sexta-feira, 16 de maio de 2014

Aos Meus Amigos - 13 (Parte II)

(Não leu desde o inicio: então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html)


Os primeiros dias do ano foram passando. Claro que eu não havia contado que tinha brochado, inventando uma história de como tinha sido massa.
Enquanto as férias permaneceram continuamos a sair, beber e nos divertir, com exceção do Manezinho, que tinha começado a namorar e se afastado um pouco, mas logo as férias terminaram e voltamos às nossas rotinas de aulas, reunindo a turmas só aos fins de semana mesmo.
O resultado do vestibular do Lourenço saiu, e ele tinha passado numa universidade de uma cidade de grande porte em outro estado. Era bem longe da nossa cidade, e isso apavorava meus pais. Ele, por outro lado, estava com a cabeça raspada e parecia outra pessoa de tão animado.
_ Não precisa se preocupar pai. Eu sei me virar.
_ Não é isso Lou. É uma cidade bem maior que a nossa. A gente fica preocupado.
Percebia que minha mãe às vezes chorava escondido. Apesar de tentar não demostrar, era evidente o pânico que ela estava por se separar do filho, ainda mais que não sabíamos onde o Lourenço ficaria. A solução encontrada foi pegarmos um fim de semana anterior ao começo das aulas e irmos até lá, todos nós, procurando alguma pensão para que ele ficasse. Caso fosse necessário, minha mãe passaria uma semana com ele para adaptação, o que ele não queria de jeito nenhum.
_ Amanhã cedo saímos. – Disse meu pai numa sexta à tarde. – Um cliente do trabalho conhece a cidade e me passou alguns contatos.
_ Mas vou poder sair hoje, né pai? – Era a minha preocupação.
_ Se prometer não voltar tarde pode sim. – Respondeu minha mãe.
_ Quer ir junto Lou? – Pela primeira vez convidei.
_ Não. Vou sair com o Borges e a turma para me despedir.
Realmente, ele não parecia a mesma pessoa. A farra do ano novo e a notícia do vestibular o haviam transformado completamente. Pena que isso tinha ocorrido justo quando ele iria embora.

Encontrei com a turma no bar do Pescocinho. Só o Manezinho não estava.
_ Vai conhecer a cidade do seu irmão então, Leo? – Puxou assunto o Hugo.
_ Pois é. Parece que é uma cidade bem legal. Vamos até no shopping.
_ Volta amanhã mesmo? – Perguntou o André.
_ Não sei. Depende se vamos encontrar um lugar pro meu irmão ficar.
_ O negócio é república. Fala pra ele procurar uma república. – Era a sugestão do Jonatan.
E umas partidas de bilhar, cervejas e cigarros depois e tive que ir embora.

Saímos antes das seis da manhã, esperando chegar lá por volta das dez.
_ Pegou tudo Lou? Não esqueceu nada? – Minha mãe perguntava.
_ Peguei mãe.
_ E você, Marilda? Tá preparado para o caso de ficar lá? – Agora era a vez do meu pai perguntar.
_ Tudo sim. Ai! Não acredito que o Lou já está saindo de casa... – E encheu os olhos de lágrimas.
_ Mãe! Não faz drama! Você sabia que isso ia acontecer. – Disse meu irmão, já meio de saco cheio dos choramingos dela.
_ Então vamos. – Apressou meu pai.
A estrada estava calma. No rádio baixo, tocava música sertaneja antiga. No carro, todos quietos. Vez ou outra minha mãe puxava assunto com meu pai, num tom que imaginava que meu irmão e eu não ouviríamos.
_ E se ele não se adaptar Francisco? Nunca saiu de casa assim.
_ Fica calma Marilda. Está na hora dele começar a viver a própria vida. E qualquer coisa daremos todo apoio.
_ Mas é tão longe. Acho que, mesmo que encontremos uma boa pensão, vou ficar com ele um tempo.
_ NÃO VAI NÃO, MÃE!!!
_ Você estava ouvindo, Lou?
Eu dava pequenas risadas, disfarçando.
_ Lou? – Puxei assunto, pouco depois. – Você vai procurar uma república depois né?
_ Certeza. Tentei convencê-los disso já pra agora, mas vi que não conseguiria.
_ E como você tá? Nervoso?
_ Que nada. Não via a hora de sair de casa.
_ Vou te visitar sempre.
_ Ah tá! Não vou querer ninguém me enchendo o saco não.
“Babaca”, pensei. E eu achando que ele estava mais legal. Virei para o lado e procurei uma posição para um cochilo. Apesar de ser ruim no carro, logo consegui. Ainda faltavam algumas horas para chegar.

Depois de uma parada num posto para banheiro e esticar o corpo, chegamos duas horas depois. A cidade já se mostrava ao longe, com seus prédios e tamanho. Realmente era grande.
_ Nós vamos no shopping primeiro, né pai? – Queria saber.
_ Ainda não, Leo. Vamos procurar as pensões que me indicaram primeiro e depois a gente vai lá pra almoçar.
_ Hummm! Tá!
Rodamos a cidade seguindo placar que identificavam os bairros. O trânsito era um tanto chato, muito diferente da nossa cidade: muitos carros, semáforos, gente. Para chegar à primeira pensão meu pai precisou pedir informação duas vezes em postos de gasolina.
_ Chegamos. Vamos conhecer. Parece bom, não Marilda?
_ É. Parece... – E não conseguiu falar mais nada.
Era um casarão grande e antigo, mas bem cuidado. A dona do local foi explicando as regras de funcionamento:
_ Nós acordamos todos os hóspedes às seis da manhã para o café da manhã, mesmo que alguns deles não estudem nesse período. Assim, quem tem que ir para a faculdade vai e quem não tem aproveita para estudar...
Meu irmão já fez uma cara de ódio.
_ Almoço é em dois horários para atender aos períodos de aula, assim como o jantar, e ninguém entra na pensão depois da meia noite...
E a amostragem e explicações continuaram, até que meus pais pediram para ficarmos do lado de fora para combinarem preços.
_ Tá fodido se ficar aqui, heim?
_ Nem a pau que fico. De jeito nenhum.
_ E se a mãe exigir?
_ Já falei. Não fico!
Logo eles saíram. Percebi no rosto do meu pai que ele não estava feliz. Minha mãe quieta. Entramos no carro para procurar a segunda indicação. Eram três. Ouvi minha mãe dizer baixo:
_ É cara, mas é segura. É nosso filho, Francisco!
_ Vamos ver as outras, Marilda. Depois conversamos.
Senti certo alívio em meu irmão.
Para chegar à segunda pensão meu pai já foi melhor, estava se acostumando com o trânsito da cidade. Era um sobrado bem comprido, e tinha uns jovens na frente. Ao descermos do carro já ouvimos:
_ Olha lá! Bicho novo. Tá fodido, hahahaha!
Minha mãe já olhou para o meu pai e voltou para o carro. Meu pai nem discutiu, só dando uma olhada para os moleques, fuzilando-os com os olhos, e fez sinal para entrarmos. Obedecemos. Não falaram nada o caminho todo.
A terceira e última pensão não era muito longe dali, e era uma casa bem simples. Descemos do carro e minha mãe foi tocando a campainha enquanto meu pai trancava o carro. Um senhor pouco mais velho que meu pai saiu.
_ Aqui é uma pensão para estudantes? O endereço é esse. – Perguntou minha mãe.
_ É sim. Vamos entrando.
O senhor se mostrou simpático, apresentando sua esposa, que estava numa sala com mais dois jovens.
_ Aqui somos como uma família. – Disse a mulher depois das apresentações. – São no máximo seis hóspedes no total, dois em cada quarto, e estamos com duas camas vazias. Venham, vou mostrar a casa. Não é grande, mas é confortável. Se os meninos quiserem ficar para se enturmarem podem tirar dúvidas com nossos meninos. Estes são Miguel e Nelson. – E saíram.
_ E aí? Que curso vai fazer? – Perguntou ao meu irmão o Miguel.
_ Computação. E vocês, o que fazem?
_ Eu engenharia elétrica e o Nelson direito.
_ Caramba? – Me interessei. – Quantos cursos têm aqui?
_ Só na federal tem doze. – Respondeu o Nelson. – Mas tem as faculdades particulares também.
“Caramba”, pensei. Era bem maior que a faculdade que conhecemos com o João.
_ E tem muita festa? – Perguntei novamente.
_ Festa é o que não falta. – Respondeu sorrindo o Miguel.
_ Com certeza vou vir te visitar. – Falei para o meu irmão. Ele só deu uma risada, dessa vez não de um jeito babaca.
Pouco depois meus pais voltaram, e percebia certa alegria no rosto dos dois.
_ Vamos comer, molecada? – Perguntou meu pai.
_ E aí? É aqui que vou ficar? – Quis saber meu irmão.
Meu pai olhou para minha mãe e foi ela quem respondeu:
_ No almoço a gente conversa. Vamos?
E saímos em direção ao tão esperado shopping.
_ Lou, o que achou dessa última pensão? – Perguntou meu pai.
_ Preferia uma república.
_ Você sabe que não vai morar em república. – Disse minha mãe. – Gostou ou não gostou?
_ Com certeza foi a mais legal.
_ Certo. Nós gostamos também, mas vamos nos decidir até depois do almoço. Sua mãe e eu temos muito que conversar.
O shopping era enorme, e logo que entramos fomos procurar a praça de alimentação. Comemos lanches de uma rede de fast-food e depois fomos dar uma volta. Meu irmão e eu nos separamos dos nossos pais depois de marcarmos uma hora e ponto de encontro.
_ Vamos o fliperama? – Perguntei.
_ Certeza.
A área de jogos eletrônicos era muito legal: muitas máquinas que nunca tínhamos visto e torramos nosso dinheiro ali. Certamente não chegaria a tempo de sair com a turma mesmo.
_ E aí Lou? Como tá agora sabendo que vai ficar?
_ Empolgado, mas é estranho. Agora que a ficha tá caindo.
_ Imagino. Mas a cidade é bem massa. Olha só esse shopping! Fora os caras falando das festas.
_ É. Vai ser massa... – Respondeu ele, um pouco vago e com o olhar fixo em algum ponto que não identifiquei.
Ficamos o resto do tempo ali, sem muitas palavras, nos divertindo.

_ Lou, já colocou suas coisas no quarto? – Perguntou meu pai.
_ Já sim.
Depois de a minha mãe tentar convencer inutilmente meu irmão e meu pai de que deveria ficar uns dias com meu irmão, começamos a nos despedir. Minha mãe chorava muito, e meu irmão já não a criticava, aceitando seus carinhos e abraços. Meu pai estava quieto, mais do que o normal, e essa era a sua forma de demostrar a tristeza por se separar do filho. Eu também estava estranho, pois sabia que agora o veria muito pouco, e isso não era tão legal como eu achava.
_ Falou, babaca. – Disse a ele, tentando quebrar um pouco a tristeza.
_ Falou, otário. – Respondeu ele, dando um forte tapa na minha mão. – E Leo? Venha me visitar, ok?
Abri um largo sorriso e concordei com a cabeça.

Entramos no carro e saímos. Vimos que meu irmão não entrou até que o carro não virou a esquina. A volta toda foi bem quieta, com alguns choros baixos da minha mãe.

(Continue a ler em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2014/06/aos-meus-amigos-14-parte-ii.html )

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Aos Meus Amigos - 12 (Parte II)

O natal seria um tanto chato por ser o primeiro sem a vó Cotinha. Como sempre, era na casa dela que passávamos o natal, e o vô Tonico estava bem abatido. Meu pai tentou fazer a farra de sempre levando as crianças para a rua dizendo que o Papai Noel chegaria, enquanto os outros colocavam os presentes embaixo da árvore, mas as crianças de agora não eram como da nossa época.
_ Para de enganar a gente, tio Chico! – Dizia um.
_ Papai Noel não existe! – Dizia outro.
_ Quem disse isso pra vocês? Claro que existe, pergunta pro Leo!
E a molecada saia de perto, descrente.
_ Deixa pai. Eles não sabem o que estão perdendo.
E voltamos para dentro, com meu pai desanimado e as crianças abrindo seus presentes sem o mesmo encanto de antes.
Jantamos, esperamos meia-noite, estouramos espumantes e todos se abraçaram, desejando Feliz Natal. Logo começaria o amigo secreto, e enquanto isso, enchíamos nossos copos com o espumante e bebíamos com todo mundo. Natal e Ano Novo eram os únicos momentos que nos deixavam beber um pouco.
_ Vão com calmo ai molecada! – Chamava minha mãe à atenção.
_ Tá mãe. – Respondia. – Pega mais uma garrafa lá Manezinho. – Dizia logo em seguida, disfarçando.
Naquela altura o Ivan, sobrinho do André, já estava maior e grudava na gente. O deixávamos ficar com uma condição:
_ Se contar pra alguém que estamos pegando outra garrafa você tá ferrado!
Ele concordava e ainda procurava nos acobertar. Pelo jeito logo seria um bom companheiro.
No amigo secreto a troca de presentes mais virava uma esculhambação do que troca de presentes entre “amigos”:
_ O meu amigo secreto uma vez cagou na calça tentando peidar. É você Francisco!
_ O que é isso Mané? Uma cueca nova?
_ Claro! Vai que você caga nas calças de novo!
_ Hahahahahahaha...
E seguia:
_ O presente que comprei pro meu amigo secreto vai ser muito útil. É você Roberto. Abre aí.
_ Sacanagem Rodolfo. Um pacote de fraldas? Era presente pra mim ou pro cagão do meu filho?
_ Hahahahahahaha...
E a coisa continuava:
_ O meu amigo secreto na verdade é irmão secreto. Isso mesmo, tirei o Lourenço. O duro é que o presente que comprei acho que ele nunca vai usar.
_ Abre aí Lourenço, mostra pra gente. Camisinha? Hahaha!
_ Babaca!
Depois do amigo secreto cada um se juntava pra fazer o que gostava: jogar baralho; conversar; arrumar a cozinha; dormir... Dissemos para nossos pais que só daríamos uma volta e logo retornaríamos, uma vez que havíamos combinado passar o natal inteiro com eles para ficar até o amanhecer no Ano Novo. Nos deram só meia hora. E o quarteto foi dar sua volta.
_ João, a gente vai fumar um cigarro. Tudo bem? – Já abriu o jogo o André.
_ Sem problemas. Mas você não fuma não, né Manezinho?
_ Pode ficar tranquilo que não.
Caminhávamos sem rumo, mas sem se afastar muito, fumando e conversando. O João sairia conosco na noite da virada, mas tinha combinado com outra turma depois disso.
_ Ano passado fui na avenida do bairro, e foi muito massa. – Disse ele.
_ Será que o Leo perde a virgindade? – Cutucou o Manezinho, que também já tinha transado.
_ Vai se foder Manezinho!
_ Esquenta não Leo. Já disse que vou arrumar uma garota pra você. – Disse o André.
Fumamos mais um cigarro e matamos a garrafa de espumante que havíamos levado escondido. Chicletes na boca e voltamos para casa do vô Tonico. Por volta das quatro da manhã, depois de mais algumas voltas daquela, fomos embora com nossos pais. O Ano Novo se aproximava.

Os dias que antecederam o Ano Novo foram bem legais. Como estávamos de férias reuníamos a turma todos os dias, jogando bola, bétia, andando de bicicleta e tudo mais. À noite sempre íamos ao bar do Pescocinho jogar bilhar ou fliperama, mas, conforme o combinado com meus pais, não poderia ficar até muito tarde. Estávamos evitando tomar só cerveja, pois, além de ser mais caro, tínhamos que guardar dinheiro para a grande noite da virada, então apelávamos para a porradinha ou conhaque com refrigerante. Até o cigarro estávamos dividindo para economizar. O plano era comprarmos algumas cervejas e uma garrafa de uísque importado. Colocaríamos tudo numa caixa de isopor e escolheríamos um lugar bem movimentado e cheio de gatinhas.
_ E o uísque Jonatan? Já foi atrás né? – Perguntou o André.
_ Já sim. O cara da loja de importados garantiu que arruma num preço mais em conta.
_ Maravilha. E tá fazendo o gelo no frízer da sua casa Leo?
_ Tudo certo. Meus pais nem repararam. Vai ter gelo suficiente.
_ Cara! Vai ser demais! – Disse o Cleber só de imaginar.
_ Tá chegando, molecada! Tá chegando! – Falou o Manezinho, dando um tacada.
E o dia finalmente chegou...

_ Cinco! Quatro! Três! Dois! Ummmm...!!! Feliz Ano Novo!!!
Todo mundo se abraçou, agora na casa da tia Josefa.
_ Cadê o bom princípio de ano novo, tio Mané?
_ Ah! Vá catar coquinho na descida vai Leo! Olha o seu tamanho.
E saia dando risada para encher novamente o copo com espumante. Estaríamos livres em meia hora. O Jonatan já havia levado a caixa térmica com as cervejas e o uísque em casa, de modo que a enchemos de gelo e a mantivemos escondida no fundo de casa, coberta com caixas e tapetes. O ponto de encontro seria lá, por ser mais perto da avenida do bairro.
_ Mãe, já deu a hora. Estamos indo.
_ O Lourenço vai subir com vocês. É pra irem juntos até lá, entendeu?
Que saco! Teríamos que despistá-lo no caminho.
Nos despedimos de todos, dei um beijo no vô Tonico e saímos. Meu irmão junto.
_ Que bosta, Leo. Achei que poderia acender um cigarro, mas com seu irmão aí não rola. – Reclamou o André.
_ Nem me fale.
Chegando na esquina recebemos a boa notícia:
_ Falou babacas. Nem a pau vou com vocês até lá. Tô indo no Borges. – E seguiu em direção oposta à nossa.
_ Hahaha! Já me dá um cigarro também. – Disse ao André, sorrindo.
Chegando em casa o Jonatan já estava lá com o Cleber. Pouco depois chegaram o Mário e o Hugo.
_ Galera, é só pegar as coisas e sair, heim? Nada de beber aqui para os meus pais não desconfiarem.
_ Certeza! Não vejo a hora de chegar na avenida. – Já retrucou o Cleber.
Mais cigarros e seguimos as poucas quadras em direção à avenida do bairro, revezando quem levava a caixa térmica, que estava bem pesada.
_ Deixa que eu ajudo. – Brincava o Hugo tirando uma latinha de cerveja de dentro.
_ Passa uma pra cá que eu ajudo também. – Aproveitava o João.
E assim seguíamos, bebendo e fumando.
A avenida estava lotada: carros, gente, sons, bebidas... A galera estava ensandecida. Reparamos que a rua estava repleta de cacos de vidro e então percebemos que a maioria das pessoas, conforme terminavam de beber algo em garrafa de vidro, a espatifava contra o asfalto.
_ Que massa! Vamos achar logo um lugar cheio de gatas. – Disse o Mário. E assim fizemos.
O local escolhido foi entre dois carros com som ligado e estava cheio de garotas. Algumas conhecíamos da balada e outras não, e sabíamos que dificilmente pegaríamos alguma delas, mas o fluxo de gente por ali estava muito legal, de modo que a chance de pegarmos alguém seria grande.
_ Galera, vou dar um oi ali para minha turma. – Disse o João.
_ Mas agora que vamos abrir o uísque? – Falou o Manezinho.
_ Podem beber. Qualquer coisa bebo depois.
_ Isso se sobrar. – Soltou o André.
Ele nem respondeu e saiu. E percebemos que começávamos a perder o João.
_ Bem, vamos ao que interessa. – Disse o Jonatan abrindo a garrafa.
Enchemos nossos copos. Aquela noite não podia ter fim.
Bebidas rolando, cigarros sendo acesos, escondendo-os vez ou outra quando passava algum conhecido que não sabia que eu fumava e a noite rolava. Conversávamos com todo mundo um pouco, e em vários momentos arriscávamos umas cantadas sem sucesso.
_ Hoje a noite não pode passar em branco. – Dizia o André a cada cantada falha.
_ E se passar? – Perguntou o Mário.
_ Não passa. Qualquer coisa eu apelo. – E apontava para uma roda de garotas que tinham fama de serem fáceis e que ele e o Jonatan já haviam pegado. – Inclusive se quiser hoje mesmo você perde o cabaço Leo. É só falar.
Fiquei quieto, pois não sabia se queria daquela forma.
Um tempo depois vejo meu irmão passar por nós. Algo estava errado.
_ Leo, parece que seu irmão está meio chapado? – Reparou o Hugo.
De fato ele não estava normal: todo molhado, mexia com tudo e com todos, enquanto o Borges e outros amigos o acompanhavam e davam risada. Percebi o Borges cutuca-lo e apontar para mim, e ele veio, com um sorriso no rosto que nunca tinha visto.
_ Meu irmão! – E me abraçou forte. Parecia que ia quebrar minhas costelas. Me contorci para escapar.
_ Caralho Lou! O que você bebeu?
_ Só um pouquinho de rum. – Disse, enroscando todas as palavras.
_ Hahaha! Dá um gole aí então. – Falei, oferecendo meu copo de uísque. Ele virou tudo sem nem sentir.
_ Vamos Lourenço. Tem umas gatinhas ali. – Foi puxando um dos amigos dele, acho que era irmão do Borges.
_ Gatinhas? Opa! É pra lá que vamos então. – E saíram.
Achei muito massa aquilo. Parecia que ele finalmente tinha ganhado vida.
A noite foi seguindo: o Cleber, pra variar, ficou chapado demais; o João não voltou; o Manezinho saiu com uma garota que estava de rolo; o Jonatan e o André chavecavam umas meninas e o Mário, o Hugo e eu bebíamos e conversávamos. O dia estava quase para amanhecer quando o André me chamou:
_ Leo, pra mim não rolou nada e o Jonatan tá indo embora. Vou apelar. Quer ir junto?
Fiquei sem saber o que fazer.
_ Vai lá Leo. – Incentivou o Hugo.
_ Aproveita. Pelo menos você come alguém. – Ajudou o Mário.
_ E vocês? Combinamos de ficar juntos.
_ Não esquenta não. A gente vai levar o Cleber embora.
_ É. Deixa que a gente leva a caixa também. Tá bem mais leve agora.
“Os caras são foda”, pensei, e fui junto com o André. Senti que minhas pernas tremiam.
_ Leo, essas são a Daiane e a Sara. A gente vai dar uma volta. A Daiane quer te conhecer melhor. Vamos?
As duas não eram bonitas, mas, nas palavras do André, era hora de apelar, e conhecendo o André eu sabia no eu aquilo ia dar.
_ Opa! Prazer. Vamos sim.
O André foi seguindo mais à frente com a Sara, falando coisas que a faziam rir embora eu não ouvisse o que eram. Eu estava calado.
_ Então você é primo do André? – Perguntou a Daiane.
_ É. – Foi o máximo que saiu.
_ Você é meio quieto, mas é uma gracinha.
_ Valeu.
Andamos mais um pouco. O André fez um sinal e se afastou mais, virando um quarteirão.
_ Parece que agora estamos sozinhos. – Disse a Daiane. Não soube o que dizer. – Vem cá, vem. – E me puxou.
Ela começou a me beijar e a passar a mão no meu pau por cima da calça. Fiquei duro na hora.
_ Vem comigo, vem. – E começou a me arrastar para uma construção.
Entramos e ela começou a me beijar novamente, já desabotoando a minha calça.
_ Vamos brincar um pouquinho. – E foi tirando a blusa, mostrando os seios. Eu estava muito nervoso, mas comecei a beijá-los.
_ Delícia! Ui! Delícia! Espera aí. – E tirou a calcinha, ficando apenas de saia. – Tira a camisa. – Ordenou.
Tirei a camisa e ela a estendeu sobre um balcão de concreto, deitando sobre ele.
_ Põe a camisinha e vem.
Peguei a camisinha que sempre levava na carteira, abrindo-a, e comecei a coloca-la, me demorando.
_ Vem logo, vem!
E nada.
_ O que está acontecendo?
_ Não consigo colocar.
_ Como assim? Espera que te ajudo. - E se levantou. – Porra! Assim você não vai conseguir mesmo. Que droga! – E começou a se vestir.
Eu estava com o pinto completamente murcho. Nada o faria subir naquela hora. Minha primeira vez e eu havia brochado.
_ Vai, coloca a roupa e vamos embora.

Olhei para fora e o dia estava amanhecendo. Havia perdido meu primeiro pôr-do-sol no ano novo. E havia perdido minha primeira transa...

sábado, 26 de abril de 2014

Aos Meus Amigos - 11 (Parte II)


Como dizem, a vida continua... depois da morte da vó Cotinha procurei passar todos os dias na casa do vô Tonico, me habituando a levar o pão enquanto ele me aguardava com o café e as bolachas para um café da tarde. Era nítido o quanto envelhecera num curto período de tempo, passando a utilizar uma bengala para caminhar e parando de beber por conta dos remédios que agora tinha que tomar. Só o cigarro que não conseguia largar. Quase não falava, apenas respondendo as perguntas que eu fazia. Vez ou outra contava alguma história que sempre envolvia uma lembrança boa da vó Cotinha, e seus olhos se enchiam de lágrimas, e então voltava a se calar. Eram momentos tristes, mas eu os mantinha por medo de perdê-lo mais brevemente.
Em casa estava tudo bem: minha irmã teve um lindo menino no qual deram o nome do pai. Como o Roberto já tinha o nome do seu pai, o filho deles ficou sendo Roberto Neto, ou seja, o Neto. Meus pais estavam muito orgulhosos por serem avós, e sempre levavam o neto para ver se animavam o bisavô, que realmente ficava feliz, mas sem a mesma energia que tinha antigamente, já não fazendo as brincadeiras que tanto gostávamos quando crianças. Meu irmão havia prestado vestibular e todos aguardavam ansiosos os resultados, que sairiam apenas no início do ano. Meu interesse era saber se passaria em alguma cidade bem legal para poder visitá-lo e aproveitar mais o pouco que havíamos presenciado com o João.
Já na escola as coisas não iam tão bem. Eu tinha passado de ano após várias recuperações e quase um exame, e meus pais viviam me cobrando pelo fato do Lourenço ser um exemplo de aluno. Eu nem mesmo sabia o que queria da vida. Mas as amizades estavam a mil, ainda mais pela total união entre a turma da escola e a turma dos primos.
_ Natal vai ser com a família, mas Ano Novo promete, heim? – Comentei em meio a uma partida de bilhar no bar do Pescocinho.
_ Nós vamos na avenida do bairro né? – Perguntou o Hugo.
_ É lá que a coisa pega. Vai ser massa. – Respondeu o André.
Além de nós três estavam também o Jonatan, o Manezinho, o Cleber e o Mário. A avenida do bairro era uma avenida que ficava nos limites da cidade, num bairro onde não haviam muitas casas construídas, o que permitia muita gente parar lá com os carros com o som ligado e a galera bebendo e curtindo, além de ter um nascer-do-sol maravilhoso que todos esperavam para anunciar o Ano Novo. Aquele era o primeiro ano que eu poderia ficar até o amanhecer.
Revezávamos as duplas conforme o resultado de cada partida, e na mesa sempre uma garrafa de cerveja, que era o que mais gostávamos e juntávamos dinheiro para poder beber. Pra variar, idade não era problema no bar do Pescocinho.
_ E tá pegando aquela mina ainda Jonatan? – Perguntou o Manezinho.
_ De vez em quando só. Ela é meio louca. O Silvinho disse que o pelo da boceta dela é verde.
Caímos na risada.
Naquela altura alguns de nós já tinham iniciado suas vidas sexuais, mas o Hugo, o Cleber, o Mário e eu ainda não. O André vivia me dizendo que arrumaria uma garota pra mim, e aquilo me empolgava ao mesmo tempo que me deixava nervoso.
_ Ganhei mais uma, hahaha. – Vangloriava o André. – Vamos pra balada, moçada?
Terminamos as bebidas, pagamos a conta e fomos para a boate, mas não para a mesma de sempre, já que um clube no centro havia inaugurado uma nova boate que estava sendo a sensação do momento apesar de não ter nada de mais em relação à outra, a não ser por ter dois andares: embaixo ficava o bar e uma banda que geralmente tocava pagode, e encima era o som dance.
_ Hahaha! Olha lá uma desprevenida que veio de saia. Não deve ser daqui. – Disse o Mário, apontando uma menina subindo as escadas que tinham os vão vazados, de modo que quem estava embaixo podia ver a calcinha.
_ Da hora! – Concordamos todos.
Compramos doses de conhaque e refrigerante, dividimos em copos para todos e subimos. Observamos o movimento e nos postamos no lugar de sempre, que era próximo a uma grande janela e acendemos nossos cigarros. Da turma da escola apenas o Cleber começou a fumar, sem ninguém insistir, e o que o diferenciava de antes é que já não era tão gordo.
_ Passa o isqueiro. – Pediu o André para o Jonatan.
O Jonatan já sacou a arte e entregou o isqueiro, disfarçando para que o Hugo não visse, sendo ele a vítima da vez. O André se aproximou dele e acendeu o isqueiro na sua perna. Como ele estava de calça jeans não havia o risco de pegar fogo, mas certamente sentiria o calor em segundos.
_ Ai, Porra! Vocês são foda! – Gritou o Hugo.
_ Hahahahaha! – Todos caímos na risada.
_ Vocês tão fodidos comigo. Deixa você marcar André, que vou me vingar. – Desbravava já dando risada também o Hugo.
Copos eram esvaziados, cigarros acendidos e a noite seguia, hora um aprontando com o outro, hora alguém tomando fora de alguma garota. Subíamos e descíamos as escadas conforme enjoávamos de algum lugar, e a cada volta era uma forma de encontrar mais conhecidos e novas paqueras. Como não tínhamos mais hora exata para ir embora geralmente ficávamos até o fim. O fim mesmo:
_ Espera a maioria sair e vamos procurar coisas. – Sugeriu o Jonatan.
E lá íamos nós, olhando para o chão procurando dinheiro perdido ou algum outro objeto. Era comum cair algo no meio da balada e aquilo não ser achado na hora.
_ Achei cinquenta centavos! – Anunciava um.
_ Tem um brinco aqui. Nem vou pegar. – Dizia outro.
_ Hahaha! Uma camisinha! – Mostrava mais um.
_ Vai molecada! A farra acabou! Circulando! – Vinha o segurança nos tirando do salão.
_ Padaria ou praça? – Era a dúvida o Cleber ao sair.
_ A padaria vai demorar pra abrir e já tô meio cansado. Vamos pra praça mesmo. – Sugeriu o Manezinho.
Mais cigarros acesos e seguimos em direção à praça, onde havia uma barraquinha de lanches e lá se concentrava parte da turma que saia da boate.
_ Vai mais um conhaque com soda? – Perguntei.
_ Pra mim já deu. – Respondeu o Hugo.
_ Tomo com você Leo. – Aceitou o Cleber.
Pedimos nossos lanches e bebidas e lá ficamos, relembrando a noite e traçando grandes planos para o domingo e o restante da semana. Comemos nossos lanches, acendemos novos cigarros, refrigerante pra dar uma acalmada na bebedeira e a hora de ir embora se aproximava.
_ Olha lá sua namorada Jonatan. – Apontou o Manezinho.
_ Será que termino a noite bem? – Respondeu ele. – Ela tá com uma amiga. Se alguém for comigo eu vou, se não, não.
_ Eu vou com você. – Se convidou o André.
E lá foram os dois, conversando brevemente e saindo com as duas em direção a algum bairro menos movimentado à procura de algum lugar para um possível coito.
_ Esses dois são foda... – Choramingou o Hugo.
_ Nossa hora vai chegar. – Respondi.
_ Era só um de vocês ter se convidado para ir com o Jonatan. – Cutucou o Manezinho.
Ficamos quietos por nossa covardia.
_ Bora então moçada? – Sugeriu o Manezinho.
_ Vamos sim. Alguém tem uma bala pra disfarçar o bafo do cigarro aí? – Perguntei.
_ Acho que o Cleber tem. – Respondeu o Hugo.

E quando olhamos o Cleber estava dormindo na grama...


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Aos Meus Amigos - 10 (Parte II)


O velório da Vó Cotinha juntou a família toda, inclusive um monte de parentes que eu nem conhecia, como tios e primos da minha mãe que moravam fora ou não. Durante a noite toda a casa foi preparada para o velório enquanto o corpo não chegava, o que havia sido combinado acontecer apenas ao amanhecer para que todos pudessem chegar em tempo. Eu não queria ir de jeito nenhum.
_ Leo, velório é o momento de nos despedirmos das pessoas que amamos. – Dizia meu pai. – E é um momento de dar um apoio ao seu avô.
Aquilo me chamou a atenção e olhei para ele.
_ Como o vô Tonico está pai?
_ Ele está bem quieto, até demais. Sua mãe tá bem preocupada. Faz tudo o que pedem para ele fazer sem falar nada.
_ Tá, eu vou, mas não quero chegar perto do caixão.
Foi um saco um monte de gente que eu nem me lembrava ou conhecia vir me cumprimentar com sorrisos e comentários alegres, como se nada tivesse acontecendo. Agiam como se a vó Cotinha estivesse por ali e tudo bem.
_ Como você cresceu!
_ É o filho mais novo da Marilda? Já tá um moço...
_ Lembra de mim? Seus pais foram visitar minha casa quando você era bebezinho...
Eu ia me esquivando. Queria encontrar o vô Tonico. Ele estava ao lado do caixão, que se encontrava no meio da sala. Me aproximei e ele nem viu. Segurei a sua mão.
_ Leo? Oh, Leo! A sua avó... – E me abraçou aos prantos.
Todos olhavam, pois desde que o corpo chegara a sua casa aquelas tinham sido sua primeira reação de sofrimento. Chorei muito abraçado a ele.
_ Leo, vem se despedir da sua avó.
_ Não quero vô. Não quero vê-la.
_ É só um momento Leo. Você precisa se despedir. – E começou a me puxar calmamente pelo braço.
_ Essa não é minha vó! – Gritei, me soltando de sua mão e correndo dali. Percebi que todos me olhavam.
Saí da casa, atravessei a rua e, inconscientemente, fui em direção ao antigo terreno do circo. Boa parte dele já havia sido vendido e agora eram casas ou barracões, e a mangueira que costumávamos subir já não existia mais havia tempo. Chegando lá não sabia o que fazer, me sentindo perdido.
E agora? - Pensava. - Saber que alguém pode nos deixar e essa pessoa nos deixar era algo muito diferente. Por mais que alguém possa estar preparado para isso é impossível não sentir o impacto no peito, a nebulosidade na mente, o vazio na alma... Aquilo não era justo! Não podia acontecer! - E, no meio da minha revolta, pensei: Se eu estou assim como estará o vô Tonico? E minha mãe e tios? E todas as outras pessoas que amavam a vó Cotinha tanto quanto eu? - E percebi o quão egoísta estava sendo, e decidi voltar. Mal iniciei meu retorno e pude ver outras figuras se aproximando. Eram meus primos, João, André e Manezinho. Todos com os olhos inchados. Se aproximaram em silêncio e nos abraçamos, como quando éramos crianças e queríamos elaborar nossos planos, mas dessa vez sem planos. Não havia planos para a morte. E choramos muito.
_ Temos que voltar Leo. – Disse o João, rompendo o silêncio.
Apenas concordei com a cabeça e começamos a caminhada, ainda abraçados. Nos aproximando da casa vi que o Cleber, o Hugo e o Mário estavam ali. Me desprendi dos meus primos e me dirigi a eles.
_ Meus sentimentos Leo. – Disse o Cleber.
_ Foda cara. Nem conheci seus avós, mas deve ser foda. – Falou o Mário.
O Hugo se aproximou e me abraçou. Mal conseguia falar ao perceber minha tristeza.
_ Força Leo. Nós estamos aqui para o que for preciso. Para isso servem os amigos.
Chorei mais. Agradeci os três e indiquei que iria entrar. Quando me afastei deles senti me tocarem o ombro.
_ Leo?
Me virei e vi que eram o Tomás e o Sidnei. Aquilo me surpreendeu.
_ A gente sabe o quanto você gostava deles. Meus sentimentos. – Disse o Sidnei.
_ Minha família também manda sentimentos. – Falou o Tomás. – Se precisar de algo pode contar com a gente
Dei um abraço nos dois sem dizer nada. Não sabia o que dizer. Teria nossa amizade realmente acabado ou ela estava apenas adormecida, mas sempre ali? Teria eu feito o mesmo se tivesse sido a vó do Tomás a falecer? Minha cabeça ficou mais confusa ainda, mas logo tais pensamentos se dissiparam ao perceber com o canto dos olhos uma presença, e ao olhar pude ver o Vini, do outro lado da rua. Apenas fez um aceno com a cabeça e se afastou. Decidi entrar de vez, agora mais calmo, mas com a cabeça ainda confusa. Muito mais.
Decidi procurar minha mãe, e ela estava ao lado do vô Tonico, junto com os outros tios. No caminha encontrei a Michele e a Milena, a Cássia e o Juninho, meus primos filhos da tia Matilde, os dois filhos do tio Osório que não via há muito tempo também estavam lá, assim como o Humberto. Cumprimentei a todos, mas não chorando mais e sim com certo sentimento de alegria, pois a vó Cotinha, apesar da situação, havia reunido toda a família, e ela merecia uma grande homenagem. Cheguei próximo à minha mãe e meu avô, segurando suas mãos. Os primos também se aproximaram, e percebi que o Silvinho e o Jonatan estavam presentes. Família e amigos. Amigos que são família e família que são amigos. Eu estaria completo se não fosse a ausência da Vó Cotinha.
_ Se despeça dela Leo. – Pediu o Vô Tonico.
Respirei fundo e me aproximei do corpo da vó Cotinha. Vi seu rosto que já não era seu, e toquei em sua mão gelada que não era mais a mesma dos bolos e sopinhas de pão.
_ Obrigado vó. – Falei bem baixinho, quase em pensamento. – Certamente você me fez uma pessoa melhor. Na sua ausência levarei seus ensinamentos, sua alegria, seu amor e seu carinho. Nunca me esquecerei de você e a forma de demonstrar isso será procurando tratar a todos da mesma forma que você tratava todos, sempre com um sorriso no rosto e a paz no coração. Te amo.
Dei um leve beijo na já não sua bochecha e voltei ao meu avô e minha mãe. Eu já não mais chorava e até esboçava um leve sorriso nos lábios. Meu pai estava certo: era um momento de despedida. Só não consegui segurar o choro no momento em que fecharam o caixão para o enterro.


sexta-feira, 28 de março de 2014

Aos Meus Amigos - 9 (Parte II)


O João nos acordou por volta das dez. A dor de cabeça era enorme, apesar de não estarmos enjoados. A primeira coisa que fiz foi olhar para o Marinho, que estava do mesmo jeito de quando chegamos.
_ Cara! Hoje é o dia do lual, hehehe. – Disse ele.
_ Mas antes temos o dia todo. É bom nos recuperarmos para o esquenta. – Falou o João.
Como na escola agrícola tinha ovo à vontade o Bernardo fez uma omelete para nós, com basicamente só ovo e cheiro verde, mas estava muito gostoso. O leite também era tirado direto da vaca. Todos estavam normais, só eu estava estranho.
_ Que foi Leo? – Perguntou o João.
_ Nada não. Só a ressaca. – Disfarcei, dando uma olhada no Marinho.
_ Se quiser podemos dar uma volta no campus. Vai tá bem vazio por ser sábado, mas é legal vocês conhecerem como é uma faculdade.
Aquilo me animou e começamos a nos arrumar. Nem o Bernardo e nem o Marinho foram, e o campus era bem ao lado da escola mesmo, de modo que o curso que o João fazia, apesar de ser colegial, pertencia à faculdade, que tinha curso de agronomia.
_ Aquele prédio lá são as salas de aula, e aquele maior é a biblioteca. – Nos mostrava o João. – Às vezes temos que ir estudar lá pra fazer uns trabalhos mais difíceis.
_ Que massa! – Me entusiasmei. – Meu irmão presta vestibular esse ano. Será que vai pra um lugar assim?
_ Sei irmão é CDF e quer essas coisas de computador, Leo. – Disse o Manezinho. – Certeza que a faculdade que ele quer não tem agronomia.
Ainda assim fiquei viajando na ideia de visita-lo numa faculdade daquele porte, mesmo que não nos déssemos tão bem.
_ Ali é o setor de veterinária. É a ala que mais tem mulher.
_ Vamos lá então! – Empolgou o André.
_ Não deve ter ninguém lá agora. Eu estou levando vocês para a cantina, mas se quiserem ir tudo bem.
Como nem teria garotas nem fomos.
Na cantina tinha pouca gente, mais um pessoal que morava nos alojamentos da própria faculdade. Nos sentamos e o João pegou uma garrafa média de refrigerante, que dividimos enquanto ele nos falava de lá.
_ Aqui é bem tranquilo, mas é bem legal. Geralmente não temos contato com o pessoal da faculdade, mas sempre que tem festa procuramos aproveitar. Claro que ninguém nem liga pra gente, e só o Bernardo pegou uma garota mais velha uma vez. E vocês precisam ver as festas. É muita farra. Como muita gente que estuda aqui mora longe de casa isso permite que eles aprontem um monte, e o povo da agronomia é maluco. Outro dia estavam rodando pelas ruas com uma caminhonete com uma piscina na carroceria, cheio de meninas dentro junto com uns caras, bebendo um monte. Tudo maluco. Mas uma coisa que você acaba vendo um monte aqui também são drogas. Maconha fumam como se fosse cigarro normal, e as vezes se vê uma galera cheirando cocaína também.
_ E o que você faz quando vê essas coisas? – Perguntei.
_ Leo, acaba sendo tão comum que a gente se acostuma. No começo me assustava, agora não. E se oferecerem é só recusar. São tudo gente boa. O Marinho mesmo fuma todo dia e é super gente fina.
Então ele sabia, pensei. E aquilo ficou na minha cabeça: quando o Sidnei e o Tomás deixaram de falar comigo foi por me pegarem fumando, e fiquei puto pela forma como me julgaram e julgavam a turma do André, e agora eu estava agindo do mesmo jeito. Realmente, o Marinho era gente boa. E se eu não soubesse que ele fumava maconha continuaria a achar isso. Acho que eu deveria desculpas a ele.
_ Bem, vamos voltar? Temos que comprar as coisas para o almoço e o esquenta.
_ Deixa eu adivinhar: - Disse o Manezinho. – O almoço vai ser macarronada.
_ Hehehe. Isso mesmo.
_ E para o esquenta? – Quis saber o André.
_ Acho que vamos de vodca com iogurte.
É. A noite prometia.
Chegando ao alojamento o Bernardo se propôs a ir ao mercado, já que tínhamos ido no dia anterior, e perguntou se alguém queria ir com ele.
_ Eu vou. – Disse o André.
Olhei para ele, estranhando, e ele fez um sinal com a mão de que iria fumar um cigarro, então decidi ir junto.
_ Não quer ir também Marinho? – Perguntei, meio que tentando me redimir comigo mesmo pelo que havia pensado sobre ele.
_ Não. Tô de boa, hehehe. – Respondeu, mostrando um cigarro de maconha que provavelmente fumaria logo. Dessa vez achei graça, e saímos.
_ O João disse que você já pegou uma das garotas da faculdade. – Puxei assunto.
_ Pois é. Tive sorte. Era uma gostosa.
_ E ficaram só no beijinho? – Se interessou o André.
_ Que nada. Essa mulherada da faculdade é tudo fogueteira.
_ Conta pra gente então.
_ Era uma festa junina do campus, e tava lotado. Fui com o João, o Marinho e mais três amigos do alojamento vizinho. A festa estava uma loucura, todo mundo bebendo e dançando e se divertindo, quando essa louca me puxou pelo braço pra dançar. As amigas dela ficaram rindo e ela perguntou que curso eu fazia. Nem pensei e respondi agronomia. Cara, nisso ela já me deu um beijão na boca e pediu que eu a levasse embora. Essa é a parte doida, pois a galera da agronomia tem muita grana na maioria das vezes, possuindo cada carrão. Então disse que aquela noite estava sem carro e dormiria no alojamento dos técnicos agrícolas com meu irmão, dá pra acreditar? E ela quis ver onde era. Então a levei para o nosso próprio alojamento e a comi na minha cama mesmo, hahahaha.
_ E ela não descobriu depois?
_ É. Ela se tocou quando viu minha carteirinha de estudante na escrivaninha, mas nem ficou brava. Deu risada, disse que eu era um mentiroso fofo e foi embora antes da festa no campus acabar. Foi bem massa.
Aquilo só deixou o André e eu mais loucos ainda. Quem sabe não teríamos uma sorte daquela à noite?
Compramos as coisas no mercado e na saída o André se arriscou:
_ Bernardo, se eu comprar um cigarro você jura que não fala nada pro João?
_ Tenho certeza que o João não ligaria, mas se é isso que você quer, ok.
Compramos um maço e fizemos o caminho de volta, conversando e fumando. Estávamos encantados com essa vida de morar fora para estudar, mas nem o André e nem eu sabíamos o que queríamos em termos de estudos.
_ Eu não pensava em fazer faculdade, mas vendo como é da hora tô repensando, viu? – Disse o André.
_ Eu quero fazer, mas não sei o que. Meus pais vivem me cobrando pra decidir logo. E pra piorar meu irmão já sabe o que quer desde que era criança. – Desabafei.
Quando estávamos chegando ao alojamento vimos o carro do tio Mané parado na frente, o que estranhamos, pois ele só deveria vir no dia seguinte depois do almoço.
_ Aquele é o carro do pai do João, não é? – Perguntou o Bernardo.
_ É sim. Que estranho. – Respondi.
_ Toma. Leva a sacola com as coisas para o macarrão. Vou esconder as bebidas e já vou.
O André e eu colocamos uma bala na boca para disfarçar o cheiro do cigarro e nos dirigimos ao alojamento. Ao entrarmos encontramos o João e o Manezinho chorando.
_ O que foi tio? O que aconteceu?
_ Vim buscar vocês, Leo. A vó Cotinha morreu...
Não conseguia ouvir mais nada. Vi a boca do tio Mané se mexer, tentando nos acalmar, mas não ouvia nada. Meio que no automático, arrumamos nossas coisas chorando e fomos embora. Nem nos despedimos do Marinho e do Bernardo.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Aos Meus Amigos - 8 (Parte II)

(Não leu desde o inicio? Então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html )


_ Mãe! Mãe! – Chamava eu pela casa, procurando-a ao chegar da escola.
_ Aqui Leo. – Ouvi sua voz vinda do quarto.
_ Mãe, você falou que daria a resposta hoje se eu poderia visitar o João... Você tá chorando mãe?
_ Tô preocupada com sua vó, Leo. Ela foi internada de novo. Não sei o que fazer.
Depois da primeira internação após o casamento da Rosália a vó Cotinha não tinha se recuperado totalmente, sendo internada mais três vezes ao longo do mês. Aquela era a quarta.
_ Mãe, vai dar tudo certo. A vó Cotinha é forte, você sabe disso.
_ Ela já tá bem velhinha Leo. Não sei se o vô Tonico aguentaria se algo acontecesse a ela... – E começou a chorar novamente.
_ Mãe... – E a abracei, procurando não chorar também só de imaginar não ter mais os dois.
O João havia reforçado a oferta de passarmos um fim de semana com ele. Apesar da internação da vó Cotinha minha mãe me deixou ir. O tio Mané levaria o Manezinho, o André e eu para passarmos um fim de semana lá e depois nos buscaria. Dessa forma, além de ver o filho, teria tempo junto com minha mãe e minhas tias de cuidar da vó Cotinha sem que sentíssemos a gravidade da situação. E assim fomos.
_ É bom não aprontarem nada de errado lá, heim? – Dizia o tio Mané enquanto nos levava. – Lembrem-se que se der merda o João corre o risco de ser expulso da escola.
Certamente isso era algo que não queríamos, mas sabíamos que as coisas no alojamento do João eram bem liberais segundo suas histórias, então não estávamos muito preocupados com as ameaças do tio Mané. A única coisa que nos desanimava era o fato de a escola ser somente para homens, o que tirava a chance de pegarmos alguma garota.
_ Molecada, já sabem né? Nada de aprontar e qualquer coisa liguem a cobrar do orelhão.
E assim nos despedimos do tio Mané, que voltaria só no domingo depois do almoço.
_ E agora João? – Perguntei, animado.
_ Por hoje ficaremos de boa mesmo. Vamos ao mercado comprar umas coisas e aí jogamos baralho ou algo assim. Mas amanhã tá marcado um lual, e aí sim a coisa pega. Vai ser no campus da faculdade e lá sim tem mulherada. E é bem aqui ao lado.
Ficamos muito animados. O fim de semana prometia.
Ficamos no mesmo quarto que o João, já que alguns dos companheiros de quarto dele haviam viajado para visitar a família. Eram quatro beliches e apenas dois dos caras da casa estavam lá: o Marinho e o Bernardo. O Marinho era bem desencanado. Negro com um cabelo bem avolumado e que falava umas coisas meio que sem sentido. O Bernardo era mais quieto, bem estilo cowboy mesmo: bota, fivela e chapéu na cabeça. Parecia gente boa.
_ Estamos indo ao mercado. Querem algo? – Perguntou o João aos dois.
_ Obrigado João. – Respondeu o Bernardo.
_ Cara, vou com vocês. – Se convidou o Marinho.
O mercado ficava a quarenta minutos de caminhada dali, já que a escola era um pouco afastada da cidade, o que estranhamos, já que nesse tempo atravessaríamos a cidade inteira onde morávamos.
_ Cara, vocês vão pirar aqui. – Disse o Marinho. – Seu primo ainda é certinho, mas tem muito maluco da hora. E o lual amanhã promete, hehehe.
O João não falava nada. Alias, ninguém falava nada, pois o Marinho não dava chance, falava sem parar. Chegamos ao mercado.
_ Qual vai ser, João? – Perguntou o Marinho.
_ Conhaque com refrigerante.
Nos olhamos, Manezinho, André e eu. Nunca tínhamos tomado conhaque.
_ Gosto muito. – Disse o Marinho.
_ Com quanto vocês podem ajudar? – Perguntou o João.
Tiramos nossos dinheiros da carteira e mostramos para ele.
_ Ok. Contando que amanhã precisaremos de grana também, vamos pegar só o suficiente para a bebida e a comida.
Cada um deu um pouco e ele comprou uma garrafa de conhaque, duas garrafas de dois litros de refrigerante, pois pães para cada e um punhado de mortadela.
_ Aqui é assim de fim de semana: ou compramos pão com alguma coisa ou fazemos macarronada.
Era tudo muito estranho e legal para nós.
Chegando ao alojamento o João perguntou o que queríamos: comer ou tomar banho. Decidimos comer, já que não tinha ninguém que nos obrigasse ao banho. Acabamos de comer e o Marinho já veio com o conhaque e uma garrafa de refrigerante.
_ Porradinha? – Perguntou ele.
_ Acho que a molecada vai gostar mais. – Respondeu o João.
_ Opa! Porradinha? – Foi se aproximando o Bernardo ao ouvir a proposta do Marinho.
Que raios era aquilo de porradinha? Nunca tínhamos ouvido falar, mas estávamos empolgados. Enquanto o Marinho abria as garrafas o Bernardo foi buscar um copinho de pinga, só um. Achamos estranho.
_ Chega mais molecada. – Chamou o João. – Senta no chão mesmo, em volta da garrafa.
Sentamos em círculo e ficamos esperando.
_ Quem vai primeiro? – Quis saber o Bernardo, mais animado e menos quieto do que quando chegamos.
Nos olhamos e, antes que alguém pudesse dizer alguma coisa, surpreendi a todos:
_ Eu!
O André deu um sorriso de aprovação, e então o Marinho colocou no copo segurado pelo Bernardo metade de conhaque e metade de refrigerante.
_ Fica preparado. Assim que te entregar o copo vira tudo de uma vez.
Ao falar isso o Bernardo colocou a mão sobre a boca do copo, tapando-a, e deu uma rápida batida na base do copo em sua perna, fazendo com que aquela mistura levantasse uma rápida espuma devido ao gás do refrigerante, estendendo instantaneamente o copo para mim.
_ Vira! Vira! Vira! – Gritavam o João, o Bernardo e o Marinho.
Quase sem pensar peguei o copo antes que a espuma se dispersasse e o virei, descendo gostoso pela garganta.
_ Que massa! Quero mais. – Me expressava, em êxtase.
_ Calma Leo. É uma vez de cada. Acabando a rodada começamos de novo.
E assim foi, todo mundo bebendo. Primeira rodada, segunda rodada, terceira rodada. A garrafa de conhaque descendo.
_ Mais uma! Mais uma!
_ Moçada! Isso é gostoso, mas bate de uma vez. Têm certeza que querem mais uma?
Olhamos um para o outro. Todo mundo com cara de um pouco alto.
_ Hahahahaha! Mais uma com certeza!
A decisão foi unânime.
Terminando a quinta rodada já estávamos todos bêbados, principalmente o Manezinho, o André e eu, que não estávamos acostumados àquilo.
_ João, vou dormir. – Anunciou o Manezinho.
_ Você nem tomou banho. – Deu uma de pai o João.
_ Amanhã eu tomo. – E saiu em direção ao quarto, ziguezagueando.
_ Leo? – Se aproximou o André. – Queria tanto um cigarro.
Aquilo era tudo que eu queria também naquela hora. Combinamos de não levar um maço pelo fato do João não saber que fumávamos, e não sabíamos qual seria sua reação se soubesse. Logo em seguida vimos o Marinho sair do quarto em direção à porta da frente com um isqueiro na mão. Olhamos um para o outro, com uma esperança nos olhos, e decidimos ir para fora também.
_ A gente só pede um trago. Se pedirmos para não falar nada para o João certeza que ele não fala. – Dizia o André.
_ Certeza. O Marinho é gente boa. – Concordava.
Saímos e começamos a procura-lo. Vimos que ele estava um tanto afastado, próximo a uma cerca, e fomos em sua direção.
_ Marinho você não arruma um cigarro pra gente também? – Já foi pedindo o André.
_ Só não fala nada pro João não. Ele não sabe que a gente fuma.
_ Hehehe, moçada. Eu só tenho um, e não sei se é dos que vocês estão querendo não. – Disse ele, mostrando seu cigarro.
Quando olhamos achamos estranho, pois não era um cigarro comum. Era um cigarro enrolado num guardanapo de papel aparentemente.
_ É maconha? – Ouvi o André dizer, estranhando.
_ Hehehe. É isso ai. Se quiserem dar uns tapas, sem problema.
Eu não acreditava naquilo. Maconha! E o cara com ela morava com o João. Aquilo me assustou e comecei a puxar o André. Ele procurou me acalmar, me segurando.
_ Putz! Valeu Marinho. A gente achou que era cigarro normal, mas valeu.
Então começamos a voltar pro bloco do alojamento. Eu estava bem assustado, o André não.
_ Você nunca tinha visto maconha, né Leo?
_ Eu não! Por quê? Você já?
_ Já. Uns amigos da escola fumam.
_ Mas você nunca fumou né?
_ Não. Eu não.
E entramos. O André foi dormir, mas eu quis tomar um banho. Não que eu quisesse de fato, mas para ver se me acalmava. Eu estava bem nervoso mesmo.
Depois do banho fui para o quarto e já estava todo mundo lá, inclusive o Marinho. Todos dormiam muito bem. Me deitei mas demorei bastante até conseguir dormir...

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