segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Aos Meus Amigos - 23 (Parte II)

(Não leu desde o inicio? Então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html )

Naquele final de ano o Ivan terminava a oitava série, e haveria sua festa de formatura. Quase que a família toda iria, e como ele estava grudando em nós aos fins de semana convidou a turma toda também, de modo que alguns teriam que comprar as entradas, e deixou bem claro ao André:
_ Tio, eu quero beber!
_ Pode deixar Ivan. A gente da um jeito de você beber sem sua mãe perceber.
Ele estava muito excitado com aquilo.
Outra coisa legal foi o Jonatan tirar carta, e com o dinheiro que juntou trabalhando com o pai acabou comprando uma mobilete. Não que fosse preciso carta para a mobilete, de modo que muita gente tinha uma sem ser maior de idade, mas para que o Jonatan pudesse ter a sua aquela era a exigência do seu pai. O bom da carta é que às vezes ele podia pegar o carro também, o que ampliou nosso leque de diversão.
_ Como vai ser na formatura? Já pensou em algo André? – Perguntei, em meio a uma partida de bilhar, pra variar.
_ Ainda não. Mas essa vai ser a estreia do Ivan.
_ Vai ter bebida liberada? – Quis saber o Neuza.
_ Não. Eles servirão comida de um buffet contratado com o dinheiro arrecadado pela turma ao longo do ano. Água e refrigerante vai ter, mas bebida alcoólica não. Teremos que comprar no bar mesmo.
_ O duro é que a bebida nesses bares de formaturas é uma facada. – Reclamou o Hugo.
_ E não pode levar? – Perguntou o Mário.
_ Geralmente em formaturas permitem aos familiares levarem garrafas de uísque ou vodca. – Lembrou o Jonatan.
_ É mesmo! Vai ser fácil então.
_ Sua irmã não vai achar ruim? – Questionei.
_ Se achar eu brigo com ela. Vamos rachar uma garrafa de uísque então.
Estava decidido.
_ Você vai de carro, Jonatan? Seria legal pra zoar depois. – Quis saber o Mário.
_ Se meu pai liberar sim, mas não sei. Pelo menos de mobilete eu vou.
_ Ai você passa em casa. – Já se convidou o André.
E continuamos nossa noite de bebidas, cigarros e bilhar.

A noite da formatura chegou. Fui com meus pais, meu irmão, a Rosália, o Roberto e o Neto, que já corria por todo lado, dando um bom trabalho de vez em quanto. A família toda estava reunida em duas mesas, e tinha mais uma só para a turma. Como era pedido no convite, todos teriam que ir de terno, o que nos deixava parecendo sérios. Ver meu irmão daquele jeito foi hilário:
_ Combina com você, Lorde. Devia andar sempre assim.
_ Vai se foder!
_ E o tio André? Vai demorar? – Perguntava o Ivan, ansioso.
_ Fica tranquilo, Ivan. Hoje a noite promete.
A turma foi chegando aos poucos: o Hugo e o Mário foram os primeiros, chegando juntos. O Cleber veio logo em seguida, procurando onde estávamos. E logo chegou o Jonatan e o André, que tinha ido de mobilete mesmo. O André carregava o uísque.
_ Não vai beber demais, ouviu Leo? – Já dizia minha mãe ao ver a garrava sendo colocada na mesa.
_ É só um pouco, mãe.
_ Posso entrar no racha com vocês? – Puxou meu irmão, falando ao meu ouvido.
_ Vou ver com o pessoal, mas acho que tudo bem.
Chamaram os formandos para a entrada de abertura. O Ivan saiu e abrimos a garrava. Ele olhava o tempo todo para nós.
_ Vamos deixar um copo preparado com uísque e refrigerante. – Disse o André. – Assim que ele voltar é só ele não dar bandeira que ninguém vai desconfiar.
E tomamos uma dose cada. Meu irmão junto. A garrafa já desceu significativamente, o que nos preocupou.
_ Alguém quer água ou refrigerante? – Perguntou o garçom.
_ Refrigerante, por favor. – Pedi, já como parte do plano.
_ Refrigerante?!? – Provocou o Rodolfo, irmão do André, da outra mesa.
Só fiz um sinal para ele e mostrei o copo de uísque. Ele ficou rindo. Não sabia de nada.
Os formandos entraram de acordo com o protocolo. A mesa com direção, coordenação e professores faz seu discurso e os diplomas foram entregues. A Inês, mãe do Ivan, e a tia Josefa choravam de emoção. E o Ivan sempre olhando para nós, e estendíamos nossos copos em homenagem a ele, que sorria. Minutos depois, se sentava na nossa mesa após ser parabenizado por toda família e amigos.
_ E agora, tio André?
_ Agora? É só beber seu refrigerante, hehehehe.
Ele pegou o copo sem entender, e o incentivamos a beber. Deu um gole, engasgando com o gosto da bebida. Todos rimos.
_ Nossa! Tá forte.
_ Deixa de ser bundão, Ivan. Estamos todos tomando puro. – Soltou o Lourenço.
Ele deu outro gole, fazendo uma careta.
_ Ivan, se continuar assim vai denunciar pra sua mãe. – Falou o Jonatan.
Ele deu outro gole, disfarçando um pouco, mas era evidente que estava achando forte.
_ Acho melhor misturar com mais refrigerante, se não ele não vai aguentar e vai denunciar. – Sugeriu o Hugo.
Não gostamos da ideia, mas o fizemos.
E a garrafa descia...

_ Cara, já tô bem louco. – Disse o Neuza enquanto dávamos uma volta para um cigarro lá fora.
_ Certeza. Eu também. – Concordei.
_ Seus fracotes! – Disse meu irmão, que se juntou a nós para o cigarro, mas já claramente alterado também.
_ O duro é que a garrafa tá acabando. – Lembrou o André.
_ Vamos ter que comprar mais. – Sugeriu meu irmão.
Nisso, ele tirou da carteira uma nota um tanto alta.
_ Aqui tá minha parte da garrafa, e um pouco mais pra ajudar. Quanto vocês têm?
Tiramos nossas carteiras e olhamos. Somava uma quantia até que significativa devido a nota do meu irmão.
_ O pessoal lá dentro deve ter um pouco mais. – Falou o Jonatan.
_ Vamos passar no bar e perguntar o preço da dose. – Disse o André, já saindo.
Ao chegar no bar encontramos o Rodolfo, comprando justamente uísque.
_ Acabou o estoque? Hahahaha! – Disse ele.
_ É. Quanto tá a dose, Rodolfo? – Perguntei.
_ Quanto você faz para eles, Galego? – Perguntou o Rodolfo para o cara do bar.
_ São seus parente?
_ Esse é meu irmão e esses dois são primos. O restante é amigo.
_ Bem, sendo assim, pela amizade que temos, faço dois por um. E caprichado.
Aquilo nos animou muito. Voltamos para o salão contar para o Mário, o Hugo e o Ivan. Todos ficaram muito felizes, principalmente o Ivan, que já estava de fogo e tínhamos que a toda hora pedir para que disfarçasse a bebedeira.

_ Vamos embora, Ivan? Já está tarde. – Era a Inês chamando-o.
_ Ah, mãe! Deixa eu ficar com o tio André e o Leo?
_ Não sei não. Você é muito novo.
_ Eu cuido dele, Inês. Deixa, vai? – Disse meu irmão. Não acreditávamos naquilo.
_ Bem, se o Lourenço te acompanhar até a casa da sua vó tudo bem. Afinal, ele é mais velho. Mas não é para irem embora muito tarde, entenderam?
Todos concordaram com a cabeça, já bem altos mas disfarçando.
Aquilo representou a glória. Todos os adultos foram embora. Ficamos apenas nós com o Ivan e as doses de uísque em dobro. Minha mãe tinha dado um sermão básico antes de ir mas já estávamos acostumado àquilo. Finalmente poderíamos nos soltar.
_ Então vamos a uma nova rodada!!!
E todos nos dirigimos ao bar encher os copos. O Ivan misturando com refrigerante e ainda disfarçando, uma vez que na festa ainda tinha muitos pais de seus colegas de classe.
Ao voltar para o salão com os copos cheios o Hugo me cutuca:
_ Leo, olha embaixo daquela mesa!
Quando olho para a mesa apontada por ele vejo uma garrafa de uísque, levemente escondida e sem ninguém nela. Aquilo nos atiçou, e puxei o Ivan.
_ Quem tava sentado nessa mesa?
O Ivan se aproxima e lê o nome impresso num papel na mesa.
_ É da Laura, a menina mais rica da sala. O pai dela é médico.
_ Onde eles estão agora?
_ Dançando no salão. – Diz ao olhar ao redor. – E a Laura tá naquele grupo de meninas.
Olhei para o Hugo que olhava para a garrafa que olhava para nós. Num impulso, o Hugo soltou:
_ Chama o pessoal e me encontra lá fora.
Se agachou, pegou a garrafa e saiu rapidamente. Fui avisar a turma.

_ Onde está indo, Leo? – Perguntou o Jonatan, vendo eu me afastar já muito bêbado.
Nesse momento estávamos na praça em frente ao salão, onde tínhamos ido fumar um cigarro. Meu irmão dormia numa das mesas do clube, chapado depois de mostrar para a gente como se virava um copo de uísque, fazendo isso três vezes seguida. O Mário já tinha ido embora sem conseguir manter uma linha reta. O Hugo reclamava que estava passando mal enquanto o Neuza vomitava numa árvore. O Ivan mal conseguia falar, enquanto o André e o Jonatan fumavam sentados num dos bancos da praça, zonzos.
_ Vou cagar. – Respondi.
Me dirigi a um dos vaso do jardim e baixei as calças. Aquilo despertou o Ivan.
_ O que o Leo vai fazer? – Disse, enrolando a língua.
O Jonatan e o André olharam, assustando.
_ Que tá fazendo, Leo? – Gritou o Jonatan.
_ Vou cagar.
O André só dava risada, e o Hugo correu em minha direção.
_ Leo! Você vai cagar no vaso de planta?
_ Vou cagar. – Era tudo o que eu dizia.
_ Me ajuda a tirar ele daqui. – Pediu o Hugo, e o Jonatan e o Neuza o ajudaram.
_ Cara, depois dessa eu vou embora. – Anunciou o Neuza.
_ Você tá bem, Leo? – Perguntou o André.
Concordei com a cabeça enquanto arrumava as calças.
_ É. Acho melhor irmos todos. – Concluiu o Jonatan.
Acordamos meu irmão e fomos embora, trançando as pernas.
No dia seguinte ficamos sabendo de vários ocorridos: o Ivan, sabe-se lá se de bêbado ou se de sonâmbulo, saiu três vezes na rua de cueca, de modo que a tia Josefa teve que ir busca-lo nas três vezes, perguntando o que estava acontecendo enquanto ele falava coisas desconexas; o Neuza se perdeu no caminha para casa, chegando quase ao amanhecer; o Jonatan e o André caíram de mobilete e tinham ralado o joelho e os braços; o Hugo vomitou na cozinha ao entrar e ver um frango descongelando sobre a pia; e o Mário tinha dado o maior trabalho na casa dele, de modo que o seu pai precisou dar banho nele, e quando perguntava o que ele tinha feita pra ficar daquele jeito ele respondia:
_ Bebi conhaque com churrasco.

Nem tinha churrasco na festa. Muito menos conhaque.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Aos Meus Amigos - 22 (Parte II)

O programa do Valdomiro seria só no final da tarde, de modo que passei mais um dia à toa perambulando no campus. Aproveitei para fuçar em alguns livros na biblioteca e circular pela área de anfiteatros, onde ocorriam alguns eventos. Cheguei até a assistir uma palestra sobre um filósofo alemão da qual não entendi direito, mas, o que entendi, achei bem legal.
_ Vamos? – Chamou meu irmão ao sair da última aula.
_ Opa!
E nos dirigimos para um dos prédios da universidade onde ficava a rádio. Achei bem legal isso, ter uma rádio da própria universidade.
Pela primeira vez entrei num estúdio de rádio: uma sala toda forrada com espumas para não deixar o som entrar ou sair e vidros a prova de som que separavam os ambientes. Dentro, o Valdomiro, meu irmão, eu e mais dois caras com roupas parecidas com as do meu irmão. Atrás do vidro o técnico de som, que se comunicava com o Valdomiro por um microfone enquanto rolava música, de modo que uma luz indicava quando estávamos no ar.
No início da transmissão o Valdomiro fez a abertura de sempre e apresentou os convidados do dia, dizendo até meu nome ao vivo. Fiquei me sentindo muito importante, quase não acreditando. Durante as músicas em sequência todos se juntavam do lado de fora para fumar, e me surpreendeu quando o Lourenço tirou um maço de cigarros do bolso do casaco e acendeu um.
_ Se você falar pros pais eu te mato.
_ Fica tranquilo! – Respondi, tirando meu maço de cigarros e acendendo um também.
Ele pareceu surpreso, mas também aliviado.
Ali ouvi muita música incrível. Meu irmão sempre gostou de rock, coisa que eu até achava legal, mas nunca tinha dado muita bola, até aquele dia. Bandas que nunca tinha ouvido falar, grupos com sons fantásticos, toques de guitarras e solos de bateria... sai de lá com uma certeza: o rock não era um gosto, e sim uma necessidade. Aquilo tinha realmente transformado meu gosto musical. Para sempre.

_ VAI LORDE! VIRA MAIS UM! – Gritavam todos na mesa do bar, e meu irmão virava grandes canecas de cerveja de uma vez, deixando escorrer fios da bebida por sua barba. Ao término, batia com tudo a caneca na mesa.
_ Já sabe que se quebrar a caneca ou a mesa vai ter que pagar, né Lorde? – Dizia o Zé, dono do bar.
Estávamos no Zé do Rock, barzinho onde sempre se encontravam depois dos programas. O Zé, como toda a turma, era apaixonado por rock, então deixava vinis de grandes bandas tocando ao fundo enquanto a galera se deliciava com suas cervejas na caneca. Meu irmão já estava muito bêbado. Eu também, mas ele mais devido aos pedidos para que virasse suas canecas.
_ Seu irmão é muito maluco. – Dizia uma garota que estava com a turma. Era uma gatinha.
_ Mais uma rodada, Zé!
E a noite prosseguia, até várias horas. Nem me lembro como chegamos na república. E se foi mais um dia. O terceiro.

_ Lourenço? Lourenço?
Batia na porta do seu quarto por volta da uma da tarde. Nenhuma resposta.
_ Geralmente ele dorme até umas cinco quando chega daquele jeito. – Disse o Fabrício.
_ Até as cinco? – Me espantei. – Mas ele não tem aula?
_ Cara, seu irmão não acorda por nada. Nem adianta insistir.
Fui pra fora, desanimado. O Fred veio até mim esperando um carinho. Acendi um cigarro e fiquei por ali.
_ Leo, nós vamos comer algo no shopping. Quer ir? – Disse o Rodrigo.
_ Opa, vamos sim.
Pelo menos faria algo. Deixei um bilhete e fui com eles.
Passear no shopping foi legal, mas tinha sido mais um dia perdido. Quando meu irmão acordou estava tão mal que não quis fazer nada. Droga...

Último dia. Na manhã seguinte voltaríamos para nossa cidade. Aquele dia eu queria aproveitar.
_ Vamos fazer algo hoje, né? Ontem foi uma bosta. – Reclamei.
_ Vai ter uma festa da faculdade. Acho que você vai gostar.
_ É bom mesmo.
Fiquei na casa enquanto ele foi para a universidade. Li quadrinhos e assisti televisão. Quando chegou já fui apressando:
_ Que horas é a festa? Meu último dia aqui, quero aproveitar.
_ Vou tomar um banho, comemos algo e vamos.
Realmente foi assim.
A festa era numa grande quadra de esportes. Um palco por onde se revezavam bandas e muita gente de todo tipo. Fomos com o pessoal da república.
_ Leo, só toma cuidado. Como é uma festa aberta tem gente de todo tipo, e não só universitários. – Disse meu irmão.
_ Fica tranquilo. – Respondi.
Caminhávamos juntos, mas de tempo em tempo alguém saia para algo, como falar com alguém, ir ao banheiro ou comprar alguma coisa. Latas de cerveja eram esvaziadas no processo, assim como cigarros e mais cigarros agora que não tinha mais o medo do meu irmão ficar sabendo.
_ Essa banda é massa. Vamos lá na frente.
E ficávamos curtindo os sons, na maioria rock, até que outra banda menos interessante subisse ao palco. E voltávamos a caminhar, paquerando e vendo o povo esquisito e chapado que se espalhava pela festa. Eu já estava bem torto.
_ Vou mijar. – Anunciei.
_ Ok, mas cuidado.
_ Tá, tá, tá! – E sai.
Fui até o banheiro onde uma fila esperava sua vez. O banheiro estava um nojo, com o chão todo molhado e papel higiênico por todo lado. Fiquei esperando enquanto matava minha lata de cerveja.
Depois da mijada comecei a andar meio sem rumo, vendo o movimento, e um grupo de garotas dançava um pop em frente ao palco. Já embriagado, me aproximei e comecei a dançar, sozinho. Aos poucos a roda foi se abrindo e fui me enfiando nela.
_ Massa esse som, né? – Disse uma das meninas. Não era muito bonita, mas àquela altura estava ótimo.
Parei para ouvir direito a música e a reconheci. Era de uma banda cujo vocalista havia se matado com um tiro na cabeça há pouco tempo. Eu não gostava muito, mas era febre entre bastante gente.
_ É legal. – Respondi.
_ Nós somos super fãs dessa banda. O vocalista era muito foda. Pena que se matou.
Aí me veio uma piada que achei que seria genial na hora, e a soltei:
_ Sabe por que ele deu um tipo na própria cabeça?
_ Hã? Não, por que?
_ Porque resolveu ouvir sua música enquanto estava são, achou uma bosta e se matou, hahahahaha!
_ Idiota! Vamos meninas, esse cara é um cretino. – E saíram.
Droga! Achei que aquilo seria engraçado.
Acendi um cigarro e peguei mais uma cerveja, e pouco depois outra banda subiu ao palco. Nem lembrava de procurar meu irmão. A banda começou e era um punk rock bem pesado, coisa violenta mesmo. Nunca tinha ouvido algo parecido. Aos poucos foram se juntando grupos em frente ao palco que pulavam e se trombavam uns aos outros. Achei aquilo muito massa. Matei a cerveja e resolvi me juntar àquela loucura. Todos pareciam muito animados. Comecei a imitá-los, chacoalhando os braços como que dando cotoveladas e pequenos chutes no ar. Sempre recebia e dava esbarrões, e era muito divertido, estava pirando.
_ O que você pensa que está fazendo??? – Senti meu irmão me puxando.
_ Tô curtindo, ué!
_ Vem cá. Agora!
E me puxou para fora da roda de punk.
_ Você tá ficando louco! Esses caras vão te arrebentar! – Ele dizia, assustado.
_ Que nada, é super legal. Vou voltar lá.
_ Leo, não vai não! Eles vão te machucar.
_ Deixa de ser bundão, Lou. Os caras são gente boa. – E fui saindo, voltando para frente do palco.
_ Depois não diga que não avisei.
Nem dei bola.
Comecei a dançar novamente, dando esbarrões e trombadas. Tudo ok, até que iniciaram outra música, mais pesada ainda.
_ ÚHUUUUU!!! AÍ SIM!!! – alguns gritaram, e a coisa começou a ficar mais violento.
Trombavam uns nos outros de modo que a toda hora alguém ia para o chão, tendo dificuldades de levantar. Fiquei preocupado, mas não parei. Comecei a me afastar do meio, ficando mais às laterais. Cada vez mais o centro ficava vazio, restando apenas uns caras bem malucos lá, que pareciam que iam se matar. Em certo momento, um desses caras vem pra minha direção, sem controle, levanta um dos pés e o desce com tudo na parte de cima da minha coxa. Cara! Doeu pra caramba. Resolvi sair da roda.
_ Machucou? – Perguntou meu irmão.
O Rodrigo e o Fabrício davam muita risada.
_ Não. Cansei só.
_ Cansou? Sei?
_ Vou pegar uma cerveja...

Ao acordar não me lembrava direito como havia chegado na república, de novo, mas minha coxa doía, e bastante.
_ Vai logo, Leo. Arruma suas coisas que o Fabrício vai nos levar pra rodoviária.
Fui o caminho inteiro quieto, com uma puta ressaca enquanto eles tiravam sarro de mim. Não tinha forças nem pra responder.

Nos despedimos do Fabrício, agradeci com as poucas palavras que consegui e entramos no ônibus. Fui desmaiado quase que o caminho todo.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Aos Meus Amigos - 21 (Parte II)

(Não leu desde o inicio? Então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html)


Os meses passaram rapidamente, sempre nas nossas farras: bar do Pescocinho, boate, passeios de bicicleta, bebedeiras, cigarros... O Cleber, depois do ocorrido, passou a ser chamado de Neuza por todos, ou Nê para os íntimos, o que o deixava bravo no inicio, mas se acostumou rapidamente:
_ Neuza? Vai sair hoje?
_ Vai tomar no cu!
_ Vai sair ou não?
_ Vou. Que horas nos encontramos?
E assim por diante.
Por causa de uma greve na universidade que meu irmão estudava as minhas aulas terminaram antes das dele, o que me permitiu fazer uma visita. Ficaria cinco dias lá e voltaria junto com ele. Meus pais me levaram até a cidade mais próxima onde tinha ônibus para lá e, quase seis horas depois, chegava à rodoviária onde ele me esperaria. Fazia tempo que não o via, cerca de quatro meses. Desci do ônibus e comecei a procura-lo. Nada.
“Cuzão”, pensei, e me encostei numa parede próxima e fiquei esperando. Quis acender um cigarro mas achei melhor não, já que ele poderia chegar a qualquer momento. Pouco tempo depois o vejo, mas quase sem acreditar que era ele: Seu cabelo estava bem maior, assim como sua barba, coisa de bons meses sem cortar. Provavelmente os quatro que não o via. Vestia um coturno cano alto e um casaco de couro enorme, praticamente um sobretudo, e uma camiseta preta de banda de rock. No rosto, um óculos escuro todo estiloso. Quase não o reconheci.
_ E aí babaca? – disse ele, erguendo a mão para me cumprimentar.
_ E aí? – E fiz a besteira de estender a mão.
Ele deu um grande tapa na minha mão de modo que ardeu muito.
_ Porra, Lou! Vai se foder!
_ Hahaha. Fracote! Vamos? Tô com um amigo esperando de carro pra te buscar.
Joguei a mochila nas costas e o segui, ainda esfregando a mão que doía. Ele andava mais rápido, ficando sempre à frente, de modo que tinha que apressar para acompanha-lo.
_ Tem cama pra mim na pensão?
_ Não vamos ficar na pensão. Arrumei uma república. Vou conversar com os pais nas férias e assim que voltar no começo do ano me mudo pra lá. Me deixaram ficar uns dias pra ir me acostumando. Tem até um quarto vazio de um cara que saiu há pouco tempo.
_ E se os pais não deixarem?
_ Não existe isso.
Fiquei quieto. Ele estava bem diferente.

A república era legal, apesar de bem bagunçada. Logo na chegada fomos recepcionados por um cachorro enorme mas bonzinho, o Fred, e nem saberia dizer a raça dele. Tinha merda pra todo lado da área da casa. Dentro, uma grande sala, cozinha, um banheiro central e três quartos, sendo um deles com banheiro também. O quarto principal ficava com o Fabrício, que era quem tinha o carro e o cachorro. Um sujeito magrelo e alto que fazia engenharia de alguma coisa. O outro quarto ficava com o Rodrigo, um cara grandão, tanto em altura como em gordura. Quando entramos estava em frente à TV.
_ Fala, Lorde. – Disse o Rodrigo ao meu irmão.
Achei estranho, pois quando entramos no carro do Fabrício na rodoviária ele havia chamado meu irmão da mesma forma.
_ E aí Rodrigo. Esse é meu irmão.
_ Opa! Beleza? – E me cumprimentou.
_ Beleza. Mas me fala uma coisa: tanto você como o Fabrício chamaram meu irmão de Lorde. Por quê?
_ Ele não te contou o apelido dele não? Todo mundo na faculdade chama ele de Lorde das Trevas.
_ Lorde das Trevas? Hahahahaha! – Não aguentei. – Por quê?
_ Olha o jeitão dele! – Respondeu o Fabrício. – E falar uma coisa: quando seu irmão bebe, vira o demônio em pessoa, hahahaha.
“Que massa!” Pensei. Acho que ia ser divertido aqueles dias.

No primeiro dia não fizemos muitas coisas. Como estava em final de semestre, meu irmão tinha um monte de trabalhos pra entregar, e ficamos o dia todo na república. Aproveitei pra brincar com o Fred, dar umas voltas no bairro enquanto fumava um cigarro e assistir televisão. Uma coisa interessante foi ler algumas histórias em quadrinhos que o pessoal tinha por lá. Coisas bem diferentes que nem sabia que existiam. À noite, compraram pão e salsicha e fizeram cachorro quente. Nem saímos de casa.
_ E amanhã? Vai ser assim também? – Reclamei, esperando algo mais próximo ao que havia presenciado anos atrás com o João.
_ Tenho que ir pro campus amanhã. Se quiser ir, beleza. Mas ficarei o dia todo lá.
_ Tá. – Respondi, desanimado, e fui ler mais uma história em quadrinhos.

Logo cedo o Lou me acordou e fomos de ônibus para o campus. Nem tomamos café nem nada, pois ele disse que o faríamos na cantina da faculdade. Fui bem desanimado, mas isso foi mudando conforme nos aproximávamos do campus: ele era enorme, muito maior que o próximo à escola que o João estudava. Lembrei que o pessoal na pensão do Lou havia dito ter doze cursos. Aquilo começou a ficar mais interessante.
_ Babaca, eu tenho aula. Então vamos na cantina e de lá você se vira. Tenho intervalo as nove e quarenta e depois almoço ao meio-dia. Não vou ficar te procurando. Ou você aparece na cantina nesse horário ou almoço sem você, entendeu?
_ Maravilha. – Respondi mais animado, pois pelo jeito teria muita coisa pra fazer ali, assim como, pelo que eu percebia, muitas gatas.
Depois do chamado café universitário, que consistia em café com leite e pão com manteiga, meu irmão foi para a aula. O acompanhei só para saber onde era a sala e de lá fui conhecer o campus. Era realmente enorme, de modo que não sabia por onde começar. Então comecei a seguir o fluxo de pessoas, principalmente onde havia mais mulheres. Isso me levou à biblioteca, e, ao entrar, aquilo me impressionou muito: fileiras e mais fileiras de livros, com mesas enormes espalhados por ela onde os alunos ficavam estudando. O movimento era muito grande, e as pessoas REALMENTE estudavam, concentradas.
Aquilo me espantava por dois motivos: primeiro, na minha cidade nem biblioteca tinha, então a visão de um lugar com tantos livros realmente era incrível. Segundo, sempre ouvia dizer que faculdade era só farra e tudo mais, e imaginar que todas aquelas pessoas estavam ali, longe dos seus pais, e estudando pra valer, era um tanto fora da realidade para mim. Fiquei um bom tempo andando por entre as fileiras de livros e observando o movimento até ter vontade de sair.
Depois disso caminhei por entre vários blocos de salas de aula, e via a diferença de alunos em cada parte. Alguns blocos tinham alunos bem playboyzinhos, bem vestidos e com ar de metidos. Outros já apresentavam pessoas mais simples, com rodas de baralho e muita conversa sobre diversos assuntos. Já em outros blocos um pessoal bem maluco, com roupas mais soltas, cabelos estranhos, rodas de violão e descontração. Era possível ver grupos com cigarros de maconha, e impressionava a naturalidade com que fumavam e a falta de reação dos que por ali passavam e os viam. Realmente eram mundos dentro de um mesmo mundo: a universidade.
Passei pela cantina no horário que meu irmão havia dito ser o intervalo, e estava lotada. Tempo depois o avisto, o que era mais fácil pela forma como se vestia agora. Me dirigi a ele, que estava com um grupo de amigos, e assim que me viu foi me apresentando:
_ Galera, esse é meu irmão Leo. Leo, essa é a galera.
Cumprimentei a todos mas era impossível decorar os nomes. Todos pareciam bem normais, tendo algumas garotas entre eles. Me perguntaram coisas sobre meu irmão que não pareciam se tratar da mesmo pessoa que eu conhecera a vida inteira:
_ Como é ter um irmão tão maluco assim?
_ Cara, como você aguenta o Lorde? Ele não existe!
_ O Lorde se veste assim desde pequeno?
Percebia que meu irmão me olhava com certo ar de preocupação, e, percebendo, ajudei a manter sua reputação, respondendo coisas que todos esperavam. Logo voltaram para a aula.
_ Não esquece da hora do almoço, heim? Tenho aula à tarde também, se não estiver aqui almoço sem você.
_ Pode deixar.
_ E, Leo? Valeu.
Apenas sorri e voltei a passear pelo campus enquanto fumava um cigarro. Tinha muito o que ver ainda.

Almoçar no bandejão foi bem legal e diferente, mas a tarde não foi tão legal assim, pois já não tinha tanta coisa diferente, de modo que acabei ficando na cantina boa parte do tempo até o fim da aula da tarde. Meu irmão se aproximou.
_ Vamos embora né? – Perguntei.
_ Daqui a pouco. Só vou falar com um amigo e já vamos.
O seguia por corredores e departamentos que não eram caminhos normais de alunos, e sim de funcionário e professores. Entramos numa pequena sala onde havia um senhor em frente a um computador. Achei estranho.
_ E aí Valdomiro! – Meu irmão cumprimentou.
_ Salve Lorde das Trevas!
E se cumprimentaram como bons amigos. Meu irmão nos apresentou rapidamente e começaram a conversar:
_ E o programa, tá em pé? – Perguntou meu irmão.
_ Certeza Lorde. Já separei um monte de coisas, dá uma olhada.
E começaram a olhar nomes no computador que de inicio não saquei, mas depois percebi se tratar de músicas de bandas de rock. A maioria eu não conhecia.
_ Posso levar meu irmão?
_ Sem problemas. Ele curte rock também?
Concordei com a cabeça, ainda sem entender do que se tratava.
_ Então até amanhã, na Fun House. – Disse meu irmão ao se despedir.
Esperei nos afastarmos um pouco até perguntar:
_ O que é a Fun House?
_ Você é burro mesmo, heim? Não ouviu o que conversamos?
_ Ouvi sim. Sei que falavam de bandas de rock, mas não entendi o que é isso. É alguma festa?
_ Não, burro. É um programa de rádio. O Valdomiro tem esse programa aqui na rádio universitária, e toda vez participo com ele.
_ Que massa!
_ Agora vamos pra casa que tô um caco, mas amanhã tem Fun House no fim de tarde e, depois, todos vamos para um boteco.

“Aí sim!”, pensei. Finalmente alguma diversão...

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Aos Meus Amigos - 20 (Parte II)

(Não leu desde o inicio? Então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html )


Não foi difícil voltar à turma, apesar de demorar pra me atualizar sobre tudo o que tinham feito e aprontado. Soube que o Ivan estava colando no André nos fins de semana, mas a mãe dele ainda não o deixava sair à noite. Descobri que tanto o Hugo como o Mário tinham perdido a virgindade também, coisa que não haviam me contato pela minha distância, e que tinha sido numa das noitadas com as “amigas” do André e do Jonatan. O Cleber pelo jeito nada. Me contaram que o Manezinho tinha largado da namorada, mas que estava andando com uma turma um pouco mal encarada, encontrando-o vez ou outra. O Hugo desconfiava que ele estava usando algum tipo de droga. Fiquei preocupado.
Nossas bebedeiras cada vez estavam mais sem limites. Agora, além dos fins de semana, nos encontrávamos a partir das quartas-feiras no bar do Pescocinho. Claro que isso gerava reclamações da minha mãe, mas, afinal, ela sabia que aquela era a fase de aproveitar e não me proibia de nada.
_ É, galera. Acho que tá na hora de ir. – Disse o Mário por volta das dez da noite.
_ Mas já? – Reclamou o Cleber. – Vamos mais uma partida.
_ Acho que também vou. Tô caindo de sono. – Falou o Hugo.
_ Então vamos todos. – Sugeriu o André, que tinha começado a trabalhar de estagiário num banco e estava se acostumando à correria. – Amanhã a gente joga mais.
O Jonatan também concordou, já que estava cada vez mais ajudando o pai dele no sítio. E assim nos despedimos em frente ao bar.
_ Leo! – Disse o Cleber. – Só fuma mais um cigarro comigo então.
_ Ok. – Respondi, de modo que tinha voltado a fumar depois do fim do namoro.
Fumávamos enquanto caminhávamos por uma das ruas principais, onde continham alguns bares e restaurantes mais caros para beber. Apenas conversávamos distraidamente.
_ Cleber? Leonardo? – Ouvimos.
Ao olhar, vimos que era o Beto, um rapaz mais velho da nossa sala por ter repetido dois anos.
_ Onde vão? – Perguntou ele.
_ Estamos vazando já. – Respondeu o Cleber.
_ Chega aí. Vamos tomar uma.
Não sei bem porque aceitamos, mas nos sentamos com ele e dois caras mais velhos que conhecíamos só de vista. Cerveja vai, cerveja vem. Cigarros aos montes sendo acessos. O papo cheio de besteiras, até que o Carlão, um dos caras propõe:
_ E se formos na zona?
Silêncio na mesa. Olhei para o Cleber e ele pra mim.
_ Vai ser massa! – Disse o Beto. – Que acham?
_ Nem temos carro. – Respondi.
_ Vocês vão com a gente. Estamos em dois carros. – Disse o Oswaldo, outro dos amigos do Beto.
Nos olhamos novamente e abrimos um largo sorriso. Aquilo seria massa.
_ Só vamos tomar mais algumas que lá é caro, não dá pra beber. – Disse o Beto.
E, já um tanto embriagados, ficamos mais ainda.

_ Podem subir.
Disse o Oswaldo, apontando pra carroceria de uma pick-Up. E assim fizemos. O Cleber já estava muito louco. O Beto e o Carlão foram em outra pick-Up.
_ Cara, vai ser massa! – Falava o Cleber.
Pegamos um trecho de pista para chegar ao puteiro. O vento frio nos fazia encolher.
_ Filho da puta. Podia ter deixado a gente se apertar lá dentro. – Reclamei com o Cleber, que nada disse.
Chegamos. Uma espécie de sítio com uma casa grande porem velha. Tinha uma mesa de bilhar e um aparelho de som por ficha do lado de fora, mas poucas pessoas ali. Como éramos estranhos no ninho, fomos seguindo os outros três, que se dirigiram direto para dentro. Puxei o Beto:
_ Cara! Nunca viemos aqui. O que rola?
_ Leo, a não ser que queira gastar uma grana pra comer alguém, a graça é xavecar a mulherada fingindo que vai comer alguém. Assim elas se esfregam em você e passam a mão no seu pau por cima da calça. É besta, mas é massa.
Bem, vamos tentar.
Nos espalhamos pelo estabelecimento, de modo que os vários cômodos se tornavam salas onde as mulheres flertavam com os possíveis clientes. De tempo em tempo víamos um casal se dirigindo para algum quarto depois de longas conversas sobre preço e o que estava incluído nele. Percebi que o Carlão já estava alisando uma garota e o Oswaldo aos papos com outra. O Beto e o Cleber eu não sabia onde estavam.
_ Não vai tomar nada. Gatinho? – ouvi alguém dizer.
Era uma das mulheres. Estava com uma roupa bem justa que valorizava certas curvas, mas já se percebia que a idade a abandonava rapidamente.
_ Não, valeu. – E fiquei quieto, procurando o Cleber.
_ Você é bem novinho, né? Tem dezoito já?
Aquilo me gelou, pois era proibida a entrada de menores. Fiquei com medo de ser expulso.
_ Já sim. Só vim com um amigo. Com licença. – E saí.
Me dirigi ao salão de entrada, que era o maior, e comecei a procurar o Cleber, até que o vi: encostado numa das paredes, estava aos beijos com uma mulher. Detalhe: tal mulher já era uma senhora, com a idade bem passada. Não acreditava no que via. Comecei a procurar o Beto, e o vi dando altas risadas com os amigos. Fui até eles.
_ Beto, temos que tirar ele de lá.
_ Calma Leo. Observa só. Você vai morrer de rir.
E fiquei um tempo olhando: Eles se beijavam e, de tempo em tempo, a mulher se virava para dançar, de modo que ficava de costas  para o Cleber, esfregando a bunda no pau dele. Ele ficava abraçado a ela, que era bem gorda, e subia as mãos para tentar pegar nos peitos, mas ela não deixava e traziam suas mãos de volta ao seu quadril. A cena se repetia, e dávamos muitas risadas. Ele realmente estava fora de si.
_ O Carlão falou que essa é a Neuza. – Disse o Beto. – Ela é caixa do bar, mas pelo jeito arrumou alguém pra se divertir.
_ Acho que já chega, né? – Falei. – Vou tirar ele de lá para irmos embora. Afinal, temos aula amanhã cedo.
E assim o fiz.

Acordei com uma baita ressaca. Apesar de não proibir que eu saísse de meio de semana, uma coisa que minha mãe não aceitava de forma alguma era perder aula por causa disso. Me arrumei, mal tomei café da manhã e fui para a escola de bicicleta, chegando a poucos minutos do sinal. O Cleber não estava lá, mas o Beto sim. Cheguei e o Mário e o Hugo vieram até mim:
_ É verdade a história do Beto? – Perguntou o Mário.
Concordei com a cabeça.
_ Cara, o Cleber tá fodido! Vai ser zoado a vida inteira. – Acrescentou o Hugo.
_ O Cleber acabou de guardar a bicicleta! – Avisou o Beto. – Temos que zoar...
O professor de geometria entrou logo em seguida. Contamos rapidamente a ele a história e dissemos que queríamos zoar, e ele, muito gente boa, nos ajudou.

Assim que o Cleber entrou estranhou o silencio da turma olhando para ele. Ficou sem dizer nada até que uma das meninas lhe disse:
_ Olha pra lousa, Cleber.
E ao fazê-lo, se deparou com um lindo coração geometricamente desenhado com os seguintes dizeres dentro dele: Cleber, 16 anos, e Neuza, 6?, se amam.

Foi só risada.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Aos Meus Amigos - 19 (Parte II)

(Não leu desde o inicio? Então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html )


O tempo passou. Cinco meses para ser mais exato. Nesse tempo algumas coisas aconteceram: perdi a virgindade; o vô Tonico faleceu; e me afastei dos amigos.
Perder a virgindade foi massa, mas não entrarei em detalhes. Quanto ao vô Tonico foi bem triste: choramos muito, reunimos família e amigos, mas todos sabiam que depois da morte da vó Cotinha cada vez mais ele definhava, de modo que aquilo representava um real descanso para ele. Quanto aos amigos, bem, precisava reatá-los, uma vez que meu namoro havia chagado ao fim e ter me afastado se mostrava um grande erro.
A Isabela era mesmo legal, mas aquela ideia de gostar dos meus amigos, bem, não era isso exatamente.
_ O pessoal vai ao bar do Pescocinho. Que acha de uma partida de bilhar ou fliperama?
_ Pode ser Leo, mas eu estava pensando de você passar aqui em casa, a gente assiste um filme juntinhos e tudo mais. Que acha? Meus pais nem estarão aqui.
_ Hummm! Pode ser. Vou ligar pro pessoal desmarcando.
Ou:
_ Vamos pra boate?
_ Vamos. Mas você vai ficar só comigo, né?
_ Claro amor.
E assim seguia:
_ Vamos beber, Leo?
_ Não bebe não, Amor...
_ Valeu galera. Tô de boa hoje.
E o pessoal parou de me ligar e eu de ligar para eles. Encontrava o Mário, o Cleber e o Hugo na escola e lá ficava sabendo das novidades e farras deles, mas o André e o Jonatan eu mal os via.
_ Se der vou com vocês na cachoeira fim de semana.
_ Vamos fingir que acreditamos Leo. Você vai é ficar com a sua namorada.
_ Não é bem assim!
_ Que nada. Falou tanto do Manezinho e tá fazendo igualzinho.
E ouvir isso só ia me afastando mais deles.
Todos os dias eu ia à casa da Isabela, e lá ficávamos até por volta das dez, quando tinha que voltar pra casa e evitar broncas da minha mãe. Fins de semana era ela que ficava em casa, onde costumávamos sair com meus pais para almoçar no clube ou em algum restaurante sábado à noite. Do mais, filmes e TV. Sempre juntos. E isso foi cansando...
_ Leo, minha irmã vai fazer quinze anos e vai ter uma puta festa. – Disse o Mário. – Meus pais deixaram eu chamar os amigos. Você vai, né?
_ Vou falar com a Bela, Mário.
_ Cara, pode levar ela, mas se você não for não fala mais comigo. E vai ter uísque à vontade. Os moleques estão todos malucos com isso.
_ Tá. Pode deixar que eu vou.
A Isabela não gostou muito da ideia. A irmã do Mário estava uma gata e ela morria de ciúmes dela, mas insisti muito para irmos.
_ Ok, eu vou. Mas se você beber na festa eu vou embora e te largo lá.
Apenas concordei, só pensando no uísque à vontade.
O dia da festa chegou. Ao entrar no salão do clube alugado para a festa logo vi a turma toda numa grande mesa.
_ Leo? Aqui ó! Tem um lugar aqui pra vocês. – Gritava o Hugo.
Nos dirigimos pra lá. A Isabela com cara de poucos amigos. Cumprimentamos todos e nos sentamos.
_ Tó, Leo. Uísque na faixa. Já enchi seu copo. – Me empurrou o copo o Cleber.
A Isabela me beliscou.
_ Valeu Cleber. Vou ficar no refrigerante mesmo.
Todos olharam sem acreditar, mas nada disseram.
Conversavam entre eles, e, muito às vezes, puxavam algum assunto me envolvendo, no qual eu ou dava pequenas e sem grassas risadas ou apenas fazia pequenos comentários. De resto, ficava grudado à Isabela, que parecia ter prazer em me vez daquele jeito.
_ Vou ao banheiro. – Disse a Isabela. – Me espera na porta?
_ Claro.
E nos levantamos, dizendo a todos que voltaríamos logo. Já alegres com as várias doses de uísque, nem deram muita bola.
_ Me espera aqui. – Disse a Isabela, me dando um beijo e entrando no banheiro.
Logo em seguida, senti me tocarem o ombro.
_ Pelo jeito não dá pra falar só com você a não ser assim, heim? – Disse o Jonatan, e a turma toda estava junto.
_ Leo, você tá muito bundão. – Falo o André.
Ameacei responder quando fui interrompido pelo Cleber:
_ Cara, você vai só ouvir. Daqui a pouco sua namorada sai dali e você vai voltar a ser um cachorrinho. Então só escuta.
_ É cara. – Disse o Mário. – Você mudou totalmente. Que aconteceu com o Leo de sempre? Essa menina te transformou.
_ Não tem nada a ver... – Arrisquei falar algo, mas não foi suficiente.
_ Nada ver? – Agora era o Hugo. – Leo, legal você parar de fumar, mas não beber nem uma dose de uísque? Aí já é demais! Certeza que você tá louco pra beber, e é ela que não tá deixando.
Fiquei em silêncio.
_ Vamos voltar, moçada. Logo a namoradinha dele sai do banheiro.
E depois dessa fala do André, todos se afastaram. Fiquei ali, arrasado. A Isabela saiu do banheiro.
_ Que foi?
_ Nada. Vamos voltar pra mesa?
_ Vamos. Mas não vamos demorar muito né?
_ Não. Pode ter certeza...
E voltamos à mesa, sabendo exatamente o que deveria fazer: nos sentamos, peguei um copo e pedi para colocarem uísque. A Isabela me puxava o braço:
_ O que você pensa que tá fazendo?
Percebia os moleques dando pequenas risadas. Brindei com eles e dei um longo e delicioso gole, de modo que ela me puxou mais forte:
_ Eu quero ir embora. Agora!
_ Tá bom. Só vou tomar mais uma dose.
E enchi novamente o copo. Ela se levantou na hora e foi saindo. Me levantei, virei meu copo, e me dirigi aos meus amigos:
_ Daqui no máximo uma hora eu volto.
Abriram um largo sorriso e brindaram entre eles.
Alcancei a Isabela na calçada, furiosa. A bebida realmente subiu, ainda mais que fazia tempo que eu não bebia.
Ela gritava e agitava os braços, nervosa. Eu procurava me manter calmo. Quando ela se cansou de gritar e exigiu uma resposta, lhe dei a resposta:
_ Eu quero terminar.

E assim iniciou uma longa conversa por altas horas da noite. Ao final, estava solteiro novamente, mas já sem pique de voltar para a festa. No dia seguinte começaria minha nova missão: Reatar a amizade com a turma. Pra valer.