sexta-feira, 14 de março de 2014

Aos Meus Amigos - 7 (Parte II)

(Não leu desde o inicio? Então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html )


Depois de todos os preparativos, o casamento da Rosália chegou. Nitidamente estavam todos nervosos, mesmo meu irmão e eu.
_ Vamos receber visitas de fora e precisaremos da ajuda de vocês. – Dizia meu pai para mim e meu irmão.
A igreja escolhida não era a Matriz, e sim uma pequena igreja de bairro escolhida pela mãe do Roberto. Estava tudo muito simples, mas muito bonito. Em nossa casa ficariam o tio Osório com sua mulher, tia Débora, e um neto, o Humberto, que era da idade do meu irmão. Os dois não pareciam se dar muito bem, mas eu gostava bastante dele.
Uma coisa interessante foi o fato do casamento reunir a família do meu pai também, que moravam em outra cidade. Eram dois irmão: o tio Osmar, irmão mais novo, sendo meu pai o do meio, casado com a tia Telma, e possuíam um casal mais novos que meu irmão e eu, sendo a Amélia e o Alex; e a tia Ludmila, casada com o tio Álvaro, e tinham duas meninas mais velhas que nós, a Rosana e a Maria. Meus avós paternos também foram, claro, o vô Joaquim e a vó Ofélia.
_ Fala oi para seus avós e dê atenção para seus primos. Faz tempo que você não os vê. – Pediu meu pai.
_ Ok pai. Vem comigo Humberto?
_ Claro. Assim você me apresenta eles.
E fomos. Meu irmão nos acompanhou.
_ Oi tia...
Mal deu tempo de falar e a tia Telma já foi me apertando:
_ Leo! Como você cresceu! Lourenço! Já tá um moção! Amélia e Alex! Venham falar oi para seus primos...
E assim foi, fazendo o social e interagindo com meus primos. Meu irmão se enturmou mais com a Rosana e a Maria, enquanto eu e o Humberto ficamos papeando com a Amélia e o Alex. Pouco depois os outros primos foram chegando e as atenções foram se dividindo, mas o Humberto ficou comigo o tempo todo. Nos juntamos ao Manezinho, ao André e ao João, que fazia tempo que não o via.
_ E aí Leo? Quanto tempo. É o Humberto com você?
_ É sim. Lembra dele? Como estão as coisas?
_ Muito legal na escola agrícola. Vocês podiam passar um fim de semana lá. Ficariam no alojamento e tudo mais.
A conversa nos empolgou, e ficamos combinando de ir enquanto ele contava as aventuras de morar longe de casa.
Pouco depois foi anunciado que o casamento iria começar. Sentamos todos pertos e teve inicio a cerimônia, naquela velha ordem de sempre: entram os padrinhos, se posicionando no altar; o noivo, aguardando a noiva; o atraso da noiva, trazida pelo tio Mané no carro bonito do tio Osório e, finalmente, a entrada da noiva.
_ Você tá chorando Leo? – Se espantou o André.
_ Não enche! – Respondi, com os olhos cheios de lágrimas.

A cerimônia foi muito bonita, deixando bastante gente emocionada. Minha mãe não parava de chorar, e percebia que meu pai só não chorava porque estava se segurando. Sentados juntos, meus primos e eu aproveitávamos para localizar umas gatinhas entre os convidados na igreja, e tinha algumas, conhecidas ou não.
_ Gostosa aquela ali de amarelo. É parente do Roberto? – Perguntou o João.
_ Deve ser. Nunca a vi. – Respondi. – Tem aquela perto da porta lateral também. Bem gata.
_ Aquela é a Michele? Neta da tia Matilde? – Reparou o Manezinho.
_ É sim. Lembra que falei que tá um espetáculo? Depois a gente vai falar com ela.
_ Ô Leo? Será que a gente consegue umas bebidas escondidas na festa? – Era a preocupação do André.
Na festa ficamos todos juntos em duas mesas: eu, André, Manezinho, João, Humberto, Michele, Milena, Cássia, Amélia, Alex, Rosana, Maria e meu irmão. A festa era num salão comunitário que pertencia à igreja, com decoração mínima e servindo churrasco e bebidas: cerveja, refrigerante e água. Sob o olhar de vários membros da família enchíamos nossos copos com refrigerante, mas matutando para conseguir alguma cerveja escondida, sem encontrar soluções.
_ E se você fosse lá, Humberto? Quase ninguém te conhece mesmo? – Sugeriu o André.
_ Desculpe moçada, mas eu não bebo. E se meu vô me pega numa dessa ele não me leva mais pra lugar nenhum.
_ Droga!
_ O Alfredo não pegaria pra gente, né? – Cheguei a sugerir.
_ Conhecendo o tio Alfredo, de jeito nenhum. – Já avisou a Michele, que se empolgava com a ideia de beber com a gente.
_ André! E seu irmão? – Indagou o João, que já havia nos contado de cachaçadas memoráveis no alojamento em que morava.
Todos nós olhamos para o Rodolfo: mais velho, solteiro, bon vivant. Vivia indo para baladas em outras cidades e sempre chegava chapado segundo o André. Decidimos arriscar.
O Rodolfo estava sentado com uns amigos solteiros do Roberto, e todos bebiam empolgados, enchendo a mesa de garrafas.
_ Faz tempo que não o vejo. – Disse o João. – Então vou lá cumprimenta-lo só pra medir a febre.
_ Vai com ele Humberto. Mesmo que você não beba, por ser mais velho talvez ajude. – Sugeri, e ele topou.
Os dois foram, enquanto observávamos curiosos, e nos surpreendemos logo de cara: mal o Humberto e o João chegaram o Rodolfo os cumprimentou, cheirou seus copos fazendo uma careta, jogou fora o conteúdo e encheu de cerveja. O João dava umas olhadas pra gente, animado, enquanto o Humberto olhava para o copo sem saber o que fazer. Os dois se sentaram com ele um pouco e vimos o João cochichar algo. O Rodolfo deu risada, um pouco irônica, e chamou o João para acompanha-lo. Nisso o Humberto voltou para nossa mesa.
_ Tó! Vê o que fazem com isso. – Disse, entregando o copo. – Se meu vô me pega com isso tô ferrado.
_ E aí? O que aconteceu? Conta pra gente! – Queríamos saber.
_ Não ouvi direito o que conversaram, mas o Rodolfo deu uma risada, disse que somos tontos e chamou o João para a cozinha.
Procuramos os dois e nada, até que pouco depois vimos o João saindo da cozinha com uma garrafa de refrigerante e vindo pra nossa mesa com um grande sorriso.
_ Olha o que eu trouxe!
_ Grande coisa! Refrigerante tão servindo na mesa. – Retrucou o André.
_ Então bebe desse “refrigerante” que você vai ver...
Me levantei e peguei a garrafa. Virei meu copo de refrigerante e o enchi com o conteúdo da garrafa, percebendo se tratar de cerveja. Ficamos todos felizes.
_ Seu irmão é foda André. – Contou o João. – Ele me levou até a caixa térmica de bebidas na cozinha. Cerveja e refrigerante estão na mesma caixa, e o gelo faz com que os rótulos se soltem. Como as garrafas são iguais ele só trocou os rótulos. Pronto! Agora, sempre que quisermos “refrigerante” é só buscarmos direto na cozinha.
Aquilo foi o êxtase para nós. Até meu irmão deu umas bicadas na cerveja depois daquilo, juntamente com a Rosana e a Maria, que às vezes davam pequenas goladas. O Humberto não quis se arriscar.
_ Se vocês contarem pra alguém vão se ver com a gente, viu? – Era a ameaça da Michele para a Cássia e a Milena.
Claro que também pedimos sigilo para a Amélia e o Alex.

O restante da festa foi maravilhoso. Procuramos nos controlar para não dar na cara que estávamos bebendo, sempre revezando as garrafas com uma de refrigerante mesmo. Durante a passagem dos noivos pelas mesas dos convidados rimos muito com a farra que o Roberto fez com o vô Tonico e a vó Cotinha. Ele gostava muito dos dois, e o Roberto sabia ser divertido. 
No final nos despedimos de alguns primos que iriam embora para outra cidade e combinamos com os outros de fazer algo no domingo. Dessa forma a Michele, a Milena e a Cássia forma embora, o Humberto, o André, o João, o Manezinho, meu irmão e eu iriamos almoçar na vó Cotinha mas depois passaríamos na casa do vô Joaquim para ir tomar sorvete com a Amélia, o Alex, a Rosana e a Maria antes deles irem embora. Foi um fim de semana muito gostoso, e foi o comentário entre a gente por toda semana. Mas a alegria acabou logo, pois na quinta-feira a vó Cotinha foi internada. Sua diabete estava muito alta.

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quinta-feira, 6 de março de 2014

Aos Meus Amigos - 6 (Parte II)

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O fim de semana tinha sido muito bacana. Além da cachoeira o Hugo também foi na boate com a gente e se enturmou mais ainda, contando empolgado para a turma da escola, o que os animou para uma próxima vez. Isso era tudo o que eu queria: juntar as duas turmas. Não disse nada para os meus pais da descoberta do Vini, mas de certa forma eles sabiam, pois não me viram mais com ele ou falar dele, e acho que isso já era o suficiente para não tocarem mais no assunto. Depois do episódio passamos a ter uma chave cada, de modo a eliminar a tal chave no fundo.
Claro que eu ainda veria o Vini, e foi naquela mesma semana, enquanto andava pelo centro. O avistei do outro lado da rua e a primeira intenção que tive foi de ignorá-lo, mas resolvi olhar para ele, ver sua reação, e assim o fiz. Fiquei encarando-o, esperando. Ele me olhava, e depois olhava para o chão, sem saber o que fazer, até que fez um joia com o dedão, balançou a cabeça negativamente para si mesmo e saiu andando. Não havia mais dúvidas que tinha sido ele, e depois disso ele sumiu dos lugares que costumávamos ir, avistando-o apenas de vez em quando, em lugares isolados. E mais uma amizade chegava ao fim.

_ Vocês passam no meu primo comigo? – Perguntei à turma ao sairmos da escola. – É rapidinho.
_ Claro Leo. – Disse de imediato o Hugo.
_ Vocês vão combinar algo para o fim de semana? – Quis saber o Cleber.
_ É isso mesmo. – Respondi.
_ Opa! Vamos sim. Quem sabe da para eu ir. Vamos Mário?
_ Pode ser...
Pegamos nossas bicicletas e fomos, chegando quase que ao mesmo tempo que o André.
_ Qual o plano para o fim de semana André? – Foi perguntando o Hugo, já se mostrando bem amigo dele.
_ Durante o dia ainda não sabemos, mas pra noite estamos combinando um bilhar antes da boate.
_ Bilhar? – Se surpreendeu o Mário, que sempre jogava no clube e gostava bastante.
_ É. O Jonatan foi com o Silvinho jogar no bar do Pescocinho e disse que é bem massa lá. Que acham?
Para mim estava ótimo, e se o Mário ficava em dúvida em relação a sair com a gente acho que naquela hora o havíamos fisgado. O Hugo e o Cleber que estavam mais relutantes por não estarem acostumados a bares e coisas assim.
_ Tá dentro Hugo? – Perguntei.
_ Não sei...
_ Bem, vocês me falam depois. Até mais moçada. – Despediu-se e entrou o André.
Enquanto pedalávamos até onde nossos caminhos se dividiam fomos conversando.
_ Nunca fui a bares, Leo. Acho que não é legal. – Estava preocupado o Hugo.
_ Eu também não. – Disse o Cleber.
_ Que isso gente! Não tem nada de mais. Sempre vou com eles pra jogar fliperama ou comprar cigarro. E é pra jogar bilhar.
_ Cara! É isso que tá me animando. Nunca joguei com outras pessoas fora do clube. Acho que vou, Leo. – Disse o Mário.
_ Então gente! Vamos os quatro. Assim ninguém fica isolado se tiver chato.
E acabaram concordando, mas com certa dúvida ainda.

Chegou o fim de semana. Na sexta dormi na casa do André e saímos para dar umas voltas, encontrando os moleques da escola na praça. Como não tinha nada certo para o sábado a tarde cada um marcou algo diferente.
_ Vou jogar bola. – Disse o Cleber.
_ Acho que vou pro clube. – Falou o Mário.
_ Posso ir com vocês na sua casa André? – Pediu o Hugo.
Mas para a noite estava tudo combinado: bilhar no bar do Pescocinho.
No sábado depois do almoço na vó Cotinha o Manezinho e eu seguimos para a casa do André junto com ele. Encontramos o Hugo e ficamos lá de bobeira, subindo no telhado, jogando bola na rua e brincando em construção, até que a tarde nos despedimos para um banho e o preparo para a noite.
Era por volta das oito e quinze quando nos encontramos na praça: André, Manezinho e Jonatan chegaram juntos, e eu cheguei com o Mário, o Hugo e o Cleber. Apresentei aqueles que não se conheciam e seguimos para o bar.
O bar do Pescocinho era um verdadeiro boteco bem simples. Um balcão comprido com banquinhos, poucas mesas de quatro lugares, três fliperamas à frente do balcão e três mesas de bilhar ao fundo. O Pescocinho era um sujeito engraçado: um senhorzinho de pouco mais de um metro e sessenta de altura, magro com uma barriguinha saliente, cabelos brancos e um pescoço diminuto que mal dava para ver. Pelo jeito o apelido vinha de longa data, pois todos o chamavam assim e ele não parecia se importar. O bar estava praticamente vazio a não ser por um grupo de moleques no fliperama, dois clientes aparentemente antigos no balcão e um eterno freguês, o Boina, como o chamavam, que era um sujeito de bigode e bem magro usando uma boina e sentado ao lado de um barrilzinho de pinga que o víamos utilizar para encher seu copo toda vez que o Pescocinho virava as costas. Dávamos muita risada com aquilo. O Pescocinho não estava nem aí por sermos menores de idade.
_ Seis fichas pra começar, Pescocinho. – Pediu o Jonatan.
_ E o que vão beber?
Nos olhamos, mas o Jonatan não nos deu a chance de chegarmos a uma decisão.
_ Cerveja.
Percebi que o Mário, o Cleber e o Hugo ficaram um pouco incomodados.
_ Cerveja Jonatan? Tá louco? – Disse o André. – Além de caro tem que beber mais pra dar um grau.
_ Relaxa André. Ajudei meu pai no sítio essa semana e ele me deu uma boa grana. Hoje eu pago.
O Pescocinho chegou com três garrafas e sete copos. Encheu os sete, apesar de um esboço de resistência por parte do Hugo, que não conseguiu concluí-lo.
_ Vamos brindar moçada! – Disse o Jonatan, erguendo seu copo.
Pegamos nossos copos, menos o Hugo, o Cleber e o Mário.
_ Vamos moçada! – Insistiu o Manezinho.
_ A gente não bebe. – Finalmente falou o Mário.
_ Larga mão! Só esse copo, vai? – Praticamente ordenou o Jonatan.
Com clara expressão de dúvida eles pegaram os copos.
_ É isso aí molecada. A nois!
E brindamos. Jonatan, André, Manezinho e eu viramos os copos. Os outros três deram um pequeno gole e fizeram uma careta.
_ Querem ver uma coisa que aprendi com um amigo do Silvinho? – Disse o Jonatan, enchendo novamente o copo.
Ficamos olhando ele arreganhar os lábios, encaixar a boca do copo inteira na sua boca e erguer a cabeça com tudo, fazendo com que a cerveja descesse como que num galão de água por sua garganta.
_ Que massa! Quero tentar. – Gritei.

E começamos a beber, jogar bilhar e nos divertir. Pouco depois os três tímidos já tinham se soltado e se divertiam também, dando altas risadas enquanto jogávamos bilhar e bebíamos. Eles ficaram bêbados rapidamente, mas não ao ponto de darem trabalho. Quase que como um devaneio, sem ter total consciência da realidade, saímos de lá e fomos para a boate, nos divertindo muito. E tudo foi tão massa que até o Hugo beijou uma menina. As amizades das turmas estavam seladas.

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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Aos Meus Amigos - 5 (Parte II)

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Durante a semana meu castigo já havia acabado, mas o que me preocupava era a ideia de ter sido algum amigo meu que havia entrado em casa, já que sabiam onde ficava guardada a chave no fundo. Será que algum amigo do Lourenço também não sabia? E se outra pessoa qualquer, ao mexer no fundo, não encontrou a chave? O duro é que, quem quer que seja, a guardou exatamente no mesmo lugar, coisa que um ladrão qualquer não faria.
Na escola o Hugo contava a todos da farra do fim de semana, sempre salientando as graciosidades da minha prima Michele.
_ Apresenta pra gente também Leo! – Dizia o Cleber.
_ Se eu gostar dela a gente faz um esquema: eu arrumo minha irmã e você arruma sua prima. Que acha? – Falava o Mário.
_ Cai fora que ela já é minha, não é mesmo Leo? – Se protegia o Hugo.
Eu nem dava bola, ainda preocupado. Decidi passar no André na saída da aula.
_ Vocês passam no meu primo comigo? É rapidinho. – Pedi para a turma, e eles toparam.
Chegando lá o André não havia chegado da escola ainda, então aguardamos um pouco, o que não demorou.
_ E aí Leo. Acabou o castigo?
_ Acabou sim. Lembra do Hugo e do Cleber né? E esse é o Mário. E aí? Como foi o fim de semana?
_ Foi massa. Jogamos bétia a tarde inteira do sábado e a noite fomos na boate. O Jonatan ficou chapado e deu trabalho de novo, e o Silvinho teve que levar ele embora.
_ E o Vini? Não foi?
_ Não. Disse que tinha outras coisas pra fazer, mas não apareceu no domingo também.
_ Tá certo. Vamos marcar algo para o fim de semana então.
_ Acho que vamos pra cachoeira do seu João. Se seus colegas quiserem ir também sem problema.
Percebi que eles se animaram com o convite, já que sempre lhes contava como eram legais nossos passeios de bicicleta pelas cachoeiras.
_ Ok. Até mais então. – E fomos embora.

Ao longo da semana tentei passar na casa do Vini, mas nunca tinha ninguém. Eu precisava sentir a reação dele ao me ver, só para ter certeza, mas não acreditava que pudesse ser ele já que era um dos meus melhores amigos naqueles últimos tempos, mais até que o André e o Hugo.
Fim de semana. Sexta a noite sai para dar uma volta com os amigos da sala e aproveitamos para encontrar o André na praça e combinar os detalhes da cachoeira no sábado.
_ Vocês vão né? – Perguntei ao Hugo, Cleber e Mário.
_ Tô dentro. – Disse o Hugo.
_ Vou jogar bola amanhã à tarde. – Desculpou-se o Cleber.
_ Acho que não. Nem conheço seu primo, muito menos os amigos dele. – Falou o Mário.
_ Vocês quem sabem. Vai ser da hora.
Tempo depois encontramos o André, o Manezinho e o Jonatan, e eles estavam com copos de bebida na mão, o que meio que assustou o pessoal da escola.
_ Ganhou a alforria Leo? – Perguntou o Jonatan.
_ É. Tô livre de novo. O que tão bebendo?
_ Batidinha de abacaxi. – Disse o Manezinho. – Experimenta. É bem gostoso.
Dei um gole e realmente era uma delícia. Ofereci aos outros, mas eles não quiseram. Percebi que não concordavam com aquilo.
_ E como vai ser amanhã André? – Perguntei.
_ A gente sai logo depois do almoço. Como vamos almoçar na casa da vó saímos de lá e passamos no Jonatan. O Silvinho não vai. E vocês? Vão? – Perguntou para meus amigos.
Como vi que ficaram sem responder resolvi eu mesmo fazê-lo:
_ Só o Hugo. Ou outros dois não poderão. – E dei outro gole da batidinha de abacaxi. O Jonatan acendeu um cigarro. – E o Vini? Passei a semana inteira na casa dele e nada. Falaram com ele?
Silêncio. O Jonatan virou de costas, como que nervoso com alguma coisa.
_ Ele não vai. – Disse com ar estranho o André.
_ Tá certo. Vamos dar uma volta. Nos vemos amanhã então. – Me despedi, louco para dar uma tragada no cigarro do Jonatan, mas sabendo que seria repreendido.

O almoço foi o de sempre na casa dos meus avós, com a única diferença que procurei dar mais atenção a eles até a hora de sair, me surpreendendo cada vez mais com a velhice que os atingiam.
_ Vamos então? O Jonatan deve tá esperando. – Disse o André.
_ Vamos sim. Combinei com o Hugo de encontra-lo lá perto também.
Demos bença aos avós e saímos de bicicleta, o André, o Manezinho e eu. O caminho que fazíamos passava em frente à casa do Vini, mas por alguma razão o André quis desviar. Algo estava muito estranho, e até o final do dia eu teria que perguntar.
Duas quadras antes de chegar na casa do Jonatan avistei o Hugo, um pouco tímido por não conhecer a turma direito, mas empolgado por participar de uma de nossas aventuras. Chamamos o Jonatan que saiu logo em seguida, se aproximando para dizer algo em baixo tom:
_ Compraram o cigarro?
_ A gente compra naquele bar na saída da cidade. – Respondeu o André.
_ Então vamos.
Atravessamos a cidade até próximo à pista. Já sem o mesmo medo de antes peguei o dinheiro e fui comprar um maço. Chamei o Hugo para ir junto, mas ele se recusou. Pouco depois voltei, e o Jonatan já esperava com seu isqueiro na mão. Atravessamos a pista e entramos numa estradinha de terra, parando pouco mais à frente para acender uns cigarros. Dei uma tragada gostosa pelo tempo que fiquei sem fazer isso. O Hugo só me olhava, de cabeça baixa.
_ Hugo, desencana! Não é porque a gente fuma que você tem que fazer isso também. O Manezinho mesmo não fuma. – Disse, para quebrar um pouco o clima, e ele deu um leve sorriso.
Seguimos pela estradinha de terra, tendo mato de um lado e cana-de-açúcar do outro. Procurei ficar mais atrás com o Hugo, enquanto o André seguia como guia e o Jonatan e o Manezinho ao meio.
_ Vamos pegar essa outra estrada. Tive uma ideia. _ Disse o André.
Entramos pelo lado da mata numa estradinha que parecia há tempos abandonada, mas para as bicicletas não era problema. Chegamos a uma pequena ponte de madeira cruzando o riozinho que formava a cachoeira mais à frente. O André parou.
_ A ideia é pararmos com as bicicletas aqui e seguirmos a pé por dentro do rio. Acho que vai ser mais legal.
_ Mas e as bicicletas André? Deixamos onde? Mesmo prendendo com o cadeado é arriscado deixarmos aqui. – Indagou o Manezinho.
_ A gente pode prender uma na outra e afundar no rio. Como ele é estreito elas não vão sair do lugar. – Sugeriu o Jonatan.
Nos olhamos para ver se alguém iria contra a ideia, e como não aconteceu começamos o processo. Percebi que o Hugo estava ficando empolgado com aquilo tudo.
_ Não vamos fazer cagada dessa vez. Trouxe uma bolsinha impermeável. Assim o cigarro não vai molhar. – Falou o André enquanto mostrava orgulhoso a bolsa.
Bicicletas dentro d’água presas umas nas outras e vamos seguir por dentro do rio. De uma margem à outra não dava dez metros, hora estreitando hora alargando, possuindo uma leve correnteza. Com as roupas no corpo e tênis nos pés seguíamos em fila indiana, parando para mergulhar nos lugares mais fundos. Vez ou outra avistávamos alguma aranha ou lugares onde poderia haver cobras e desviávamos o caminho. Fazíamos como nos antigos Treinamentos de Guerra da infância, em que tudo se mostrava um obstáculo a ser enfrentado. Cerca de quarenta minutos depois chegávamos à cachoeira.
_ Iupiiii! – Gritou o Manezinho, já pulando no fosso de queda d’água onde sabíamos não ter pedras.
_ A corda que amarramos da última vez ainda está aqui. – Disse empolgado o André, se pendurando para depois se soltar e cair na água.
_ Vou colocar o cigarro embaixo daquela árvore. – Falou o Jonatan aconchegando o maço como se fosse um filhote.
_ Vamos Hugo! Prefere pular ou se pendurar?
Os olhos dele brilhavam ao ver aquele lugar escondido no meio do mato e que ele nem imaginava existir.
_ Como vocês descobriram esse lugar?
_ Andando por aí de bike. Tem muito lugar legal.
_ E pra beber água? Tô com sede já.
_ Hugo! Olha quanta água aí! É tudo limpo, e é água corrente. – E dei um gole gostoso enfiando quase que a cabeça inteira dentro da água.
Ele ficou um pouco receoso, juntou a palma das mãos e levou um pouco de água à boca, repetindo diversas vezes ao perceber que era boa a água.
Brincamos a tarde inteira, pulando do alto da pedra, se pendurando pela corda, entrando atrás da queda d’água, fazendo guerrinha de saibro e tudo mais. De tempo em tempo acendíamos cigarros, e o Hugo já não se incomodava como antes, estando bem mais enturmado com a galera.
_ É melhor irmos antes que escureça. – Disse o Manezinho.
Tiramos todo saibro do corpo, colocamos nossas roupas ainda encharcadas e começamos a fazer o caminho de volta. Tiramos as bicicletas da água, desprendemos as correntes e estávamos prontos para voltar.
_ Caramba! Que fome! – Disse o Hugo.
_ Vamos pegar umas frutas aqui e depois a gente pega cana na outra estrada. – Sugeriu o André.
Encontramos um pé de carambola e comemos algumas. Chegando na outra estrada quebramos umas canas e as descascamos com os dentes. O Hugo tinha certa dificuldade, mas logo pegou o jeito. Voltamos a pedalar em sentido à cidade.
_ Vamos fumar o último cigarro antes de cruzar a pista. – Disse o Jonatan.
O Hugo já era da turma, fazendo e recebendo brincadeiras de todos, o que me deixou bem feliz. Chegando à praça fomos nos despedir.
_ A gente se vê mais tarde pra boate? – Perguntou o André.
_ Certeza. – Confirmou o Jonatan.
_ Você vai também, né Hugo? – Convidou o Manezinho.
_ Vou ver com a minha mãe, mas acho que não vai ter problema não. – Respondeu.
_ André! – Chamei-o, à parte. – Me conta: o que aconteceu com o Vini? Você sabe de algo.
_ Nada não Leo. Deixa quieto. Mas ele é sujeira. Fica longe.
_ Me fala caramba! Entraram em casa e roubaram algumas coisas. E quem fez isso sabia onde ficava a chave do fundo. Acho que foi ele.
_ Filho da puta! Com você também?
_ Por quê? Quem mais ele sacaneou?
_ Com a irmã do Jonatan. Pegamos ele no pulo tirando folhas em branco de cheque da carteira dela.

“Desgraçado”, pensei. Nos despedimos e fomos embora. Agora tudo se explicava.

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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Aos Meus Amigos - 4 (Parte II)

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_ Cara, eu vou ser tio! – Disse na escola para o Hugo, o Cleber e o Mário, que agora pertencia de fato à turma. O Sidnei e o Tomás haviam se isolado entre eles, o que fez com que o Hugo e o Cleber também se afastassem dos dois.
_ Então a Rosália tá grávida? – Disse o Hugo. – E como seus pais reagiram?
_ Minha mãe quase surtou. Ficou perguntando onde havia errado, por que eles não usaram camisinha e essas coisas. Meu pai que se mostrou mais calmo, querendo saber desde quando sabiam.
_ E vocês foram comemorar? É isso? – Não se conformava o Mário, que tinha duas irmãs.
_ Pois é. Meu pai sempre foi assim. É difícil tirar ele do sério.
_ Se fosse algumas das minhas irmãs acho que meus pais as teriam matado. – Completou o Mário.
_ E você ainda tá de castigo Léo? – Perguntou o Cleber.
_ Até o fim de semana sim.
_ Nem pra jogar bola à tarde?
_ Nem.
A escola cada vez mais nos servia como ponto de encontro e paquera e menos como local de aprendizado. As aulas pareciam eternas e totalmente entediantes, a não ser por um ou outro professor que eram mais legais. Eu particularmente me dava melhor na área de humanas, e detestava as contas e fórmulas.
Na saída da escola, ao pegarmos nossas bicicletas para irmos embora, minha sentença era uma só aquela semana: direto para casa. A turma geralmente passava na sorveteria ou ia tomar um suco, e normalmente eu ia com o Hugo até boa parte do caminho, pois morávamos perto. Mas não aquela semana.
_ Falou galera. A gente se vê amanhã. – Me despedi enquanto paravam na sorveteria.
Quase chegando em casa avistei o Vini, também de bicicleta.
_ E aí Leo. Fim de semana já tá livre?
_ E aí Vini. Já sim. Tão combinando alguma coisa?
_ Acho que vamos jogar bétia. Seu primo que tá agitando. Contamos com você?
Por um instante gelei. Não pelo que o Vini havia falado, e sim por ver minha mãe passar de carro próximo a nós. Certamente ela tinha me visto.
_ Léo? Tá tudo bem? O que aconteceu?
_ Nada não. Fala pro André que depois ligo para ele. Tenho que ir. Falou. – E saí o mais rápido que pude.
_ Léo? Léo? – Ouvia o Vini gritar, mas nem olhei para trás.
Chegando em casa vi que o carro estava lá, então entrei já esperando a bronca.
_ Oi mãe.
_ Oi Léo. Tem lição para hoje? – Perguntou com bastante calma.
_ Só umas contas de matemática e uma leitura.
_ Então faz já pra ficar livre. A propósito, fim de semana vamos para um rancho com a tia Matilde. Sairemos no sábado de manhã e voltamos no domingo.
_ Como assim? Eu não preciso ir né?
_ Claro que precisa. A tia Matilde vai reunir os filhos nesse rancho e chamou a gente pra participar. Faz tempo que você não vê seus primos, sem falar nos de segundo grau, então você vai sim.
_ Mas mãe! Já fiquei sem sair no fim de semana, agora esse também?
_ Ficou sem sair sim, mas porque você mereceu. E esse é um encontro de família, então não tem discussão.
_ O tio Mané e a tia Josefa vão também? – Perguntei, na esperança do André ou do Manezinho também irem.
_ Não. Ela chamou apenas a gente.
Não acreditava naquilo. Novamente perderia um fim de semana com a turma. Aquilo me deixou tão nervoso que estava prestes a enfrentar minha mãe, mas me lembrei do que o vô Tonico havia dito, que teria a vida toda para sair com os amigos, ainda mais sob o risco de um novo castigo. Me calei e perguntei:
_ Posso chamar um amigo para ir então?
_ Quem você vai chamar? Não é aquele Vini Não né?
_ O Hugo. Se os pais deles deixarem ele pode ir?
_ O Hugo pode.

Falei com o Hugo no dia seguinte, na escola, e a tarde ele me disse que os pais dele tinham deixado. Liguei para o André.
_ Vão mesmo jogar bétia no fim de semana?
_ O plano é esse. Vai poder ir?
_ Não. Vou ter que ir para um rancho com meus pais pra um encontro com os filhos da tia Matilde.
_ Sua mãe tá foda heim Léo?
_ Tá sim. Mas marquem algo pro outro fim de semana que vou com vocês.
_ Ok. Falou.
_ Falou.

Na sexta o Hugo dormiu em casa, pois sairíamos bem cedo. Minha mãe não tinha deixado nem a gente dar uma volta, então ficamos vendo televisão e jogando jogos de tabuleiro até dar sono, e bem de manhã fomos acordados por ela. O rancho era bem legal: um casarão central onde ficava uma grande sala com os quartos ao redor e um quiosque contendo a cozinha com churrasqueira. Além do rio represado que formava uma prainha o rancho também tinha piscina.
A tia Matilde foi com a gente, e aos poucos foram chegando seus filhos e netos. Tinha o Alfredo, que era o mais novo, casado com a Bete e tinham um filho ainda bem pequeno, o Vitinho. O Edivaldo, do meio e casado com a Mara, tendo dois filhos, o Juninho e a Cássia, que eram uns cinco anos mais novos que eu. E, por fim, o Lúcio, casado com a Joana e com duas filhas, a Michele, que tinha a minha idade, e a Milena, da mesma idade da Cássia. Fazia tendo que não as via, e tanto o Hugo como eu nos surpreendemos com a beleza da Michele.
_ Sua prima é uma gata heim?
_ Pois é. Nem eu sabia que tava tão gata assim.
Fomos todos nos cumprimentando e arrumando as coisas, separando os quartos e conversando sobre o que fazer de almoço e tudo mais. Logo já nos enturmamos com as primas e fomos para a piscina. Meu irmão ficou vendo televisão no rancho, como sempre.
_ Além de gata sua prima tá gostosa heim?
Apenas sorri e fui jogar água nela e na irmã, o que deu iniciou uma guerrinha e começamos a nos divertir.

O dia todo foi bem gostoso, brincando hora na piscina, hora na represa, hora ao redor do rancho onde possuía algumas matas e outros ranchos. Combinamos de fazer uma fogueira a noite e contar histórias de terror, e cada vez mais o Hugo se encantava com a Michele, que era bem moleque nas brincadeiras e muito legal. A Milena e a Cássia, apesar de mais novas, eram bem divertidas, e grudaram na gente. Então combinamos de dar um susto nelas durante as histórias.
_ ... e foi então que começaram a ouvir barulhos dentro da mata, sem saber o que era, já que tinham se certificado durante o dia que estavam sozinhos... – Narrava eu uma tonta história de terror.
_ Chiiiii... Fez a Michele. – Vocês ouviram esse barulho?
_ Eu ouvi. – Disse o Hugo. – Será que é bom vermos o que é?
Nisso a Milena e a Cássia já estavam com os olhos arregalados de medo.
_ Deixa que eu vou. – Respondi. – Cuidem das meninas. Se eu não der nenhum sinal em dois minutos vocês saberão que algo aconteceu comigo.
_ Não é melhor corrermos para dentro? – Se manifestou a Cássia.
_ Não. – Disse o Hugo. – É melhor vermos o que é pra não assustar o pessoal lá dentro. Vai lá Léo.
Me afastei quase rindo pela arte que havíamos armado. Me dirigi para as árvores próximas à represa e desapareci para a vista deles.
_ Ahhhh!!! – Gritei tempo depois, fingindo.
_ Que foi isso? – Ouvi a Michele perguntando, fingindo susto.
_ Acho melhor eu ir ver. – Disse o Hugo, em tom heroico e se levantando.
_ Não! Fica com a gente. – Choramingou a Cássia.
_ Calma meninas. Eu fico com vocês. Pode ir Hugo. Talvez o Léo precise de ajuda. – Disse a Michele.
O Hugo se afastou e pouco depois também gritou, fingindo dor e angústia. Nisso eu já estava próximo a casa, tendo dado a volta por trás das árvores.
_ Vamos pra dentro! Vamos pra dentro! – Gritavam as meninas.
_ Vamos. Eu levo vocês. – Dizia a Michele, fingindo pânico.
Quando se aproximaram do casarão central saí com tudo vestindo uma capa de chuva amarela que havia no quarto, dando um grito para assustá-las.
_ Ahhhhh!!! – Berravam as duas, virando-se rapidamente para fugir, dando de cara com o Hugo, também com uma capa e gritando.
As duas se agacharam e começaram a chorar. O Hugo, a Michele e eu caímos na risada, enquanto todos saíram do casarão assustados com os gritos.
_ O que tá acontecendo? – Perguntou assustado o Lúcio, vendo sua filha menor aos prantos.
_ Foi uma brincadeira. A gente assustou elas. – Disse a Michele, ainda rindo.
Tomamos uma bronca leve devido o desespero das crianças, mas depois que passou era só risada por parte de todos, até da Cássia e da Milena, que nos xingavam e diziam que se vingariam.
No domingo foi tudo ok. Mais festas, farras e diversão. Depois do almoço arrumamos as coisas, limpamos o rancho e nos despedimos, fazendo promessas de manter contato. O Hugo estava todo apaixonado pela Michele, mas ela não parecia sentir o mesmo por ele.
_ Se divertiu bastante né Leo? – Perguntou meu pai enquanto voltávamos.
_ Foi bem legal pai.
_ E pensar que você não queria vir heim? – Disse minha mãe. – E você Lou, por que não se juntou aos outros? Só ficou na frente da televisão.
_ Só tinha criança. – Respondeu ele.
_ Babaca. – Soltei.
Deixamos o Hugo na casa dele e fomos para a nossa. Começamos a tirar as coisas do carro enquanto minha mãe abria a casa. Quando meu pai fechou o porta-malas viu uma coisa no chão.
_ Bem, você deixou cair sua bolsa? – Perguntou para minha mãe.
_ Eu não. Por quê?
_ Estava aqui na sarjeta. Olha.
_ Mas eu não levei essa bolsa. Ela estava no quarto. – Pegou a bolsa e percebeu que ela estava completamente vazia.
_ Alguém entrou em casa. – Disse meu pai correndo para dentro, preocupado.
Entramos e começamos a vasculhar os cômodos.
_ Meu tênis novo sumiu. – Disse meu irmão.
_ O meu relógio também. – Falou meu pai.
_ Mas não tem nada aberto! Quem entrou sabia onde ficava a chave no fundo. – Concluiu minha mãe.
Fiquei quieto. Não tinha sumido nada meu e eu sabia de pessoas que conheciam o esconderijo da chave: Silvinho, Jonatan e Vini.

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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Aos Meus Amigos - 3 (Parte II)

(Não acompanhou desde o inicio? Então aproveite, em: http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html )


_ Vô, posso dormir aqui?
_ Nada disso, Leo. Você está de castigo, lembra?
_ Deixa ele, Marilda. Eu e sua mãe ficaremos de olho nele. Tenho certeza que o Leo não vai desobedecer.
Fazia tempo que eu não dormia na casa do vô Tonico. Cada vez mais o que antes era a diversão começou a se tornar obrigação, pois ao invés de querermos ir pra casa dele almoçar ou jantar queríamos agora sair e nos divertir. Mas é claro que eu ainda amava muito os dois. Lá não tinha telefone, o que me deixava isolado de qualquer amigo. Minha esperança era que algum primo fosse pra lá também, mas, como disse, essa não era mais a prioridade deles também.
_ Vou caminhar de manhã Leo, como sempre. Quer ir?
_ Tá bom, vô. Pode me chamar. – Respondi, desanimado na frente da televisão.
De manhã a vó Cotinha sempre acordava cedinho pra preparar café pro vô Tonico, e quando eu era criança ela sempre me chamava para que fosse me deitar com ele, coisa que eu adorava. Percebi que ela havia se levantado e os ouvi conversar.
_ Bem? Eu chamo o Leo? Não sei se ele ainda gosta de vir se deitar com você.
_ Acho melhor não querida. Ele já tá grande, e talvez pense que isso é coisa de criança.
Aquilo me atingiu com tudo, e quase comecei a chorar. Não aguentei, me levantei e fui até o quarto do vô Tonico, me deitando ao seu lado.
_ Leo? Tá tudo bem?
_ Tá sim, vô. Tá tudo ótimo.
E o abracei como sempre fazia. Percebi que a vó Cotinha observava de fora do quarto.
Como se o tempo tivesse voltado, pouco depois aparece a vó Cotinha com o café do vô Tonico e uma caneca de sopinha de pão, que era leite com achocolatado e pão encharcado dentro, que eu adorava desde pequeno. Aquilo me encheu de alegria e lembranças. Como podemos nos esquecer dessas coisas boas quando crescemos?

Sua mãe me contou o que houve Leo. – Disse o vô Tonico enquanto caminhávamos em sentido ao antigo matadouro, que agora era um campinho de futebol de uma empresa privada. – Por que fez isso? Você sempre foi tão obediente.
Não sabia o que dizer, pois nem eu sabia direito o porquê daquilo. Como explicar que eu era visto como medroso pelos meus amigos?
_ Só queria ficar com os meus amigos, vô.
_ Você tem a vida toda pra isso, Leo. Hoje mesmo poderia estar com eles se não estivesse de castigo.
_ Mas todos eles vão embora mais tarde de sábado. Só quis ficar um pouco mais, acompanha-los, ver o que faziam até mais tarde.
_ E você pensou em pedir isso aos seus pais? Explicar essa sua vontade? Talvez eles tivessem deixado sem precisar desobedece-los.
Fiquei quieto ao perceber que ele tinha razão, apesar de saber que não era essa a real razão para ter ficado até mais tarde.
_ Vamos voltar Leo. Até aqui já está bom.
_ Mas não estamos nem na metade vô! Nem chegamos perto da pista.
_ Faz tempo que não chego até lá, Leo. Meu limite é aqui.
Mais uma vez fiquei quieto, dessa vez por perceber o quanto ele estava velho. Foi muito estanho, pois pela primeira vez me passou pela cabeça que um dia ele nos deixará, e imediatamente olhei para onde antes ficava o velho matadouro, recordando antigas lições.

Meus avós sempre comiam no mesmo prato, juntos. Costume de uma época em que a vida dos dois era mais difícil e que tinham que fazer isso por não haver pratos para todos. Meu lugar desde pequeno era ao lado do vô Tonico na mesa, e era lá que eu estava no momento, pronto para almoçar. Além de nós três também estavam meus pais e a tia Matilde, que era divorciada a muitos anos do tio Ribeiro, do qual nem tínhamos contato.
_ Pegou todos os remédios, mãe?
_ Peguei sim Marilda.
E então reparei na pequena montanha de remédios que minha vó precisava tomar. Sabia que de tempo em tempo meus pais ou algum outro tio a levava ao médico em outra cidade, mas não sabia ao certo por quê.
_ Pra que tanto remédio, vó? – Perguntei.
_ Sua vó tem diabetes e reumatismo, Leo. Já devia saber. – Disse meu pai, que gostava muito do vô e da vó, já que não tinha o mesmo contato com seus próprios pais.
_ Deixa ele perguntar Francisco. Nessa idade já não reparam nessas coisas. Têm seus próprios interesses.
_ Mas já dá pra ver que ele não é mais o mesmo, né mãe? O carinho que ele tinha por vocês, e agora bebendo por aí e chegando tarde... Fora as más companhias com aquele tal de Vini.
_ Não fala assim do Vini! – Disse em tom alto. – Você não o conhece. Ele é meu amigo e é muito gente boa.
_ Tô te falando, Leo: Se te ver andando com ele de novo...
_ Já chega vocês dois! – Interrompe o vô Tonico. – Estamos todos almoçando e isso não é hora para brigas.
_ Tá certo pai. Mas esse menino não é mais o mesmo.
E almoçamos quase que em silêncio, fora um ou outro comentário puxados pela vó Cotinha ou pela tia Matilde.

Passei a tarde com meus avós, jogando baralho ou assistindo televisão. Os dois tinham uma vida bem calma, e eram grandes companheiros um do outro. O vô Tonico adorava tomar caipirinha e fumava bastante, o que sempre dava uma vontade de fumar e beber também. Claro que cigarro eu não ousaria pedir, mas vez ou outra pedia um gole da caipirinha.
_ Só molha o bico, heim? – Era o que ele sempre dizia.
No meio da tarde ouço alguém me chamar, e quando olho por cima do muro percebo que era o Vini, ficando sem saber o que fazer.
_ Tão te chamando Leo. Não vai ver quem é? – Disse a vó Cotinha enquanto preparava um bolo de fubá.
_ Já vi daqui vó. É o Vini. Mas minha mãe não quer que eu fale com ele.
_ Pode ir, Leo. – Disse o vô Tonico. – Mas não saia da frente de casa.
E assim o fiz. Desci a escada e fui até o portão. O Vini veio em minha direção.
_ Ou. Seu primo disse que você tá de castigo.
_ É. Fim de semana sem sair de casa. Pelo menos me deixaram ficar aqui.
_ Chato heim? Ia te chamar pra dar um rolê de bike e fumar uns cigarros, mas acho que não vai rolar, né?
_ Bem que eu queria, mas sem chance.
_ Escuta. Você não tem uma grana pra me emprestar? No outro fim de semana te pago.
Por alguma razão eu disse que não, sendo que eu tinha um pouco de dinheiro no qual certamente teria emprestado a um amigo, mas naquela hora não me senti à vontade para aquilo.
_ Firmeza então. Fim de semana a gente se fala. Até mais, Leo. – E foi embora.
Entrei e me dirigi até meus avós, que continuavam no mesmo lugar: a vó preparando o bolo e o vô ouvindo seu radinho de pilha enquanto tomava caipirinha.
_ Vocês vão falar pra minha mãe que eu conversei com o Vini?
_ Você não fez nada de errado Leo. Não tem por que contarmos. – Disse o vô Tonico. Então me sentei próximo a ele e fiquei desenhando num pedaço de papel de pão que minha vó sempre guardava.

À noite, pouco antes do jantar, minha mãe, meu pai, meu irmão, minha irmã e o noivo dela apareceram na casa dos meus avós, o que achei estranho por estarem todos juntos daquele jeito. Não que isso fosse fora do comum, mas não num sábado à noite. A Rosália e seu noivo, o Roberto, estavam um tanto quietos, com um clima estranho no ar. Ela parecia que tinha chorado.
_ Vão se arrumar. – Disse meu pai para mim e meus avós. - Vamos sair pra comemorar.
Aquilo soou estranho para nós, pois suas feições não pareciam com as de quem fossem comemorar algo. Até que a vó Cotinha se arriscou:
_ Comemorar o que Francisco?
E foi minha mãe quem respondeu:
_ A Rosália tá grávida mãe. Por isso marcaram o casamento. Hoje que nos contaram.
A Rosália abraçou o Roberto e começaram a chorar. O vô Tonico foi até eles e os abraçou:
_ Certamente temos que comemorar. Uma nova criança na família é sempre uma benção.
                     E, quase que automaticamente, todos se abraçaram e começaram a chorar, até mesmo meu irmão e eu.

(Continue a ler em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2014/02/aos-meus-amigos-4-parte-ii.html )