sexta-feira, 13 de junho de 2014

Aos Meus Amigos - 14 (Parte II)

(Não leu desde o inicio? Aproveite então em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html)


Não demorou muito para meu irmão nos visitar, já que as aulas iniciaram pouco antes do carnaval. Assim como o ano novo, aquele seria o primeiro carnaval que poderíamos ficar até o fim, sem limites de horários, desde que não aprontássemos. Quatro dias de festa e folia no clube do centro, de modo que certamente seria bem legal.
O carnaval no clube do centro era bem tradicional e sempre vinha muita gente de fora. Minhas primas por parte de pai, Rosana e Maria, viriam e combinávamos por carta como seria massa.
_ Vou chegar na sua prima, Leo. – Dizia o Cleber.
_ Em qual delas? Quero só ver. – Duvidei.
_ Em qual der mole, hehehehe.
_ Chega em uma que eu chego na outra. – Já se meteu na conversa o Mário.
_ Bem que sua prima Michele podia vir também, né? – Era o interesse do Hugo.
As noites no clube seriam de sábado a quarta. Na sexta chegariam meu irmão e minhas primas, e geralmente todo mundo se reunia em frente ao clube, onde as ruas eram fechadas e muitas barracas ficavam vendendo de bebidas a comidas. A tradicional barraca da canja já estava lá também pra aliviar a bebedeira e a fome da madrugada. Combinamos de nos encontrar todos lá, uma vez que minhas primas ficariam na casa dos meus avós e meu irmão iria primeiro na casa do Borges. Passei na casa do Hugo e aos poucos a turma foi chegando: Mário, Cleber, André e Jonatan. O Manezinho se afastava cada vez mais por conta da namorada, e não sabíamos se realmente iria ao carnaval.
_ Bebidas? – Já foi sugerindo o Cleber.
_ Certeza. – Concordamos todos.
Bebidas e cigarros e logo vimos meu irmão com o Borges e amigos.
_ E aí babaca, nada da Rosana e da Maria ainda? – Perguntou ele.
_ Nada.
_ Então depois volto. Falou. – E saiu. Ele estava bem melhor. De outras vezes nem chegaria para falar comigo.
Pouco depois vejo minhas primas, e a molecada já foi ficando louca.
_ Acho que vou chegar na Maria. Ela está mais gata. – Disse o Mário.
Nos cumprimentamos e as apresentei à turma, que logo foram se enturmando. Sugeri bebidas e elas toparam. Ficamos trocando ideias e vendo o movimento. O Jonatan acendeu um cigarro, e eu pensei em dar uma tragada, mas achei melhor não por causa delas, mas a Maria me surpreendeu:
_ Tem um desses pra mim?
_ Claro! – Respondeu o Jonatan, lhe entregando um cigarro e acendendo para ela.
_ Passa um pra mim também. – Já aproveitei, me sentindo mais a vontade.
_ Você também, Leo? – Disse a Rosana, com certo ar de crítica. Fiquei sem graça.
_ Ah, Rô! É carnaval!
_ Tá, fazer o que. Não acho legal, mas vocês quem sabem. Já cansei de falar pra Maria, mas ela não me ouve. Acho que vai ser assim com você também...
Fiquei mais aliviado. Dei um abraço e um beijo nela. Mais bebidas.
Meu irmão chegou e apresentou a turma dele a todos, até aos meus amigos, o que comprovava a mudança de fato. Além do Borges estavam também o Fofo, um rapaz bem gordo e bem peludo, e o Fábio, irmão do Borges. Ficamos todos numa grande turma, e estava bem legal.
Vi uma movimentação estranha entre o André, o Jonatan e o Cleber. Estavam tramando alguma coisa sem que o Hugo, o Mário e eu percebêssemos. Me aproximei:
_ Que tá pegando? Vocês estão escondendo algo.
_ Se quiser ver o que é vem com a gente. Mas não pode falar nada. – Disse o André.
_ Mas minhas primas estão aí, e meu irmão acabou de chegar!
_ Estamos indo. Voltamos logo. Inventa uma desculpa.
Fiquei sem saber o que fazer, mas não podia perder o que era. Disse que iria ao banheiro e me afastei, encontrando os moleques mais à frente.
Andamos umas três quadras nos afastando do movimento sem que eles dissessem nada, apesar da minha insistência.
_ Calma Leo. Você já vai ver. – Dizia o André.
Quando tiveram a garantia de que ninguém se aproximava numa rua quase deserta eles se fecharam numa roda atrás de um carro, e me coloquei entre eles.
_ Acaba com o mistério logo, porra!
_ Bem, Leo, é isso aqui, e se quiser vai ter que entrar no racha. – Falou o Jonatan, mostrando um frasco que tirou de dentro da calça, escondido.
_ Que isso? – Perguntei, vendo o frasco, com uma válvula verde e comprido.
_ Lança-perfume. – Respondeu o Cleber.
_ Caramba! Onde conseguiram?
_ O Jonatan conseguiu com o Silvinho. – Disse o André. – E aí? Vai entrar no racha?
_ Cara, não sei! Ouvi dizer que é muito louco, mas tenho medo. Se nos pegarem com isso estamos ferrados.
_ Faz o seguinte: experimenta primeiro. – Sugeriu o Cleber. - Se depois disso não quiser, ok. Mas acho que isso não vai acontecer.
_ Vocês já experimentaram? É bom mesmo?
Ficaram quietos e só sorriram, com caras de algo incrível.
_ Mas e se eu ficar muito louco?
_ O efeito é rápido. Passa num instante. – Falou o Jonatan. – Vai, se prepara.
Ele ergueu a própria camiseta, espirrou um pouco nela e disse apressando:
_ Vai Leo! Puxa com a boca!
Meio que sem pensar coloquei a boca no local espirrado e comecei a puxar. Era gelado, e logo começou a dar uma tontura gostosa. Na cabeça a impressão que dava era um barulho tipo sirene:
UIU UIU UIU UIU UIU UIU UIU UIU UIU UIU UIU UIU UIU UIU UIU UIU UIU UIU UIU...
Os sentidos foram à mil. O mundo parecia mágico e as luzes e tudo à volta eram incríveis. Tudo estava feliz, e não existiam problemas. Pouco depois a realidade foi retornando. O som sumiu, as luzes sumiram, a magia sumiu.
_ Caralho! Quero mais!
_ Hehehe! Sabia que ia gostar. – Falou o Cleber.
_ Vai, mais uma rodada cada e vamos voltar. Tá no racha então, Leo? – Perguntou o André.
_ Certeza! – Respondi sem pestanejar.
Mais uma rodada, mais uma volta à realidade, cigarros acesos e retornamos à turma. Chegando lá todos haviam notado nossa ausência, perguntando onde estávamos. Para o Hugo e o Mário dissemos que fomos fumar escondido, já que meu irmão estava ali, e para as primas e o Lou que a fila do banheiro estava grande. Não tivemos problemas.
A noite foi desenrolando. O tempo todo algumas pessoas da turma se afastavam por algum motivo, ou para comprar algo, ou para cumprimentar alguém, ou mesmo ir ao banheiro ou fumar. Nessas horas aproveitávamos para nossas rodadas de lança-perfume, que foi esvaziando rapidamente.
_ Caramba! Esse já ta no fim. Acho que vamos precisar de um por noite. – Comentou o André.
_ É caro? – Perguntei.
_ Não muito. – Falou o Jonatan, dizendo quanto tinha pagado.
_ Estamos em quatro. E se cada um comprar um? – Sugeriu o Cleber. – Aí cada noite um fica responsável por levar.
_ É uma boa ideias. – Concordou o André, tendo a aceitação também do Jonatan.
_ Mas onde vocês o escondem em casa? E pra entrar com ele no clube? – Eram minhas dúvidas.
_ Você não guarda cigarro atrás da gaveta de meia? – Disse o André. – É só colocar no mesmo lugar.
_ E pra entrar é tranquilo. Meu primo que faz a revista dos homens na entrada, e ele também curte lança. Não teremos problemas. – Completou o Jonatan.
E então topamos o plano, de modo que o Jonatan falaria com o Silvinho e nos reuniríamos a tarde para as compras. Eu estava com certo medo ao mesmo tempo que empolgado. Voltamos ao local da turma, e o Hugo me puxou:
_ Onde vocês vão a toda hora, Leo? Fiquei reparando que são sempre os mesmos que saem juntos. Que tá pegando? Não confia mais em mim?
_ Relaxa, Hugo. Vai em casa amanhã antes de sairmos que te explico certinho. Mas não fala nada pro Mário não.
_ Sabia que estavam escondendo algo. Fala o que é.
_ Amanhã. Fica calmo que amanhã te mostro.
E ficamos todos na praça, bebendo e conversando. Minhas primas tinham se enturmado bem com meus amigos e a turma do meu irmão era bem legal. O Fofo bebia mais do que qualquer um de nós, e o Borges e o Fábio viviam falando de quadrinhos, e eram histórias bem legais. O Mário estava nos altos papos com a Maria, enquanto a Rosana conversava mais com meu irmão.
Já tarde da madrugada combinamos todos de comer a famosa canja e irmos embora, já que as próximas quatro noites prometiam ser bem agitadas, tanto pelo grande movimento que havia naquela sexta como pela empolgação que estávamos pelo lança-perfume.

A noite teria churrasco em casa para reunir a família, e de lá iriamos para o clube. O carnaval estava apenas começando...

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Aos Meus Amigos - 13 (Parte II)

(Não leu desde o inicio: então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html)


Os primeiros dias do ano foram passando. Claro que eu não havia contado que tinha brochado, inventando uma história de como tinha sido massa.
Enquanto as férias permaneceram continuamos a sair, beber e nos divertir, com exceção do Manezinho, que tinha começado a namorar e se afastado um pouco, mas logo as férias terminaram e voltamos às nossas rotinas de aulas, reunindo a turmas só aos fins de semana mesmo.
O resultado do vestibular do Lourenço saiu, e ele tinha passado numa universidade de uma cidade de grande porte em outro estado. Era bem longe da nossa cidade, e isso apavorava meus pais. Ele, por outro lado, estava com a cabeça raspada e parecia outra pessoa de tão animado.
_ Não precisa se preocupar pai. Eu sei me virar.
_ Não é isso Lou. É uma cidade bem maior que a nossa. A gente fica preocupado.
Percebia que minha mãe às vezes chorava escondido. Apesar de tentar não demostrar, era evidente o pânico que ela estava por se separar do filho, ainda mais que não sabíamos onde o Lourenço ficaria. A solução encontrada foi pegarmos um fim de semana anterior ao começo das aulas e irmos até lá, todos nós, procurando alguma pensão para que ele ficasse. Caso fosse necessário, minha mãe passaria uma semana com ele para adaptação, o que ele não queria de jeito nenhum.
_ Amanhã cedo saímos. – Disse meu pai numa sexta à tarde. – Um cliente do trabalho conhece a cidade e me passou alguns contatos.
_ Mas vou poder sair hoje, né pai? – Era a minha preocupação.
_ Se prometer não voltar tarde pode sim. – Respondeu minha mãe.
_ Quer ir junto Lou? – Pela primeira vez convidei.
_ Não. Vou sair com o Borges e a turma para me despedir.
Realmente, ele não parecia a mesma pessoa. A farra do ano novo e a notícia do vestibular o haviam transformado completamente. Pena que isso tinha ocorrido justo quando ele iria embora.

Encontrei com a turma no bar do Pescocinho. Só o Manezinho não estava.
_ Vai conhecer a cidade do seu irmão então, Leo? – Puxou assunto o Hugo.
_ Pois é. Parece que é uma cidade bem legal. Vamos até no shopping.
_ Volta amanhã mesmo? – Perguntou o André.
_ Não sei. Depende se vamos encontrar um lugar pro meu irmão ficar.
_ O negócio é república. Fala pra ele procurar uma república. – Era a sugestão do Jonatan.
E umas partidas de bilhar, cervejas e cigarros depois e tive que ir embora.

Saímos antes das seis da manhã, esperando chegar lá por volta das dez.
_ Pegou tudo Lou? Não esqueceu nada? – Minha mãe perguntava.
_ Peguei mãe.
_ E você, Marilda? Tá preparado para o caso de ficar lá? – Agora era a vez do meu pai perguntar.
_ Tudo sim. Ai! Não acredito que o Lou já está saindo de casa... – E encheu os olhos de lágrimas.
_ Mãe! Não faz drama! Você sabia que isso ia acontecer. – Disse meu irmão, já meio de saco cheio dos choramingos dela.
_ Então vamos. – Apressou meu pai.
A estrada estava calma. No rádio baixo, tocava música sertaneja antiga. No carro, todos quietos. Vez ou outra minha mãe puxava assunto com meu pai, num tom que imaginava que meu irmão e eu não ouviríamos.
_ E se ele não se adaptar Francisco? Nunca saiu de casa assim.
_ Fica calma Marilda. Está na hora dele começar a viver a própria vida. E qualquer coisa daremos todo apoio.
_ Mas é tão longe. Acho que, mesmo que encontremos uma boa pensão, vou ficar com ele um tempo.
_ NÃO VAI NÃO, MÃE!!!
_ Você estava ouvindo, Lou?
Eu dava pequenas risadas, disfarçando.
_ Lou? – Puxei assunto, pouco depois. – Você vai procurar uma república depois né?
_ Certeza. Tentei convencê-los disso já pra agora, mas vi que não conseguiria.
_ E como você tá? Nervoso?
_ Que nada. Não via a hora de sair de casa.
_ Vou te visitar sempre.
_ Ah tá! Não vou querer ninguém me enchendo o saco não.
“Babaca”, pensei. E eu achando que ele estava mais legal. Virei para o lado e procurei uma posição para um cochilo. Apesar de ser ruim no carro, logo consegui. Ainda faltavam algumas horas para chegar.

Depois de uma parada num posto para banheiro e esticar o corpo, chegamos duas horas depois. A cidade já se mostrava ao longe, com seus prédios e tamanho. Realmente era grande.
_ Nós vamos no shopping primeiro, né pai? – Queria saber.
_ Ainda não, Leo. Vamos procurar as pensões que me indicaram primeiro e depois a gente vai lá pra almoçar.
_ Hummm! Tá!
Rodamos a cidade seguindo placar que identificavam os bairros. O trânsito era um tanto chato, muito diferente da nossa cidade: muitos carros, semáforos, gente. Para chegar à primeira pensão meu pai precisou pedir informação duas vezes em postos de gasolina.
_ Chegamos. Vamos conhecer. Parece bom, não Marilda?
_ É. Parece... – E não conseguiu falar mais nada.
Era um casarão grande e antigo, mas bem cuidado. A dona do local foi explicando as regras de funcionamento:
_ Nós acordamos todos os hóspedes às seis da manhã para o café da manhã, mesmo que alguns deles não estudem nesse período. Assim, quem tem que ir para a faculdade vai e quem não tem aproveita para estudar...
Meu irmão já fez uma cara de ódio.
_ Almoço é em dois horários para atender aos períodos de aula, assim como o jantar, e ninguém entra na pensão depois da meia noite...
E a amostragem e explicações continuaram, até que meus pais pediram para ficarmos do lado de fora para combinarem preços.
_ Tá fodido se ficar aqui, heim?
_ Nem a pau que fico. De jeito nenhum.
_ E se a mãe exigir?
_ Já falei. Não fico!
Logo eles saíram. Percebi no rosto do meu pai que ele não estava feliz. Minha mãe quieta. Entramos no carro para procurar a segunda indicação. Eram três. Ouvi minha mãe dizer baixo:
_ É cara, mas é segura. É nosso filho, Francisco!
_ Vamos ver as outras, Marilda. Depois conversamos.
Senti certo alívio em meu irmão.
Para chegar à segunda pensão meu pai já foi melhor, estava se acostumando com o trânsito da cidade. Era um sobrado bem comprido, e tinha uns jovens na frente. Ao descermos do carro já ouvimos:
_ Olha lá! Bicho novo. Tá fodido, hahahaha!
Minha mãe já olhou para o meu pai e voltou para o carro. Meu pai nem discutiu, só dando uma olhada para os moleques, fuzilando-os com os olhos, e fez sinal para entrarmos. Obedecemos. Não falaram nada o caminho todo.
A terceira e última pensão não era muito longe dali, e era uma casa bem simples. Descemos do carro e minha mãe foi tocando a campainha enquanto meu pai trancava o carro. Um senhor pouco mais velho que meu pai saiu.
_ Aqui é uma pensão para estudantes? O endereço é esse. – Perguntou minha mãe.
_ É sim. Vamos entrando.
O senhor se mostrou simpático, apresentando sua esposa, que estava numa sala com mais dois jovens.
_ Aqui somos como uma família. – Disse a mulher depois das apresentações. – São no máximo seis hóspedes no total, dois em cada quarto, e estamos com duas camas vazias. Venham, vou mostrar a casa. Não é grande, mas é confortável. Se os meninos quiserem ficar para se enturmarem podem tirar dúvidas com nossos meninos. Estes são Miguel e Nelson. – E saíram.
_ E aí? Que curso vai fazer? – Perguntou ao meu irmão o Miguel.
_ Computação. E vocês, o que fazem?
_ Eu engenharia elétrica e o Nelson direito.
_ Caramba? – Me interessei. – Quantos cursos têm aqui?
_ Só na federal tem doze. – Respondeu o Nelson. – Mas tem as faculdades particulares também.
“Caramba”, pensei. Era bem maior que a faculdade que conhecemos com o João.
_ E tem muita festa? – Perguntei novamente.
_ Festa é o que não falta. – Respondeu sorrindo o Miguel.
_ Com certeza vou vir te visitar. – Falei para o meu irmão. Ele só deu uma risada, dessa vez não de um jeito babaca.
Pouco depois meus pais voltaram, e percebia certa alegria no rosto dos dois.
_ Vamos comer, molecada? – Perguntou meu pai.
_ E aí? É aqui que vou ficar? – Quis saber meu irmão.
Meu pai olhou para minha mãe e foi ela quem respondeu:
_ No almoço a gente conversa. Vamos?
E saímos em direção ao tão esperado shopping.
_ Lou, o que achou dessa última pensão? – Perguntou meu pai.
_ Preferia uma república.
_ Você sabe que não vai morar em república. – Disse minha mãe. – Gostou ou não gostou?
_ Com certeza foi a mais legal.
_ Certo. Nós gostamos também, mas vamos nos decidir até depois do almoço. Sua mãe e eu temos muito que conversar.
O shopping era enorme, e logo que entramos fomos procurar a praça de alimentação. Comemos lanches de uma rede de fast-food e depois fomos dar uma volta. Meu irmão e eu nos separamos dos nossos pais depois de marcarmos uma hora e ponto de encontro.
_ Vamos o fliperama? – Perguntei.
_ Certeza.
A área de jogos eletrônicos era muito legal: muitas máquinas que nunca tínhamos visto e torramos nosso dinheiro ali. Certamente não chegaria a tempo de sair com a turma mesmo.
_ E aí Lou? Como tá agora sabendo que vai ficar?
_ Empolgado, mas é estranho. Agora que a ficha tá caindo.
_ Imagino. Mas a cidade é bem massa. Olha só esse shopping! Fora os caras falando das festas.
_ É. Vai ser massa... – Respondeu ele, um pouco vago e com o olhar fixo em algum ponto que não identifiquei.
Ficamos o resto do tempo ali, sem muitas palavras, nos divertindo.

_ Lou, já colocou suas coisas no quarto? – Perguntou meu pai.
_ Já sim.
Depois de a minha mãe tentar convencer inutilmente meu irmão e meu pai de que deveria ficar uns dias com meu irmão, começamos a nos despedir. Minha mãe chorava muito, e meu irmão já não a criticava, aceitando seus carinhos e abraços. Meu pai estava quieto, mais do que o normal, e essa era a sua forma de demostrar a tristeza por se separar do filho. Eu também estava estranho, pois sabia que agora o veria muito pouco, e isso não era tão legal como eu achava.
_ Falou, babaca. – Disse a ele, tentando quebrar um pouco a tristeza.
_ Falou, otário. – Respondeu ele, dando um forte tapa na minha mão. – E Leo? Venha me visitar, ok?
Abri um largo sorriso e concordei com a cabeça.

Entramos no carro e saímos. Vimos que meu irmão não entrou até que o carro não virou a esquina. A volta toda foi bem quieta, com alguns choros baixos da minha mãe.

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sexta-feira, 2 de maio de 2014

Aos Meus Amigos - 12 (Parte II)

O natal seria um tanto chato por ser o primeiro sem a vó Cotinha. Como sempre, era na casa dela que passávamos o natal, e o vô Tonico estava bem abatido. Meu pai tentou fazer a farra de sempre levando as crianças para a rua dizendo que o Papai Noel chegaria, enquanto os outros colocavam os presentes embaixo da árvore, mas as crianças de agora não eram como da nossa época.
_ Para de enganar a gente, tio Chico! – Dizia um.
_ Papai Noel não existe! – Dizia outro.
_ Quem disse isso pra vocês? Claro que existe, pergunta pro Leo!
E a molecada saia de perto, descrente.
_ Deixa pai. Eles não sabem o que estão perdendo.
E voltamos para dentro, com meu pai desanimado e as crianças abrindo seus presentes sem o mesmo encanto de antes.
Jantamos, esperamos meia-noite, estouramos espumantes e todos se abraçaram, desejando Feliz Natal. Logo começaria o amigo secreto, e enquanto isso, enchíamos nossos copos com o espumante e bebíamos com todo mundo. Natal e Ano Novo eram os únicos momentos que nos deixavam beber um pouco.
_ Vão com calmo ai molecada! – Chamava minha mãe à atenção.
_ Tá mãe. – Respondia. – Pega mais uma garrafa lá Manezinho. – Dizia logo em seguida, disfarçando.
Naquela altura o Ivan, sobrinho do André, já estava maior e grudava na gente. O deixávamos ficar com uma condição:
_ Se contar pra alguém que estamos pegando outra garrafa você tá ferrado!
Ele concordava e ainda procurava nos acobertar. Pelo jeito logo seria um bom companheiro.
No amigo secreto a troca de presentes mais virava uma esculhambação do que troca de presentes entre “amigos”:
_ O meu amigo secreto uma vez cagou na calça tentando peidar. É você Francisco!
_ O que é isso Mané? Uma cueca nova?
_ Claro! Vai que você caga nas calças de novo!
_ Hahahahahahaha...
E seguia:
_ O presente que comprei pro meu amigo secreto vai ser muito útil. É você Roberto. Abre aí.
_ Sacanagem Rodolfo. Um pacote de fraldas? Era presente pra mim ou pro cagão do meu filho?
_ Hahahahahahaha...
E a coisa continuava:
_ O meu amigo secreto na verdade é irmão secreto. Isso mesmo, tirei o Lourenço. O duro é que o presente que comprei acho que ele nunca vai usar.
_ Abre aí Lourenço, mostra pra gente. Camisinha? Hahaha!
_ Babaca!
Depois do amigo secreto cada um se juntava pra fazer o que gostava: jogar baralho; conversar; arrumar a cozinha; dormir... Dissemos para nossos pais que só daríamos uma volta e logo retornaríamos, uma vez que havíamos combinado passar o natal inteiro com eles para ficar até o amanhecer no Ano Novo. Nos deram só meia hora. E o quarteto foi dar sua volta.
_ João, a gente vai fumar um cigarro. Tudo bem? – Já abriu o jogo o André.
_ Sem problemas. Mas você não fuma não, né Manezinho?
_ Pode ficar tranquilo que não.
Caminhávamos sem rumo, mas sem se afastar muito, fumando e conversando. O João sairia conosco na noite da virada, mas tinha combinado com outra turma depois disso.
_ Ano passado fui na avenida do bairro, e foi muito massa. – Disse ele.
_ Será que o Leo perde a virgindade? – Cutucou o Manezinho, que também já tinha transado.
_ Vai se foder Manezinho!
_ Esquenta não Leo. Já disse que vou arrumar uma garota pra você. – Disse o André.
Fumamos mais um cigarro e matamos a garrafa de espumante que havíamos levado escondido. Chicletes na boca e voltamos para casa do vô Tonico. Por volta das quatro da manhã, depois de mais algumas voltas daquela, fomos embora com nossos pais. O Ano Novo se aproximava.

Os dias que antecederam o Ano Novo foram bem legais. Como estávamos de férias reuníamos a turma todos os dias, jogando bola, bétia, andando de bicicleta e tudo mais. À noite sempre íamos ao bar do Pescocinho jogar bilhar ou fliperama, mas, conforme o combinado com meus pais, não poderia ficar até muito tarde. Estávamos evitando tomar só cerveja, pois, além de ser mais caro, tínhamos que guardar dinheiro para a grande noite da virada, então apelávamos para a porradinha ou conhaque com refrigerante. Até o cigarro estávamos dividindo para economizar. O plano era comprarmos algumas cervejas e uma garrafa de uísque importado. Colocaríamos tudo numa caixa de isopor e escolheríamos um lugar bem movimentado e cheio de gatinhas.
_ E o uísque Jonatan? Já foi atrás né? – Perguntou o André.
_ Já sim. O cara da loja de importados garantiu que arruma num preço mais em conta.
_ Maravilha. E tá fazendo o gelo no frízer da sua casa Leo?
_ Tudo certo. Meus pais nem repararam. Vai ter gelo suficiente.
_ Cara! Vai ser demais! – Disse o Cleber só de imaginar.
_ Tá chegando, molecada! Tá chegando! – Falou o Manezinho, dando um tacada.
E o dia finalmente chegou...

_ Cinco! Quatro! Três! Dois! Ummmm...!!! Feliz Ano Novo!!!
Todo mundo se abraçou, agora na casa da tia Josefa.
_ Cadê o bom princípio de ano novo, tio Mané?
_ Ah! Vá catar coquinho na descida vai Leo! Olha o seu tamanho.
E saia dando risada para encher novamente o copo com espumante. Estaríamos livres em meia hora. O Jonatan já havia levado a caixa térmica com as cervejas e o uísque em casa, de modo que a enchemos de gelo e a mantivemos escondida no fundo de casa, coberta com caixas e tapetes. O ponto de encontro seria lá, por ser mais perto da avenida do bairro.
_ Mãe, já deu a hora. Estamos indo.
_ O Lourenço vai subir com vocês. É pra irem juntos até lá, entendeu?
Que saco! Teríamos que despistá-lo no caminho.
Nos despedimos de todos, dei um beijo no vô Tonico e saímos. Meu irmão junto.
_ Que bosta, Leo. Achei que poderia acender um cigarro, mas com seu irmão aí não rola. – Reclamou o André.
_ Nem me fale.
Chegando na esquina recebemos a boa notícia:
_ Falou babacas. Nem a pau vou com vocês até lá. Tô indo no Borges. – E seguiu em direção oposta à nossa.
_ Hahaha! Já me dá um cigarro também. – Disse ao André, sorrindo.
Chegando em casa o Jonatan já estava lá com o Cleber. Pouco depois chegaram o Mário e o Hugo.
_ Galera, é só pegar as coisas e sair, heim? Nada de beber aqui para os meus pais não desconfiarem.
_ Certeza! Não vejo a hora de chegar na avenida. – Já retrucou o Cleber.
Mais cigarros e seguimos as poucas quadras em direção à avenida do bairro, revezando quem levava a caixa térmica, que estava bem pesada.
_ Deixa que eu ajudo. – Brincava o Hugo tirando uma latinha de cerveja de dentro.
_ Passa uma pra cá que eu ajudo também. – Aproveitava o João.
E assim seguíamos, bebendo e fumando.
A avenida estava lotada: carros, gente, sons, bebidas... A galera estava ensandecida. Reparamos que a rua estava repleta de cacos de vidro e então percebemos que a maioria das pessoas, conforme terminavam de beber algo em garrafa de vidro, a espatifava contra o asfalto.
_ Que massa! Vamos achar logo um lugar cheio de gatas. – Disse o Mário. E assim fizemos.
O local escolhido foi entre dois carros com som ligado e estava cheio de garotas. Algumas conhecíamos da balada e outras não, e sabíamos que dificilmente pegaríamos alguma delas, mas o fluxo de gente por ali estava muito legal, de modo que a chance de pegarmos alguém seria grande.
_ Galera, vou dar um oi ali para minha turma. – Disse o João.
_ Mas agora que vamos abrir o uísque? – Falou o Manezinho.
_ Podem beber. Qualquer coisa bebo depois.
_ Isso se sobrar. – Soltou o André.
Ele nem respondeu e saiu. E percebemos que começávamos a perder o João.
_ Bem, vamos ao que interessa. – Disse o Jonatan abrindo a garrafa.
Enchemos nossos copos. Aquela noite não podia ter fim.
Bebidas rolando, cigarros sendo acesos, escondendo-os vez ou outra quando passava algum conhecido que não sabia que eu fumava e a noite rolava. Conversávamos com todo mundo um pouco, e em vários momentos arriscávamos umas cantadas sem sucesso.
_ Hoje a noite não pode passar em branco. – Dizia o André a cada cantada falha.
_ E se passar? – Perguntou o Mário.
_ Não passa. Qualquer coisa eu apelo. – E apontava para uma roda de garotas que tinham fama de serem fáceis e que ele e o Jonatan já haviam pegado. – Inclusive se quiser hoje mesmo você perde o cabaço Leo. É só falar.
Fiquei quieto, pois não sabia se queria daquela forma.
Um tempo depois vejo meu irmão passar por nós. Algo estava errado.
_ Leo, parece que seu irmão está meio chapado? – Reparou o Hugo.
De fato ele não estava normal: todo molhado, mexia com tudo e com todos, enquanto o Borges e outros amigos o acompanhavam e davam risada. Percebi o Borges cutuca-lo e apontar para mim, e ele veio, com um sorriso no rosto que nunca tinha visto.
_ Meu irmão! – E me abraçou forte. Parecia que ia quebrar minhas costelas. Me contorci para escapar.
_ Caralho Lou! O que você bebeu?
_ Só um pouquinho de rum. – Disse, enroscando todas as palavras.
_ Hahaha! Dá um gole aí então. – Falei, oferecendo meu copo de uísque. Ele virou tudo sem nem sentir.
_ Vamos Lourenço. Tem umas gatinhas ali. – Foi puxando um dos amigos dele, acho que era irmão do Borges.
_ Gatinhas? Opa! É pra lá que vamos então. – E saíram.
Achei muito massa aquilo. Parecia que ele finalmente tinha ganhado vida.
A noite foi seguindo: o Cleber, pra variar, ficou chapado demais; o João não voltou; o Manezinho saiu com uma garota que estava de rolo; o Jonatan e o André chavecavam umas meninas e o Mário, o Hugo e eu bebíamos e conversávamos. O dia estava quase para amanhecer quando o André me chamou:
_ Leo, pra mim não rolou nada e o Jonatan tá indo embora. Vou apelar. Quer ir junto?
Fiquei sem saber o que fazer.
_ Vai lá Leo. – Incentivou o Hugo.
_ Aproveita. Pelo menos você come alguém. – Ajudou o Mário.
_ E vocês? Combinamos de ficar juntos.
_ Não esquenta não. A gente vai levar o Cleber embora.
_ É. Deixa que a gente leva a caixa também. Tá bem mais leve agora.
“Os caras são foda”, pensei, e fui junto com o André. Senti que minhas pernas tremiam.
_ Leo, essas são a Daiane e a Sara. A gente vai dar uma volta. A Daiane quer te conhecer melhor. Vamos?
As duas não eram bonitas, mas, nas palavras do André, era hora de apelar, e conhecendo o André eu sabia no eu aquilo ia dar.
_ Opa! Prazer. Vamos sim.
O André foi seguindo mais à frente com a Sara, falando coisas que a faziam rir embora eu não ouvisse o que eram. Eu estava calado.
_ Então você é primo do André? – Perguntou a Daiane.
_ É. – Foi o máximo que saiu.
_ Você é meio quieto, mas é uma gracinha.
_ Valeu.
Andamos mais um pouco. O André fez um sinal e se afastou mais, virando um quarteirão.
_ Parece que agora estamos sozinhos. – Disse a Daiane. Não soube o que dizer. – Vem cá, vem. – E me puxou.
Ela começou a me beijar e a passar a mão no meu pau por cima da calça. Fiquei duro na hora.
_ Vem comigo, vem. – E começou a me arrastar para uma construção.
Entramos e ela começou a me beijar novamente, já desabotoando a minha calça.
_ Vamos brincar um pouquinho. – E foi tirando a blusa, mostrando os seios. Eu estava muito nervoso, mas comecei a beijá-los.
_ Delícia! Ui! Delícia! Espera aí. – E tirou a calcinha, ficando apenas de saia. – Tira a camisa. – Ordenou.
Tirei a camisa e ela a estendeu sobre um balcão de concreto, deitando sobre ele.
_ Põe a camisinha e vem.
Peguei a camisinha que sempre levava na carteira, abrindo-a, e comecei a coloca-la, me demorando.
_ Vem logo, vem!
E nada.
_ O que está acontecendo?
_ Não consigo colocar.
_ Como assim? Espera que te ajudo. - E se levantou. – Porra! Assim você não vai conseguir mesmo. Que droga! – E começou a se vestir.
Eu estava com o pinto completamente murcho. Nada o faria subir naquela hora. Minha primeira vez e eu havia brochado.
_ Vai, coloca a roupa e vamos embora.

Olhei para fora e o dia estava amanhecendo. Havia perdido meu primeiro pôr-do-sol no ano novo. E havia perdido minha primeira transa...

sábado, 26 de abril de 2014

Aos Meus Amigos - 11 (Parte II)


Como dizem, a vida continua... depois da morte da vó Cotinha procurei passar todos os dias na casa do vô Tonico, me habituando a levar o pão enquanto ele me aguardava com o café e as bolachas para um café da tarde. Era nítido o quanto envelhecera num curto período de tempo, passando a utilizar uma bengala para caminhar e parando de beber por conta dos remédios que agora tinha que tomar. Só o cigarro que não conseguia largar. Quase não falava, apenas respondendo as perguntas que eu fazia. Vez ou outra contava alguma história que sempre envolvia uma lembrança boa da vó Cotinha, e seus olhos se enchiam de lágrimas, e então voltava a se calar. Eram momentos tristes, mas eu os mantinha por medo de perdê-lo mais brevemente.
Em casa estava tudo bem: minha irmã teve um lindo menino no qual deram o nome do pai. Como o Roberto já tinha o nome do seu pai, o filho deles ficou sendo Roberto Neto, ou seja, o Neto. Meus pais estavam muito orgulhosos por serem avós, e sempre levavam o neto para ver se animavam o bisavô, que realmente ficava feliz, mas sem a mesma energia que tinha antigamente, já não fazendo as brincadeiras que tanto gostávamos quando crianças. Meu irmão havia prestado vestibular e todos aguardavam ansiosos os resultados, que sairiam apenas no início do ano. Meu interesse era saber se passaria em alguma cidade bem legal para poder visitá-lo e aproveitar mais o pouco que havíamos presenciado com o João.
Já na escola as coisas não iam tão bem. Eu tinha passado de ano após várias recuperações e quase um exame, e meus pais viviam me cobrando pelo fato do Lourenço ser um exemplo de aluno. Eu nem mesmo sabia o que queria da vida. Mas as amizades estavam a mil, ainda mais pela total união entre a turma da escola e a turma dos primos.
_ Natal vai ser com a família, mas Ano Novo promete, heim? – Comentei em meio a uma partida de bilhar no bar do Pescocinho.
_ Nós vamos na avenida do bairro né? – Perguntou o Hugo.
_ É lá que a coisa pega. Vai ser massa. – Respondeu o André.
Além de nós três estavam também o Jonatan, o Manezinho, o Cleber e o Mário. A avenida do bairro era uma avenida que ficava nos limites da cidade, num bairro onde não haviam muitas casas construídas, o que permitia muita gente parar lá com os carros com o som ligado e a galera bebendo e curtindo, além de ter um nascer-do-sol maravilhoso que todos esperavam para anunciar o Ano Novo. Aquele era o primeiro ano que eu poderia ficar até o amanhecer.
Revezávamos as duplas conforme o resultado de cada partida, e na mesa sempre uma garrafa de cerveja, que era o que mais gostávamos e juntávamos dinheiro para poder beber. Pra variar, idade não era problema no bar do Pescocinho.
_ E tá pegando aquela mina ainda Jonatan? – Perguntou o Manezinho.
_ De vez em quando só. Ela é meio louca. O Silvinho disse que o pelo da boceta dela é verde.
Caímos na risada.
Naquela altura alguns de nós já tinham iniciado suas vidas sexuais, mas o Hugo, o Cleber, o Mário e eu ainda não. O André vivia me dizendo que arrumaria uma garota pra mim, e aquilo me empolgava ao mesmo tempo que me deixava nervoso.
_ Ganhei mais uma, hahaha. – Vangloriava o André. – Vamos pra balada, moçada?
Terminamos as bebidas, pagamos a conta e fomos para a boate, mas não para a mesma de sempre, já que um clube no centro havia inaugurado uma nova boate que estava sendo a sensação do momento apesar de não ter nada de mais em relação à outra, a não ser por ter dois andares: embaixo ficava o bar e uma banda que geralmente tocava pagode, e encima era o som dance.
_ Hahaha! Olha lá uma desprevenida que veio de saia. Não deve ser daqui. – Disse o Mário, apontando uma menina subindo as escadas que tinham os vão vazados, de modo que quem estava embaixo podia ver a calcinha.
_ Da hora! – Concordamos todos.
Compramos doses de conhaque e refrigerante, dividimos em copos para todos e subimos. Observamos o movimento e nos postamos no lugar de sempre, que era próximo a uma grande janela e acendemos nossos cigarros. Da turma da escola apenas o Cleber começou a fumar, sem ninguém insistir, e o que o diferenciava de antes é que já não era tão gordo.
_ Passa o isqueiro. – Pediu o André para o Jonatan.
O Jonatan já sacou a arte e entregou o isqueiro, disfarçando para que o Hugo não visse, sendo ele a vítima da vez. O André se aproximou dele e acendeu o isqueiro na sua perna. Como ele estava de calça jeans não havia o risco de pegar fogo, mas certamente sentiria o calor em segundos.
_ Ai, Porra! Vocês são foda! – Gritou o Hugo.
_ Hahahahaha! – Todos caímos na risada.
_ Vocês tão fodidos comigo. Deixa você marcar André, que vou me vingar. – Desbravava já dando risada também o Hugo.
Copos eram esvaziados, cigarros acendidos e a noite seguia, hora um aprontando com o outro, hora alguém tomando fora de alguma garota. Subíamos e descíamos as escadas conforme enjoávamos de algum lugar, e a cada volta era uma forma de encontrar mais conhecidos e novas paqueras. Como não tínhamos mais hora exata para ir embora geralmente ficávamos até o fim. O fim mesmo:
_ Espera a maioria sair e vamos procurar coisas. – Sugeriu o Jonatan.
E lá íamos nós, olhando para o chão procurando dinheiro perdido ou algum outro objeto. Era comum cair algo no meio da balada e aquilo não ser achado na hora.
_ Achei cinquenta centavos! – Anunciava um.
_ Tem um brinco aqui. Nem vou pegar. – Dizia outro.
_ Hahaha! Uma camisinha! – Mostrava mais um.
_ Vai molecada! A farra acabou! Circulando! – Vinha o segurança nos tirando do salão.
_ Padaria ou praça? – Era a dúvida o Cleber ao sair.
_ A padaria vai demorar pra abrir e já tô meio cansado. Vamos pra praça mesmo. – Sugeriu o Manezinho.
Mais cigarros acesos e seguimos em direção à praça, onde havia uma barraquinha de lanches e lá se concentrava parte da turma que saia da boate.
_ Vai mais um conhaque com soda? – Perguntei.
_ Pra mim já deu. – Respondeu o Hugo.
_ Tomo com você Leo. – Aceitou o Cleber.
Pedimos nossos lanches e bebidas e lá ficamos, relembrando a noite e traçando grandes planos para o domingo e o restante da semana. Comemos nossos lanches, acendemos novos cigarros, refrigerante pra dar uma acalmada na bebedeira e a hora de ir embora se aproximava.
_ Olha lá sua namorada Jonatan. – Apontou o Manezinho.
_ Será que termino a noite bem? – Respondeu ele. – Ela tá com uma amiga. Se alguém for comigo eu vou, se não, não.
_ Eu vou com você. – Se convidou o André.
E lá foram os dois, conversando brevemente e saindo com as duas em direção a algum bairro menos movimentado à procura de algum lugar para um possível coito.
_ Esses dois são foda... – Choramingou o Hugo.
_ Nossa hora vai chegar. – Respondi.
_ Era só um de vocês ter se convidado para ir com o Jonatan. – Cutucou o Manezinho.
Ficamos quietos por nossa covardia.
_ Bora então moçada? – Sugeriu o Manezinho.
_ Vamos sim. Alguém tem uma bala pra disfarçar o bafo do cigarro aí? – Perguntei.
_ Acho que o Cleber tem. – Respondeu o Hugo.

E quando olhamos o Cleber estava dormindo na grama...


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Aos Meus Amigos - 10 (Parte II)


O velório da Vó Cotinha juntou a família toda, inclusive um monte de parentes que eu nem conhecia, como tios e primos da minha mãe que moravam fora ou não. Durante a noite toda a casa foi preparada para o velório enquanto o corpo não chegava, o que havia sido combinado acontecer apenas ao amanhecer para que todos pudessem chegar em tempo. Eu não queria ir de jeito nenhum.
_ Leo, velório é o momento de nos despedirmos das pessoas que amamos. – Dizia meu pai. – E é um momento de dar um apoio ao seu avô.
Aquilo me chamou a atenção e olhei para ele.
_ Como o vô Tonico está pai?
_ Ele está bem quieto, até demais. Sua mãe tá bem preocupada. Faz tudo o que pedem para ele fazer sem falar nada.
_ Tá, eu vou, mas não quero chegar perto do caixão.
Foi um saco um monte de gente que eu nem me lembrava ou conhecia vir me cumprimentar com sorrisos e comentários alegres, como se nada tivesse acontecendo. Agiam como se a vó Cotinha estivesse por ali e tudo bem.
_ Como você cresceu!
_ É o filho mais novo da Marilda? Já tá um moço...
_ Lembra de mim? Seus pais foram visitar minha casa quando você era bebezinho...
Eu ia me esquivando. Queria encontrar o vô Tonico. Ele estava ao lado do caixão, que se encontrava no meio da sala. Me aproximei e ele nem viu. Segurei a sua mão.
_ Leo? Oh, Leo! A sua avó... – E me abraçou aos prantos.
Todos olhavam, pois desde que o corpo chegara a sua casa aquelas tinham sido sua primeira reação de sofrimento. Chorei muito abraçado a ele.
_ Leo, vem se despedir da sua avó.
_ Não quero vô. Não quero vê-la.
_ É só um momento Leo. Você precisa se despedir. – E começou a me puxar calmamente pelo braço.
_ Essa não é minha vó! – Gritei, me soltando de sua mão e correndo dali. Percebi que todos me olhavam.
Saí da casa, atravessei a rua e, inconscientemente, fui em direção ao antigo terreno do circo. Boa parte dele já havia sido vendido e agora eram casas ou barracões, e a mangueira que costumávamos subir já não existia mais havia tempo. Chegando lá não sabia o que fazer, me sentindo perdido.
E agora? - Pensava. - Saber que alguém pode nos deixar e essa pessoa nos deixar era algo muito diferente. Por mais que alguém possa estar preparado para isso é impossível não sentir o impacto no peito, a nebulosidade na mente, o vazio na alma... Aquilo não era justo! Não podia acontecer! - E, no meio da minha revolta, pensei: Se eu estou assim como estará o vô Tonico? E minha mãe e tios? E todas as outras pessoas que amavam a vó Cotinha tanto quanto eu? - E percebi o quão egoísta estava sendo, e decidi voltar. Mal iniciei meu retorno e pude ver outras figuras se aproximando. Eram meus primos, João, André e Manezinho. Todos com os olhos inchados. Se aproximaram em silêncio e nos abraçamos, como quando éramos crianças e queríamos elaborar nossos planos, mas dessa vez sem planos. Não havia planos para a morte. E choramos muito.
_ Temos que voltar Leo. – Disse o João, rompendo o silêncio.
Apenas concordei com a cabeça e começamos a caminhada, ainda abraçados. Nos aproximando da casa vi que o Cleber, o Hugo e o Mário estavam ali. Me desprendi dos meus primos e me dirigi a eles.
_ Meus sentimentos Leo. – Disse o Cleber.
_ Foda cara. Nem conheci seus avós, mas deve ser foda. – Falou o Mário.
O Hugo se aproximou e me abraçou. Mal conseguia falar ao perceber minha tristeza.
_ Força Leo. Nós estamos aqui para o que for preciso. Para isso servem os amigos.
Chorei mais. Agradeci os três e indiquei que iria entrar. Quando me afastei deles senti me tocarem o ombro.
_ Leo?
Me virei e vi que eram o Tomás e o Sidnei. Aquilo me surpreendeu.
_ A gente sabe o quanto você gostava deles. Meus sentimentos. – Disse o Sidnei.
_ Minha família também manda sentimentos. – Falou o Tomás. – Se precisar de algo pode contar com a gente
Dei um abraço nos dois sem dizer nada. Não sabia o que dizer. Teria nossa amizade realmente acabado ou ela estava apenas adormecida, mas sempre ali? Teria eu feito o mesmo se tivesse sido a vó do Tomás a falecer? Minha cabeça ficou mais confusa ainda, mas logo tais pensamentos se dissiparam ao perceber com o canto dos olhos uma presença, e ao olhar pude ver o Vini, do outro lado da rua. Apenas fez um aceno com a cabeça e se afastou. Decidi entrar de vez, agora mais calmo, mas com a cabeça ainda confusa. Muito mais.
Decidi procurar minha mãe, e ela estava ao lado do vô Tonico, junto com os outros tios. No caminha encontrei a Michele e a Milena, a Cássia e o Juninho, meus primos filhos da tia Matilde, os dois filhos do tio Osório que não via há muito tempo também estavam lá, assim como o Humberto. Cumprimentei a todos, mas não chorando mais e sim com certo sentimento de alegria, pois a vó Cotinha, apesar da situação, havia reunido toda a família, e ela merecia uma grande homenagem. Cheguei próximo à minha mãe e meu avô, segurando suas mãos. Os primos também se aproximaram, e percebi que o Silvinho e o Jonatan estavam presentes. Família e amigos. Amigos que são família e família que são amigos. Eu estaria completo se não fosse a ausência da Vó Cotinha.
_ Se despeça dela Leo. – Pediu o Vô Tonico.
Respirei fundo e me aproximei do corpo da vó Cotinha. Vi seu rosto que já não era seu, e toquei em sua mão gelada que não era mais a mesma dos bolos e sopinhas de pão.
_ Obrigado vó. – Falei bem baixinho, quase em pensamento. – Certamente você me fez uma pessoa melhor. Na sua ausência levarei seus ensinamentos, sua alegria, seu amor e seu carinho. Nunca me esquecerei de você e a forma de demonstrar isso será procurando tratar a todos da mesma forma que você tratava todos, sempre com um sorriso no rosto e a paz no coração. Te amo.
Dei um leve beijo na já não sua bochecha e voltei ao meu avô e minha mãe. Eu já não mais chorava e até esboçava um leve sorriso nos lábios. Meu pai estava certo: era um momento de despedida. Só não consegui segurar o choro no momento em que fecharam o caixão para o enterro.