado na cama, demorando para entender o que havia acontecido. Me troquei, acordei o André e descemos voando para o almoço na casa da vó Cotinha, onde fomos a sensação, tanto na bronca como na gozação:
_ Se aprontar outra dessa nunca mais sai de casa. – Falava minha mãe.
_ Todo mundo tem o primeiro porre, filha. – Defendia o vô Tonico.
_ Não criei meu filho pra isso. – Dizia o tio Ernesto, que havia chegado de viagem cedinho para votar.
_ Querem um golinho de caipirinha? – Oferecia o tio Mané, rindo ao ver nossa cara de nojo só de pensar em algo alcoólico.
E assim foi nosso domingo, sem poder sair da casa da vó Cotinha para nada, nos divertindo apenas enquanto contávamos para o Manezinho e o João da cagada que havíamos aprontado até a parte que nos lembrávamos. Mas risada mesmo demos quando encontramos o Jonatan, com o braço esquerdo todo ralado.
_ Eu só conseguia ficar em pé escorado no muro, mas devido à bebedeira eu ficava dando voltas no quarteirão. Ó o resultado, ó! Ralei todo o braço e nem senti na hora...

E foi só risada depois que tudo passou.