terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Aos Meus Amigos - 2 (Parte II)

(Não leu desde o inicio? Então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html )

Depois da primeira bebedeira minha mãe adotou a prática de ter que chama-la para abrir a porta depois que chegávamos de uma balada, cheirando nossa boca para saber se havíamos bebido, o que conseguia driblar facilmente com a técnica ensinada pelo André de abrir a boca mas soltar o ar pelas narinas, além, é claro, de uma boa e forte bala na boca. Dificilmente meu irmão e eu chegávamos juntos, mas ainda assim tínhamos que chama-la. Minha irmã estava com o casamento marcado e, por isso, ganhara o direito de dormir na casa do agora noivo, já não sendo mais um problema para meus pais.
Como meu irmão era mais velho podia chegar um pouco mais tarde do que eu, mas isso quase nunca acontecia. Meu horário limite era duas da manhã, e o dele as três. Por se tratar de uma cidade pequena íamos a pé para todos os lugares de forma que tínhamos bastante liberdade.
_ Tchau mãe. Estamos saindo. – Anunciei.
_ juízo heim! Não esquece de me chamar quando chegarem. Lou cuida do seu irmão.
_ Tá.
Naquela noite iriamos para a boate. Era a única da cidade e onde todos se encontravam. O roteiro era basicamente o mesmo: lanche com os amigos, volta no centro até por volta da meia noite e boate. Meu irmão e eu seguíamos juntos até encontrarmos nossas turmas, e então, adeus.
_ E aí moçada? – Cumprimentei ao encontrar o André, o Jonatan e o Manezinho no lanche. – O Vini não apareceu ainda?
_ Deve tá pra chegar. E aí, comprou o cigarro? – Perguntou o André.
_ Ainda não. Se te der o dinheiro você compra?
_ De novo essa história Leo? Você tem que criar coragem e comprar. Ninguém liga pra idade, só querem vender. – Disse o Jonatan, irritado.
Fiquei quieto, com a cabeça baixa, até que o Manezinho se pronunciou.
_ Daqui Leo. Eu vou.
_ Mas Manezinho, você nem fuma! – Disse, espantado.
_ Não fumo, mas posso comprar. Me dá o dinheiro.
Fiquei um pouco sem graça, mas o fiz, e tempo depois ele volta com o cigarro. Fiquei me sentindo um bosta.
_ Como foi? – Perguntei.
_ Fácil.
E me senti mais bosta ainda.
O Vini chegou e fomos comer lanche, mas o Vini não comia nunca, só nos acompanhava, sempre dizendo que já tinha jantado. Demos um rolê no centro até chegar a hora de ir pra boate. Percebi que o Vini combinava alguma coisa com o André e o Jonatan.
_ Que tá pegando? – Quis saber.
_ O Vini tá sem grana para a boate, e estamos armando um esquema. – Respondeu o André.
_ É. – Disse o Jonatan. – Parece que se você colocar um pouco de álcool nas costas da mão e alguém que já tem o carimbo de entrada colar a mão por cima consegue passar o carimbo.
_ Verdade! Vamos tentar.
O Vini já tinha saído com um pouco de álcool num potinho, então o Manezinho, o André e eu entramos, tendo as mãos carimbadas. Pouco depois o André e o Manezinho saíram com o objetivo de passar o carimbo, e eu fiquei aguardando. Pouco mais de dez minutos depois estavam todos lá, de modo que o Jonatan aproveitou para entrar de graça também, com a promessa de usar o dinheiro da entrada para comprar bebidas para todos nós, e assim descobrimos um jeito de economizar a entrada para beber mais. Só fiquei incomodado por terem chamado o Manezinho para fazer o esquema e não eu...
A boate estava lotada, mal dando para andar. Aos poucos íamos encontrando conhecidos, conversando um pouco e voltando a tentar andar, sempre trombando em outros conhecidos ou paqueras.
_ A Jéssica tá gostosa pra caramba hoje. – Comentei.
_ E se tá! Será que tenho chance? – Quis saber o Jonatan.
_ Desencana. Nenhum de nós tem. Ela só sai com cara mais velho. – Já desanimou o André. E continuamos a andar.
_ Quem pega a próxima rodada? – Perguntou o Vini.
_ Vai você Leo. – Sugeriu o Jonatan.
_ Ok. – Respondi.
Peguei o dinheiro e me dirigi ao bar com o objetivo de comprar três martinis, que dividiríamos. Me coloquei na fila e pouco depois senti me cutucarem o ombro. Olhei.
_ Que você vai comprar?
Era meu irmão e, apesar de saber que eu bebia, era louco pra me pegar no flagra pra poder tirar proveito depois.
_ Um refri. – Disfarcei.
_ Então vou ficar aqui com você. Vou comprar um pra mim também.
“Babaca”, pensei, pois sabia das suas reais intenções. Chegou minha vez na fila e pedi um refrigerante. Dei um sorriso amarelo para ele e sai. Mal dei dois passos para me afastar e dei de cara com o Vini.
_ Pegou as fichas? Vamos pro bar que a galera tá sedenta.
Fiquei sem reação e, ao perceber minha cara, pegou a ficha da minha mão.
_ Porra Leo! Que merda é essa?
_ O babaca do meu irmão colou em mim e ai... – Nem terminei de falar quando o Vini desabafou.
_ Você é muito medroso Leo. Garanto que se pedisse pra você fazer o lance do carimbo você não toparia por medo.
Aquilo bateu forte em mim e, embora tenha pensado em responder, não saia nada da minha boca.
_ Da aqui que eu compro. – Disse o Vini já tirando o dinheiro de mim.

A noite foi passando com todo mundo se divertindo menos eu, que estava quieto e pensativo. Quando o relógio marcou uma e quarenta o Manezinho anunciou:
_ Tô indo galera. Deu meu horário. Vamos Leo?
_ Vou ficar até mais tarde hoje. – Disse quase sem soltar as palavras. Todos olharam para mim.
_ Mas você não tem que chegar às duas horas também? – insistiu o Manezinho.
_ Tenho, mas não vou. Minha mãe não vai nem perceber.
_ Leo, sua mãe sempre acorda, você sabe disso. É melhor você ir. – Disse o André, que não tinha hora para ir embora.
_ Não tenho medo da minha mãe. Não sou medroso. – Disse, fingindo convicção. Todos se espantaram, mas não falaram nada.
O Manezinho foi embora e restaram o André, o Jonatan, o Vini e eu. Meu irmão já não estava mais por lá havia um tempo, e fiquei até acabar a boate por volta das três e meia. Saímos de lá e fomos para frente da igreja comer cachorro-quente. Por volta das quatro e dez o André se despediu.
_ Tô indo nessa pessoal. Tô caindo de sono. Você vai ficar ainda Leo?
Olhei para o Vini, que deu um leve sorriso.
_ Vou sim. Mais um pouco.
_ Bem. Se sua mãe te matar me tira dessa, heim?
_ Já disse que não tenho medo...
Fumamos uns cigarros e pouco depois o Jonatan também foi embora, mas esperei até que o Vini também quisesse ir, já por volta das cinco da manhã.
_ A gente se fala mais tarde.
_ Beleza.
Chegando em casa vejo a luz da sala acesa, e aquilo me apavora. Mal abro o portão e minha mãe já destranca a porta, saindo e me encarando.
_ Onde você estava até uma hora dessas?
_ Ah Mãe! Não enche!
_ O que você disse? Repete se tiver coragem!
Aquela palavra outra vez, coragem. Mas dessa vez o medo foi bem maior e me calei.
_ Quero saber com quem você estava.
_ Com o Vini.
_ É aquele moleque que eu não gosto que mora perto da casa da vó, não é?
_ É, mas...
_ Nada de mas. Nunca fui com a cara dele e não quero você andando mais com ele, entendeu bem?
_ Mas mãe...
_ Já disse e pronto. E você está de castigo. Duas semanas sem sair.
_ Você fala isso dele só porquê ele é podre.
_ Eu sou sua mãe e sei o que é melhor pra você. Aquele menino não presta. Não quero mais você com ele. Agora vai para a cama que amanhã seu pai e eu vamos ter uma conversa séria com você.

Dessa vez obedeci, com os olhos cheios de lágrimas e muito nervoso. O Vini não tinha nada a ver com aquilo. Não era justo ela me proibir de andar com ele. Mas, para minha sorte, aquela noite ela não tinha cheirado minha boca. Do contrário certamente sentiria o cheiro de cigarro.

(Continue a ler em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2014/01/aos-meus-amigos-3-parte-ii.html )

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Aos Meus Amigos - 1 (Parte II)

(Não leu desde o inicio? Então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html )

_ Que tá fazendo, Leo? – Perguntava o André pelo telefone.
_ Tô de boa em casa, assistindo televisão.
_ Dá um pulo aqui em casa. O Jonatan e eu compramos uma garrafa de Uísque.
E foi assim que deu inicio a noite do meu verdadeiro primeiro porre. Minha mãe havia ido jogar baralho na casa de uma amiga. Meu pai estava num churrasco com a turma do futebol e meu irmão tinha saído com seu amigo, o Borges. Minha irmã, pra variar, estava com o namorado. Era um sábado à noite, véspera de eleições municipais. Eu tinha dito aos meus pais que estava cansado e que não iria fazer nada, e a intenção realmente era essa, até ouvir o convite do André.
_ Opa! Já tô descendo.
Troquei de roupa, peguei a bicicleta e fui pra lá rapidinho. Coloquei calça e camiseta novas, pois, conhecendo os dois, certamente daríamos uma volta no centro depois, já que era sábado à noite.
Chegando lá o André e o Jonatan estavam sentados na área, tomando o uísque e jogando baralho. A tia Josefa não dava muita bola por bebermos, e geralmente ficava no seu quarto quando o tio Ernesto estava viajando a trabalho, mal saindo de lá.
_ Pega um copo na cozinha e trás mais gelo para nós. – Disse o André, e assim o fiz.
Enchemos os copos e acendemos cigarros, dando inicio a um jogo de caxeta.
_ Sua mãe não vai sair do quarto mesmo? – Quis ter certeza antes de pegar o cigarro para dar uma tragada.
_ Relaxa Leo. Há essa hora ela já está no décimo sono.
Pouco depois outra enchida de copos.
_ Será que a praça vai tá cheia hoje?
_ Sei lá. Depois da meia noite é lei seca, então acho que vai acabar cedo.
_ Opa! Bati seus imbecis.
E mais uma enchida e cigarros.
_ Vai lá pegar mais gelo, Jonatan.
_ Ok. Vou aproveitar e dar uma mijada. Caraio...!
_ Que foi?
_ Levantei e rodou tudo, hahahaha. Que massa.
E outra rodada...
_ Por que o Vini não veio?
_ Passei na casa dele e não tinha ninguém.
_ Porra! O gelo acabou de novo...
Tempo depois tínhamos matado a garrafa toda.
_ Vamos dar um pulo no centro?
_ Opa! Vamos ver umas gatinhas.
_ Caramba Jonatan! Tinha razão, foi só levantar que deu tontura.
_ A gente tava bebendo sentado. Aí nem percebe que tá ficando bêbado. Da hora, hahahaha.
E saímos os três, trançando as pernas, em direção ao centro onde estava o movimento.
Tudo parecia irreal: as pessoas davam a impressão de estarem mais alegres; as luzes deixavam rastros; os sons estavam mais lentos... não conseguíamos manter a atenção ou terminar um diálogo. Até que encontramos o Vini junto com o Silvinho.
_ E aí moçada. Parece que vocês já estão bem, hahahahaha. Que acha Silvinho?
_ Acho que já passaram do chamado “bem”. Que tá sentindo, André?
Quando o Jonatan e eu olhamos, o André estava pálido, com a cabeça baixa e mais molenga que o normal da bebedeira.
_ Tô passando mal. Acho que vou vomitar...
_ Caramba! Pra levar ele pra casa tá meio longe agora. – Disse o Vini. Então sugeri:
_ Vamos levar ele na minha casa. É aqui pertinho.
_ Mas sua mãe não vai ficar brava?
_ Não tem ninguém em casa a essa hora. E se o André dormir lá não tem problema.
E seguimos em direção à minha casa, de modo que o Jonatan e eu nos apoiávamos um no outro, enquanto o Vini e o Silvinho praticamente carregavam o André.
_ Chegamos. Esperem aí que eu vou pegar a chave. – Disse.
_ Pegar a chave? – Se espantou o Vini. – Mas você não disse que não tinha ninguém?
_ A gente deixa uma chave no armarinho aqui no fundo. Pera aí.
Entrei pelo portãozinho lateral, que ficava sempre aberto, me dirigi ao banheiro do fundo e peguei a chave no armarinho, voltando para frente e abrindo a porta.
_ Vamos levar ele no banheiro. Uma ducha gelada sempre ajuda. – Disse o Silvinho.
Tiramos as roupas do André, que já estava praticamente desmaiado, e o colocamos debaixo do chuveiro, deixando-o lá.
_ Acho que vou para a casa, Leo. – Disse o Jonatan, com ar de muito bêbado.
_ Você tá bem para isso?
_ Devo tá. Amanhã a gente se fala... – E saiu
_ Você tem café aí? – Quis saber o Vini. – Vou preparar um pouco pro André.
Mostrei onde tinha e ele começou a fazer, deixando uma bagunça na cozinha.
Tempo depois tiramos o André do chuveiro, demos café para ele e o colocamos para dormir num colchão na sala do fundo, onde eu costumava dormir aos fins de semana por ter televisão e ficar mais afastado dos outros quartos. Me despedi do Silvinho e do Vini, agradecendo, e resolvi dormir também, colocando outro colchão ao lado do que o André estava. Quando entro na sala ele estava vomitando um monte ao lado do colchão, sujando tudo, e quando acabou voltou a capotar de sono ou bebedeira.
_ André! André! Acorda pra limpar essa merda, porra! – Mas nada dele sequer abrir os olhos.
Chapado, peguei uma toalha de rosto e comecei a empurrar o vômito para baixo do sofá, me livrando momentaneamente daquele nojo. Feito isso decidi, enfim, deitar para dormir. Arrumei o colchão e o lençol e me deitei, mas tudo começou a rodar.
_ Que merda! – Pensei, e levantei para ir ao banheiro, com a ideia de forçar o vômito para ver se melhorava...

_ Leo! Leo! O que você bebeu? Responde moleque... – Perguntava meu pai enquanto me segurava debaixo do chuveiro gelado.
Meu pai e meu irmão chegaram praticamente juntos, e foram para o fundo ver como eu estava, já que havia dito que não iria sair. Com as luzes todas apagadas, meu pai tropeçou em algo macio e começou a dizer:
_ Sai Tobi! Sai! – Referindo-se ao cachorro que pensava estar no meio do caminho, mas o Tobi não saia, e então decidiu acender as luzes, me encontrando lá, caído de bêbado no meio do corredor.
_ Uísque... – Respondia debaixo do chuveiro, mal conseguindo falar.

Acordei pelado na cama, demorando para entender o que havia acontecido. Me troquei, acordei o André e descemos voando para o almoço na casa da vó Cotinha, onde fomos a sensação, tanto na bronca como na gozação:
_ Se aprontar outra dessa nunca mais sai de casa. – Falava minha mãe.
_ Todo mundo tem o primeiro porre, filha. – Defendia o vô Tonico.
_ Não criei meu filho pra isso. – Dizia o tio Ernesto, que havia chegado de viagem cedinho para votar.
_ Querem um golinho de caipirinha? – Oferecia o tio Mané, rindo ao ver nossa cara de nojo só de pensar em algo alcoólico.
E assim foi nosso domingo, sem poder sair da casa da vó Cotinha para nada, nos divertindo apenas enquanto contávamos para o Manezinho e o João da cagada que havíamos aprontado até a parte que nos lembrávamos. Mas risada mesmo demos quando encontramos o Jonatan, com o braço esquerdo todo ralado.
_ Eu só conseguia ficar em pé escorado no muro, mas devido à bebedeira eu ficava dando voltas no quarteirão. Ó o resultado, ó! Ralei todo o braço e nem senti na hora...

E foi só risada depois que tudo passou.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Aos Meus Amigos - 16

(Não tem acompanhado do início? Então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html )


_ No começo é ruim, mas depois fica da hora, Leo. Tenta de novo. – Foi o que me disse o Vini, oferecendo um cigarro.
Descobri que o Vini morava perto da casa do vô Tonico, então como almoçávamos lá todo domingo, o André e eu sempre íamos a casa dele, o que nos aproximou bastante. Em relação à turma da escola, depois do baile do Havaí prometi que não beberia mais, mas era só me encontrar com o André e companhia que acabava bebendo algo, o que foi ficando cada vez mais frequente. O cigarro que havia prometido para mim mesmo não fumar mais, pois foi ele que me fez passar mal naquele dia, mas a cada encontro com a turma mais pensava em quebrar tal promessa, vendo o prazer que sentiam a cada tragada.
_ Mas e se eu passar mal de novo Vini?
_ Puxa só um pouquinho. Acho que aquele dia você tragou muita fumaça. – E me entregou o cigarro.
_ Que acha André? – Perguntei, olhando para ele enquanto fumava um cigarro.
_ Você é quem sabe. Eu gosto.
Levei o cigarro à boca e dei uma leve tragada. A fumaça ardeu um pouco a garganta, mas não cheguei a tossir. Senti uma leve tontura, relaxando o corpo. Achei gostoso, apesar do gosto ruim na boca.
_ É! Acho que estou pegando o jeito...

Naquela tarde havíamos combinado de andar de bicicleta. Como tinha chovido decidimos ir ao pasto atrás do estádio, pois a graça era seguirmos pelos trilhos deixados pelo gado e passarmos com tudo dentro das poças d’água, nos molhando todo. Além do André, do Vini e de mim, estavam também o Manezinho, o Silvinho e o Jonatan. Na minha bicicleta havia uma pequena bolsa presa ao quadro, então pegamos o maço de cigarro que havíamos comprado, enrolado num saquinho plástico e colocado dentro para não molhar.
_ Eu vou na frente. Me segue moçada! – Disse o André, que continuava com o costume de liderar as bagunças.
Pegamos uma trilha e a seguimos. O pneu de trás jogava barro tanto nas nossas costas como na cara do que estava atrás, então a sujeira era geral.
_ Tem uma poça ali. Acelera todo mundo!
E passávamos com tudo por dentro dela, voando água pra todo lado.
_ Hahahahaha! Essa foi boa. Não parem não!
Na próxima poça o André passou com tudo, mas o Jonatan, que estava atrás, acabou batendo o pneu da frente num buraco encoberto pela água e foi pro chão. Como estávamos bem próximos não deu outra: o Vini já bateu nele e caiu; eu, que estava atrás do Vini, tentei desviar, mas derrapou o pneu e também fui ao chão; o Manezinho brecou a tempo, mas o Silvinho o acertou por trás derrubando os dois. Enquanto nos levantávamos, rindo, o André tirava o maior sarro.
_ Acho que seguindo por essa direção tem um riozinho. – Disse o Silvinho, apontando com o dedo.
_ Então vamos lá! – Todos concordaram.
Avistamos o riozinho no final de uma descida, e o Manezinho já foi gritando:
_ O último que chegar é bicha!
E todo mundo foi pedalando o máximo que conseguia, entrando direto na água com bicicleta e tudo.
_ Pensa rápido! – Gritei jogando uma bola de lama nas costas do Jonatan, e a guerra começou, um jogando barro no outro ou pulando encima para afundar na água.
_ O bom que assim lava as bicicletas também. – Falei.
Nisso todo mundo parou e me olhou.
_ Que foi povo?
_ Sua bicicleta! Ergue sua bicicleta! – Gritava o Silvinho.
_ Por quê? O que aconteceu?
_ O cigarro Leo! O cigarro... – Disse desanimado o André.
Como poderíamos ter esquecido? Levantei rapidamente a bicicleta e abri a bolsa do quadro. O maço estava totalmente encharcado.
_ Que bosta! E agora? – Falou o Jonatan.
_ Me dá isso aqui. – Pediu o Vini, pegando o maço. – Manezinho, essa sua camiseta parece velha, né?
_ É sim, Vini. Como sabia que ia sujar peguei uma bem velha.
_ Tudo bem se ela estragar?
_ Acho que sim. Por quê?
_ Você vai ver. Me dá ela aqui.
O Vini pegou a camiseta e a estendeu na grama. Pegou os cigarros do maço, todos molhados, e começou a desmanchá-los, jogando o tabaco sobre a camiseta. Quando todos os cigarros já estavam desmanchados começou a enrolar a camiseta, torcendo o local do tabaco, escorrendo um caldo preto conforme torcia.
_ Assim a gente tira o excesso de água e deixa o fumo secar no sol. Leo, Jonatan, vão procurar algum jornal ou papel seco. Perto do estádio deve ter.
E assim o fizemos, obedecendo de imediato à ordem, loucos para ver se daria certo a experiência e fumarmos.
_ Essa mancha na minha camiseta não vai sair né Vini? – Perguntou o Manezinho.
_ Não. Por isso perguntei se podia estragar. – E colocou o fumo para secar depois de torcer bastante e tirar muita água.
Tempo depois o Jonatan e eu voltamos com umas folhas de jornal que encontramos numa caçamba de lixo. O Vini e o Silvinho começaram a separar o fumo e enrolar nas folhas, fazendo cigarros improvisados.
_ Ok. Mas e para acendermos? – Observou o André.
Mais uma vez travamos, sem saber o que fazer.
_ Acho que sei. Tem um amigo meu que mora aqui perto. Posso ir lá e pedir um fósforo.
_ Que amigo Leo? – Perguntou o André.
_ O Tomás.
_ E o que você vai falar pra ele? – Quis saber o Manezinho.
_ Posso falar que é pra soltar bomba, sei lá.
_ Então vai Leo. A gente te espera atrás do estádio.
E fui em direção à casa do Tomás, imaginando o que falar, pois ele sabia que a turma do André fumava e poderia desconfiar. Chegando lá comecei a chama-lo.
_ Tomás! Tomás!
A vó dele sai.
_ Oi Leo. O Tomás tá no quarto dele. Entra.
_ Não. Obrigado vó. Só quero falar com ele rapidinho. Pode chama-lo?
Pouco depois vem o Tomás.
_ Ô Leo. Entra um pouco.
_ Não Tomás, é rapidinho. Estamos soltando umas bombas e queria saber se pode me emprestar uma caixa de fósforo. O nosso molhou.
_ Com quem você tá soltando bomba?
_ Com meus primos.
_ Posso ir com você?
_ Bem... – Fiquei procurando uma desculpa. - ...pode, mas o Vitor tá lá também, e sei que vocês não se dão bem. – Menti, referindo-me a um menino que morava perto da casa dele e que viviam brigando.
_ O Vitor? Mas o que ele faz lá?
_ Ele nos viu soltando bomba e parou por lá.
_ Tá. Espera aí que vou pegar o fósforo.
Peguei o fósforo e mal me despedi do Tomás, voltando rapidinho com a turma, que esperavam ansiosos atrás do estádio, que não era longe. Acendemos um dos cigarros improvisados e fomos passando um para o outro. Só o Manezinho não fumava, mas aceitava de boa. Às vezes eu dava uma ou outra tossida, mas estava gostando.
_ Vem vindo alguém de bike. – Disse o Manezinho. – Acho que é seu amigo, Leo.
Quando olhei vi que era o Tomás, e ele estava junto com o Sidnei.
_ Caralho! – Reclamei. – Qualquer coisa eu não estava fumando, heim!
Eles se aproximaram um pouco ressabiados.
_ Ué! Cadê as bombas, Leo? – Perguntou o Tomás.
_ Não acenderam e jogamos fora. Estavam molhadas. – Respondi. Os outros só olhavam.
_ Aí vocês decidiram fumar? – Disse o Sidnei. – Você tá se perdendo, Leo. Não é mais o mesmo.
Baixei a cabeça, quieto, mas o Silvinho tomou as dores.
_ Vão se foder, seus playboyzinhos. Ele faz o que quiser. Mas se quiserem encher o saco é só falar... – E foi indo na direção deles, mas eu o segurei pelo braço.
_ Deixa Silvinho. Deixa quieto...
_ Bem, Leo, você vai ter que fazer uma escolha. – Falou o Tomás. – Se quiser continuar nosso amigo para com essas coisas de cigarro e bebida. Você sabe que isso é errado.
Mais uma vez baixei a cabeça e fiquei quieto.
_ Vamos embora Tomás. Acho que a escolha foi feita... – E saíram os dois.
_ Babacas! – Gritou o Jonatan.
Passei o resto do domingo quieto, mal sorrindo e totalmente desatento. No dia seguinte, na escola, nem o Tomás e nem o Sidnei falaram comigo. O Cleber e o Hugo já estavam sabendo, mas não se afastaram totalmente. Depois daquilo, percebi que havia acabado de perder dois bons amigos. Era uma nova fase que se iniciava, e nela estariam presentes bebidas e cigarro...

(Fim da Parte I)

(Primeiro capítulo da Parte II em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2014/01/aos-meus-amigos-1-parte-ii.html )

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Aos Meus Amigos - 15

(Não tem acompanhado desde o início? Então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html )


O assunto do momento na cidade era o Baile do Havaí do clube local. Claro que era um baile que tinha todo ano, mas aquele seria o primeiro que nossos pais nos deixariam ir sozinhos, pois já estávamos com a idade mínima para isso.
_ Será que a gente descola umas gatinhas? – Era a empolgação do Sidnei.
_ Eu vou pra curtir, se rolar alguma coisa, rolou. – Disse eu.
_ Você fala isso porque já andou dando uns beijos, né Leo? Já a gente... – Choramingou o Cleber.
Era verdade. Da turma eu era o único que já havia dado uns beijos, graças, mais uma vez, às saídas que dava com a turma do André.
Eu estava um pouco dividido, pois além de combinar com o pessoal da escola, o André e o Manezinho também tinham me chamado para irmos juntos ao baile. Nessa época já não íamos mais brincar tanto na casa dos nossos avós, pois já estávamos interessados em outras coisas. O João, como era mais velho, tinha optado por continuar os estudos numa escola agrícola em outra cidade, e o Manezinho vez ou outra se juntava à turma do André nos finais de semana. Mas aquele baile prometia, e eu sem saber o que fazer quanto às turmas.
_ Você vai ter que se decidir Leo. – Falou o Hugo, um pouco enciumado. – Você vai ficar com a gente ou com seus primos?
_ Relaxa Hugo. Vou ficar com vocês.

O dia do baile chegou, e meus pais levariam meu irmão e eu até a frente do clube para nos buscar de volta as duas da manhã. Minha irmã iria com o namorado, mas ficaria na parte de mesas reservadas, o que era bom, pois evitaria que ficasse no nosso pé. Já o meu irmão não queria ir, alegando não estar bem, mas meus pais insistiram para que ele fosse, estranhando sua vontade, uma vez que todos os seus colegas de sala estariam lá. Eu sabia o real motivo para ele não querer ir.
_ Deixa eu dormir na casa do André, mãe? – Pedi pela milésima vez.
_ Nada disso. O André não tem muitas regras na casa dele e não sei que horas ele vai embora, então nada feito. E é bom estarem aqui na frente pontualmente às duas horas, heim? Se não será sua primeira e última vez, Leo, já que o Lourenço nunca desobedeceu horários.
_ Pai?! – Tentei
_ Sua mãe já falou, então não insista.
Descemos do carro, meu irmão e eu, e já nos dirigimos ao portão de encontro combinado com a turma. Meu irmão ficou sozinho, encostado num muro.
_ Tava achando que ia furar Leo, e que viria com seus primos. – Cutucou o Tomás.
_ Nada disso moçada. Combinado é combinado. – E entramos.
O Clube era bem grande, dando a volta pelas piscinas onde ficavam as mesas reservadas e todo decorado com frutas e flores. Estava lotado. Conforme andávamos tínhamos que parar a todo instante por encontrar algum conhecido da escola. Estávamos todos eufóricos pelo nosso primeiro baile.
_ Vocês viram que aquela gostosa da Isabela tá aqui? – Comentava um.
_ A banda tá muito legal. Vamos lá na frente. – Falava outro.
_ Daquele lado tá meio barra pesada, não vão pra lá não. – Avisava outro.
E assim foi, andando pelo clube, papeando, paquerando e tudo mais. Vez ou outra passávamos pela banda, outras vezes íamos para perto do bar, depois entrávamos no salão onde tocava um DJ. Eu não tinha visto meus primos ainda, mas o tempo todo via meu irmão, não mais sozinho e sim com o Borges, seu amigo fora da escola.
_ Vamos comprar um refrigerante? – Sugeriu o Cleber, e assim fomos.
Enquanto o Cleber comprava ficha para o refrigerante avistei o André com um amigo que eu não conhecia.
_ Pera aí, só vou dar um oi para o meu primo. – E saí.
_ Ô Leo! Por onde andou? – Perguntou o André.
_ Estava por aí, dando umas voltas. E vocês?
_ Estamos perto do parquinho. O Manezinho tá lá. Que tal dar um oi para ele?
Olhei para os moleques e fiz um sinal com a mão para me esperarem. Percebi na hora que desaprovavam minha ação. O lado do parquinho era justamente o lado em que haviam nos dito para evitar por estar meio barra pesada. Chegando lá, estavam o Manezinho, o Sabugo, o Jonatan, o Otávio e o Silvinho. O amigo que eu não conhecia se chamava Vini, e fomos apresentados ali mesmo.
_ Que estão fazendo aqui ao invés de andarem por aí? – Perguntei.
_ Bebendo um pouco. – Falou o Sabugo.
_ Bebendo o que?
_ Experimenta Leo. – Ofereceu o Silvinho, estendendo o braço com um copo.
Peguei o copo e dei um gole. Era forte de álcool e doce ao mesmo tempo. Muito gostoso.
_ Que delícia! Que é isso?
_ É Martini. – Disse o Manezinho. – Gostoso né?
_ Caramba! Bom demais. Como conseguiram?
_ O Jonatan tem um primo que tá trabalhando no bar. Aí a gente dá o dinheiro pra ele e ele pega pra gente. – Disse o André.
_ Então pega um pra mim também Jonatan. – E lhe dei o dinheiro.
Fiquei ali, bebendo, e nem me lembrava que tinha pedido para a outra turma me esperar. Como não estava acostumado, rapidamente comecei a me sentir tonto, mas era uma tontura gostosa. O Manezinho também estava assim, mas o André não, então percebemos que ele já estava mais acostumado.
Vez ou outra alguém da turma do André acendia um cigarro, e o André sempre dava umas tragadas.
_ Quer um trago Leo? – Perguntou.
Olhei para ele e para os outros e, fora o Manezinho, todos pareciam esperar que eu aceitasse. Peguei o cigarro e dei uma puxada. Aquilo ardeu muito a garganta e imediatamente comecei a tossir. Todos caíram na risada e eu quase vomitei, ficando com os olhos cheios de lágrimas.
_ Que bosta! Vou no banheiro lavar o rosto. – E sai.
Entrei no banheiro e comecei a lavar o rosto. Nisso ouso a voz do meu irmão:
_ Que aconteceu Leo?
_ Nada. Só engasguei.
_ Você tá fedendo cigarro. Andou fumando?
_ Eu não! Tá louco?
_ Deixa eu cheirar sua boca.
_ Sai fora! – E fui me esquivando, saindo do banheiro.
Comecei a procurar o Hugo e companhia, encontrando-os perto da banda pouco depois.
_ Onde você tava Leo? – Perguntou o Tomás.
_ Eu não encontrava mais vocês. – respondi.
_ Mentira! Você tava com seus primos. Eu vi. – Retrucou o Hugo.
_ Fiquei só um pouco lá, aí voltei pro bar e não achei mais vocês.
Eles estavam meio que bravos comigo, mas fiquei por ali mesmo, um pouco mal por causa da bebida e do cigarro, e a coisa foi piorando.
_ Que você tem Leo? – Percebeu o Cleber.
_ Nada. Eu... – E virei a cabeça em direção ao canteiro e comecei a vomitar.
Eles ficaram preocupados. Esperaram eu parar de vomitar e trouxeram água. Bebi e comecei a me recompor.
_ Não sei o que me deu...
_ Leo. Você Bebeu? – Perguntou sério o Sidnei. Fiquei quieto, mas ele insistiu. – Você tá com jeito de bêbado. Bebeu ou não?
Baixei a cabeça, o que acabou me entregando. Eles ficaram bem decepcionados, e mal nos divertimos depois daquilo até chegar duas da manhã, que era o mesmo horário para ir embora de todos nós. Fomos em silêncio até a frente do clube, onde encontrei meu irmão e me distanciei da turma, com um breve tchau.
_ Vou contar pros pais que você fumou.
_ Cala a boca! Não fiz nada não!
_ Fez sim, e eu vou contar.
_ Conta então! E eu conto pra todo mundo da menina que você gosta.
Silêncio. Ele ficou sem reação, até que ouvimos a buzina do carro e vimos que era meu pai. Fomos até lá. Quietos, e entramos.
_ E aí? Como foi? – Perguntou meu pai, empolgado pela resposta.
_ Legal. – Respondeu meu irmão, seco.
_ Legal. – Respondi também seco.
E fomos para casa, sem falar mais nada.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Aos Meus Amigos - 14

(Não leu desde o inicio? Então aproveite, em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html )

Depois do episódio da bomba na casa da diretora e a ida da polícia até o local para averiguar decidimos parar com esse tipo de brincadeira. Dessa forma precisávamos de uma pauta nova nas nossas reuniões do clube para decidir o que fazer no fim de semana.
_ E se fossemos pescar? – Sugeriu o Cleber.
_ Credo! Não gosto de beira de rio. – Foi a resposta do Tomás.
_ Então vamos no clube de campo passar o dia. – Falei.
_ A gente sempre vai lá. – Disse o Sidnei. – Precisamos de algo novo...
_ Que tal um filme? A gente pega algo com várias sequencias e assiste tudo no fim de semana.
A ideia do Hugo não era ruim, mas ainda assim não saciava nossas ânsias pelo novo, mas me deu uma ideia inédita.
_ Gostei da ideia do filme, mas e se pegássemos um filme pornô?
Todos olharam na minha direção, em silêncio e êxtase, até que o Sidnei indagou:
_ Mas como alugar um filme pornô? Precisaríamos de um adulto.
_ Acho que sei como. – Disse o Hugo. – Outro dia meu primo estava com um na casa dele. Ele pega direto e minha tia não liga. Se eu pedir pra ele, certeza que aluga um pra gente.
_ Nossa! – Abriu um sorriso no rosto do Tomás. – Assistir um filme pornô! Que massa!
_ Certeza. A gente só vê as mesmas revistas de sempre. Vai ser legal ver a coisa rolando pra valer na TV. – Emendou o Cleber.
_ Quando você pode falar com seu primo, Hugo? – Perguntou o Sidnei.
_ Hoje à noite passo na casa dele e falo. Amanhã já levo uma resposta na escola.
_ Beleza! Vai ser da hora. – Falei.
_ Mas onde vamos assistir? – Queria saber o Cleber.
_ Em casa mesmo. – Respondi. – Meus pais vão num jantar dançante esse sábado, e sempre voltam tarde. Minha irmã não sai da casa do namorado e meu irmão fica pra rua até tarde mesmo.
_ Tá certo então. – Disse o Sidnei. – A gente se encontra na lanchonete do Chico, pede os lanches, mas pra viagem, e aí vai pra casa do Leo. VTDI?
_ SIMMMM!!!

Passamos o resto da semana imaginando como seria ver um filme pornô. Nunca tínhamos visto um, estando limitados apenas a umas revistas velhas que achávamos ou trocávamos por aí. As que eu tinha eram do tio Mané, que pegava na oficina em que trabalhava e distribuía para os sobrinhos:
_ Vão bater punheta pra virar homem, molecada. – Dizia ele.
No sábado então fizemos o combinado. O primo do Hugo havia pegado o filme e já estava em nosso poder. Nos reunimos na lanchonete do Chico e pedimos nossos lanches, estranhando quando dissemos que era pra viagem, mas nada perguntou. Saímos empolgados em direção à minha casa, encontrando alguns conhecidos pelo caminho aos quais despistávamos rapidamente alegando pressa para comer o lanche enquanto ainda estava quente.
Chegamos, entramos na casa e nos dirigimos para a sala de TV, que ficava no fundo de casa. Meu cachorro Tobi ficou nos rodeando enquanto preparamos o videocassete, ligamos a TV e colocamos a fita, com o título “Entrando Fundo pelos Fundos”. O filme começou e estávamos muito excitados, mas não conseguíamos deixar de fazer comentários engraçados:
_ Nossa! Que saco murcho.
_ Hahahaha! Tá faltando um dente naquela mulher.
_ Até parece que ia gemer tanto assim só de chupar as tetas.
_ Ah, tá! E, de repente, aparece um pinto do nada!
_ Precisava raspar um pouco mais esses pelos aí, heim!
Uma hora e meia depois o filme acaba. Todos com sorriso no rosto pelo espetáculo que acabávamos de ver.
_ E agora? – Pergunta o Cleber.
_ Vamos esconder a fita e ir pra sorveteria. Mas não podemos contar pra ninguém. – Disse o Sidnei. – Você pode esconder em algum lugar por aqui, Leo?
_ Sem problemas. Me da aqui que colocarei junto com as revistas.
_ Aí amanhã à tarde passo aqui pra pegar a fita. – Falou o Hugo. – Tenho que devolver pro meu primo.
Enquanto fechávamos a sala ouvimos a porta da frente se abrindo. Ficamos apreensivos, mas era o Lourenço chegando.
_ Que tá fazendo aqui? – Perguntou ele.
_ Só vim pegar o dinheiro que esqueci.
_ Então vaza que tenho umas coisas pra fazer.
Achamos estranho aquilo. Nos olhamos e começamos a sair, mas todos já desconfiávamos do que ele pretendia fazer.
_ Certeza que ele vai fazer a mesma coisa que a gente. Seu irmão deve ter algum filme escondido. – Disse o Tomás.
_ Também acho. Mas pode deixar que vou pegar ele no pulo. Aí ou ele me deixa assistir o filme também ou ameaço contar pros meus pais.
Entrar na casa sem ser pela porta da frente não era problema, pois bastava pular o muro do lado, já que não tinha ninguém morando na casa do vizinho, e pra mim isso era fácil.
_ Esperem aqui.
Abri o portãozinho da casa vizinha e entrei, me dirigindo ao muro. Rapidamente dei um salto e me apoiei para subir, me equilibrando. Quando já estava pronto para pular do outro lado percebi que meu irmão não tinha ido para o fundo, na sala, e sim para o seu quarto, e a janela estava aberta. Vejo-o se sentar na cama, triste, e começar a chorar. Achei muito estranho, mas continuei a olhar, até que ele pega um álbum de fotos da turma de escola dele e começa a olhar, parando sobre a foto de uma das meninas da sala. Ele estava apaixonado, mas sofrendo, e não queria que o vissem daquele jeito.
Voltei para a rua, onde a turma me esperava.
_ E aí? Pegou no pulo? O filme parecia bom? – Perguntava sem parar o Hugo.
_ Deixa pra lá. Não é nada disso. – Respondi.
_ Então o que era? O que você viu? – Quis saber o Sidnei.
_ Nada. Ele só foi dormir. – E não toquei mais no assunto.

Naquela noite, na sorveteria, vi a garota que ele gostava, e ela estava de mãos dadas com outro garoto da sala deles, e era justamente alguém que meu irmão detestava...

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Aos Meus Amigos - 13

(Ainda não leu desde o inicio? Então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html )


Acabamos nos empolgando com a ideia das bombas e queríamos mais. Assim, em nossas reuniões, escolhíamos os novos alvos.
_ Tem um vizinho meu que também está enchendo o saco. – Disse o Cleber. – Nos dias de semana fica com o som alto até tarde da noite, e nos fins de semana, antes das sete da manhã, já tá com aquela porcaria ligada de novo. Meu pai foi reclamar e ele disse pra chamar a polícia, mas como um parente dele é da polícia, nunca da nada.
_ Então ele vai ser o próximo. – Disse o Sidnei. – Vamos bolar um plano.
_ Podemos aproveitar e dar um susto na diretora também. – Acrescentei. – Ela mora lá perto.
_ Seria legal. Ela anda muito chata ultimamente. – Disse o Hugo, empolgado.
_ É, mas quem colocaria a bomba na casa dela? Uma coisa é o vizinho do Cleber pegar um de nós, que ele nem conhece, fazendo algo perto da casa dele. Outra é a dona Jane pegar qualquer um de nós, sendo que nos conhece muito bem.
Vimos que o Tomás tinha razão nisso, então teríamos que pensar com cuidado. Como o vizinho do Cleber dormia tarde no meio da semana mas acordava cedo nos fins de semana, supomos que ele estivesse cansado no sábado a noite. Dessa forma aproveitaríamos que nossos pais nos deixavam sair aos sábados pra comer lanche e agiríamos nesse espaço de tempo, e mais uma vez usaríamos os conhecimentos do meu primo André.
_ É como uma bomba relógio, só que se usa um cigarro como pavio pra acender a bomba. – Disse ele. – A gente prende cinco bombas bem forte com elástico de dinheiro e enrola com papelão. No pavio de uma das bombas colocamos a base de um cigarro sem o filtro. Aí é só acender a outra ponta. Como o cigarro não apaga e demora pra queimar, quando ele chegar no pavio e acender a bomba vocês já estarão longe.
Era brilhante, existindo o risco apenas de acender o cigarro. Mas ainda assim existia o risco da diretora nos ver na área da sua casa, pois a ideia era colocar o artefato na janela do seu quarto, que ficava de frente pra rua e seu portão era baixo. Então o Sidnei sugeriu:
_ Podemos dividir os grupos. O Hugo, o Tomás e eu armamos a bomba na casa do vizinho do Cleber, já que ele não nos conhece, e o Leo, o Cleber e o André vão para a casa da dona Jane, só que quem se arrisca a colocar a bomba é o André, já que ela não o conhece.
_ Mas o que eu ganho com isso? – Quis saber o André, mas o Sidnei já estava preparado para aquilo.
_ Nós te daremos isso. – E mostrou para ele um saquinho contendo umas quinze fichas de fliperama.
O André era viciado em fliperama. Direto a tia Josefa parava em frente ao bar do Manoel, onde tinha uma máquina, e via o André lá, parando o carro e tirando-o com puxões de orelha. Mas o André sempre voltava, não tinha jeito.
_ Ok. Me convenceram. Sábado nos encontramos para a ação.
_ É isso aí. VTDI? – Gritou o Sidnei, e todos gritamos que sim, só o André que não, ficando sem entender do que se tratava. – A gente se encontra na sorveteria, de lá se espalha e, depois de tudo feito, voltamos a nos encontrar na sorveteria. Não esquece de preparar o artefato, André.
_ Pode deixar Sidnei. O Leo vai dormir em casa na sexta e a gente monta os dois brinquedinhos.

Na sexta estávamos lá, André, Silvinho e eu. Eu mais observava enquanto os dois conversavam e montavam o mecanismo. O Silvinho tinha começado a fumar, então ele que tinha arrumado o cigarro, e de tempo em tempo o André dava uma tragada no seu cigarro.
_ Quer também Leo? – Oferecia.
_ Não, Valeu. – E continuavam a montar o equipamento.

No sábado estava tudo pronto. Fomos à sorveteria e o André carregava uma mochila com as duas bombas. Combinamos os detalhes e dividimos os grupos. Segui com o Cleber e o André em direção à casa da dona Jane, e vimos que a luz da sala estava acesa.
_ E agora? – Perguntou o Cleber.
_ Já são dez e meia. Já era para eles terem dormido. – Respondi, baseado nas vezes que passamos ali em frente nos dias anteriores.
_ Pode deixar. Vão pra lá...
Nisso o André tirou a bomba da mochila e se aproximou do portão. O Cleber e eu começamos a nos afastar às pressas.
O André deu um pulo bem ágil sobre o portão, fazendo um pequeno grunhido, e se escondeu atrás de um arbusto, esperando alguma reação. Nada. Tudo ok. Se levantou e foi em direção à janela do quarto, sempre de olho no vidro da janela da sala, por onde percebíamos a luz acesa. Colocou o explosivo na janela e arrumou o cigarro no pavio. Tirou o isqueiro do bolso e, quando ia acender, a luz da sala se apagou. Estávamos longe, mas podíamos ver tudo. O André se agachou e se manteve em silêncio. Logo, percebemos pela claridade da janela que a luz do quarto havia sido acesa, mas o André se manteve fixo. Me aproximei mais e comecei a fazer sinal para o André sair de lá, mas ele fazia sinal negativo com a cabeça. Voltei para onde estava e fiquei observando, angustiado.
_ Isso vai dar merda! Isso vai dar merda! – Repetia o Cleber.
_ Cala a boca! O André sabe o que faz.
Alguns minutos depois a luz do quarto se apaga, mas o André não sai do lugar. Vez ou outra um carro passa pela rua, e ele só procura se esquivar da luz do farol, até que, passado quase dez minutos desde que a luz do quarto se apagou, vemos o isqueiro se acender e se aproximar do cigarro. O cigarro é aceso e o André começa a se afastar da janela, pula a grade com a mesma agilidade de antes, esconde atrás do muro por precaução, olha pra ver se a luz não se acendeu, e vem em nossa direção.
_ Vamo embora moçada! Não dou dois minutos para ouvirmos a explosão.
Começamos a nos afastar em silêncio em direção à sorveteria. O André parece estar tenso, e o Cleber e eu estávamos nitidamente nervosos, de modo que o Cleber não parava de olhar o relógio marcando os minutos. Pouco tempo depois, mesmo já estando esperando, damos uma pequena assustada com o barulho da explosão ao longe.
_ Hahahahahahaha... – Nos soltamos, agora eufóricos. – Deu certo, hahahahaha...
Chegando na sorveteria os outros três estão lá, nervosos.
_ Onde diabos estavam? Achamos que tinham sido pegos. – Disse o Sidnei.
_ Foi tudo perfeito, apesar de bem tenso. Mas o André arrasou. E vocês? – Perguntei.
_ Nós? Hahahaha. Problema nenhum. Até ficamos olhando de longe, e foi muito massa quando o vizinho do Cleber saiu só de cueca assustado na rua. E ainda um monte de outros vizinhos também saíram, até seus pais, Cleber.

_ Hahahahaha... – Todos demos risadas, até que nossa alegria foi interrompida quando vimos a viatura de polícia passar com tudo, indo em direção à casa da dona Jane...