sexta-feira, 2 de maio de 2014

Aos Meus Amigos - 12 (Parte II)

O natal seria um tanto chato por ser o primeiro sem a vó Cotinha. Como sempre, era na casa dela que passávamos o natal, e o vô Tonico estava bem abatido. Meu pai tentou fazer a farra de sempre levando as crianças para a rua dizendo que o Papai Noel chegaria, enquanto os outros colocavam os presentes embaixo da árvore, mas as crianças de agora não eram como da nossa época.
_ Para de enganar a gente, tio Chico! – Dizia um.
_ Papai Noel não existe! – Dizia outro.
_ Quem disse isso pra vocês? Claro que existe, pergunta pro Leo!
E a molecada saia de perto, descrente.
_ Deixa pai. Eles não sabem o que estão perdendo.
E voltamos para dentro, com meu pai desanimado e as crianças abrindo seus presentes sem o mesmo encanto de antes.
Jantamos, esperamos meia-noite, estouramos espumantes e todos se abraçaram, desejando Feliz Natal. Logo começaria o amigo secreto, e enquanto isso, enchíamos nossos copos com o espumante e bebíamos com todo mundo. Natal e Ano Novo eram os únicos momentos que nos deixavam beber um pouco.
_ Vão com calmo ai molecada! – Chamava minha mãe à atenção.
_ Tá mãe. – Respondia. – Pega mais uma garrafa lá Manezinho. – Dizia logo em seguida, disfarçando.
Naquela altura o Ivan, sobrinho do André, já estava maior e grudava na gente. O deixávamos ficar com uma condição:
_ Se contar pra alguém que estamos pegando outra garrafa você tá ferrado!
Ele concordava e ainda procurava nos acobertar. Pelo jeito logo seria um bom companheiro.
No amigo secreto a troca de presentes mais virava uma esculhambação do que troca de presentes entre “amigos”:
_ O meu amigo secreto uma vez cagou na calça tentando peidar. É você Francisco!
_ O que é isso Mané? Uma cueca nova?
_ Claro! Vai que você caga nas calças de novo!
_ Hahahahahahaha...
E seguia:
_ O presente que comprei pro meu amigo secreto vai ser muito útil. É você Roberto. Abre aí.
_ Sacanagem Rodolfo. Um pacote de fraldas? Era presente pra mim ou pro cagão do meu filho?
_ Hahahahahahaha...
E a coisa continuava:
_ O meu amigo secreto na verdade é irmão secreto. Isso mesmo, tirei o Lourenço. O duro é que o presente que comprei acho que ele nunca vai usar.
_ Abre aí Lourenço, mostra pra gente. Camisinha? Hahaha!
_ Babaca!
Depois do amigo secreto cada um se juntava pra fazer o que gostava: jogar baralho; conversar; arrumar a cozinha; dormir... Dissemos para nossos pais que só daríamos uma volta e logo retornaríamos, uma vez que havíamos combinado passar o natal inteiro com eles para ficar até o amanhecer no Ano Novo. Nos deram só meia hora. E o quarteto foi dar sua volta.
_ João, a gente vai fumar um cigarro. Tudo bem? – Já abriu o jogo o André.
_ Sem problemas. Mas você não fuma não, né Manezinho?
_ Pode ficar tranquilo que não.
Caminhávamos sem rumo, mas sem se afastar muito, fumando e conversando. O João sairia conosco na noite da virada, mas tinha combinado com outra turma depois disso.
_ Ano passado fui na avenida do bairro, e foi muito massa. – Disse ele.
_ Será que o Leo perde a virgindade? – Cutucou o Manezinho, que também já tinha transado.
_ Vai se foder Manezinho!
_ Esquenta não Leo. Já disse que vou arrumar uma garota pra você. – Disse o André.
Fumamos mais um cigarro e matamos a garrafa de espumante que havíamos levado escondido. Chicletes na boca e voltamos para casa do vô Tonico. Por volta das quatro da manhã, depois de mais algumas voltas daquela, fomos embora com nossos pais. O Ano Novo se aproximava.

Os dias que antecederam o Ano Novo foram bem legais. Como estávamos de férias reuníamos a turma todos os dias, jogando bola, bétia, andando de bicicleta e tudo mais. À noite sempre íamos ao bar do Pescocinho jogar bilhar ou fliperama, mas, conforme o combinado com meus pais, não poderia ficar até muito tarde. Estávamos evitando tomar só cerveja, pois, além de ser mais caro, tínhamos que guardar dinheiro para a grande noite da virada, então apelávamos para a porradinha ou conhaque com refrigerante. Até o cigarro estávamos dividindo para economizar. O plano era comprarmos algumas cervejas e uma garrafa de uísque importado. Colocaríamos tudo numa caixa de isopor e escolheríamos um lugar bem movimentado e cheio de gatinhas.
_ E o uísque Jonatan? Já foi atrás né? – Perguntou o André.
_ Já sim. O cara da loja de importados garantiu que arruma num preço mais em conta.
_ Maravilha. E tá fazendo o gelo no frízer da sua casa Leo?
_ Tudo certo. Meus pais nem repararam. Vai ter gelo suficiente.
_ Cara! Vai ser demais! – Disse o Cleber só de imaginar.
_ Tá chegando, molecada! Tá chegando! – Falou o Manezinho, dando um tacada.
E o dia finalmente chegou...

_ Cinco! Quatro! Três! Dois! Ummmm...!!! Feliz Ano Novo!!!
Todo mundo se abraçou, agora na casa da tia Josefa.
_ Cadê o bom princípio de ano novo, tio Mané?
_ Ah! Vá catar coquinho na descida vai Leo! Olha o seu tamanho.
E saia dando risada para encher novamente o copo com espumante. Estaríamos livres em meia hora. O Jonatan já havia levado a caixa térmica com as cervejas e o uísque em casa, de modo que a enchemos de gelo e a mantivemos escondida no fundo de casa, coberta com caixas e tapetes. O ponto de encontro seria lá, por ser mais perto da avenida do bairro.
_ Mãe, já deu a hora. Estamos indo.
_ O Lourenço vai subir com vocês. É pra irem juntos até lá, entendeu?
Que saco! Teríamos que despistá-lo no caminho.
Nos despedimos de todos, dei um beijo no vô Tonico e saímos. Meu irmão junto.
_ Que bosta, Leo. Achei que poderia acender um cigarro, mas com seu irmão aí não rola. – Reclamou o André.
_ Nem me fale.
Chegando na esquina recebemos a boa notícia:
_ Falou babacas. Nem a pau vou com vocês até lá. Tô indo no Borges. – E seguiu em direção oposta à nossa.
_ Hahaha! Já me dá um cigarro também. – Disse ao André, sorrindo.
Chegando em casa o Jonatan já estava lá com o Cleber. Pouco depois chegaram o Mário e o Hugo.
_ Galera, é só pegar as coisas e sair, heim? Nada de beber aqui para os meus pais não desconfiarem.
_ Certeza! Não vejo a hora de chegar na avenida. – Já retrucou o Cleber.
Mais cigarros e seguimos as poucas quadras em direção à avenida do bairro, revezando quem levava a caixa térmica, que estava bem pesada.
_ Deixa que eu ajudo. – Brincava o Hugo tirando uma latinha de cerveja de dentro.
_ Passa uma pra cá que eu ajudo também. – Aproveitava o João.
E assim seguíamos, bebendo e fumando.
A avenida estava lotada: carros, gente, sons, bebidas... A galera estava ensandecida. Reparamos que a rua estava repleta de cacos de vidro e então percebemos que a maioria das pessoas, conforme terminavam de beber algo em garrafa de vidro, a espatifava contra o asfalto.
_ Que massa! Vamos achar logo um lugar cheio de gatas. – Disse o Mário. E assim fizemos.
O local escolhido foi entre dois carros com som ligado e estava cheio de garotas. Algumas conhecíamos da balada e outras não, e sabíamos que dificilmente pegaríamos alguma delas, mas o fluxo de gente por ali estava muito legal, de modo que a chance de pegarmos alguém seria grande.
_ Galera, vou dar um oi ali para minha turma. – Disse o João.
_ Mas agora que vamos abrir o uísque? – Falou o Manezinho.
_ Podem beber. Qualquer coisa bebo depois.
_ Isso se sobrar. – Soltou o André.
Ele nem respondeu e saiu. E percebemos que começávamos a perder o João.
_ Bem, vamos ao que interessa. – Disse o Jonatan abrindo a garrafa.
Enchemos nossos copos. Aquela noite não podia ter fim.
Bebidas rolando, cigarros sendo acesos, escondendo-os vez ou outra quando passava algum conhecido que não sabia que eu fumava e a noite rolava. Conversávamos com todo mundo um pouco, e em vários momentos arriscávamos umas cantadas sem sucesso.
_ Hoje a noite não pode passar em branco. – Dizia o André a cada cantada falha.
_ E se passar? – Perguntou o Mário.
_ Não passa. Qualquer coisa eu apelo. – E apontava para uma roda de garotas que tinham fama de serem fáceis e que ele e o Jonatan já haviam pegado. – Inclusive se quiser hoje mesmo você perde o cabaço Leo. É só falar.
Fiquei quieto, pois não sabia se queria daquela forma.
Um tempo depois vejo meu irmão passar por nós. Algo estava errado.
_ Leo, parece que seu irmão está meio chapado? – Reparou o Hugo.
De fato ele não estava normal: todo molhado, mexia com tudo e com todos, enquanto o Borges e outros amigos o acompanhavam e davam risada. Percebi o Borges cutuca-lo e apontar para mim, e ele veio, com um sorriso no rosto que nunca tinha visto.
_ Meu irmão! – E me abraçou forte. Parecia que ia quebrar minhas costelas. Me contorci para escapar.
_ Caralho Lou! O que você bebeu?
_ Só um pouquinho de rum. – Disse, enroscando todas as palavras.
_ Hahaha! Dá um gole aí então. – Falei, oferecendo meu copo de uísque. Ele virou tudo sem nem sentir.
_ Vamos Lourenço. Tem umas gatinhas ali. – Foi puxando um dos amigos dele, acho que era irmão do Borges.
_ Gatinhas? Opa! É pra lá que vamos então. – E saíram.
Achei muito massa aquilo. Parecia que ele finalmente tinha ganhado vida.
A noite foi seguindo: o Cleber, pra variar, ficou chapado demais; o João não voltou; o Manezinho saiu com uma garota que estava de rolo; o Jonatan e o André chavecavam umas meninas e o Mário, o Hugo e eu bebíamos e conversávamos. O dia estava quase para amanhecer quando o André me chamou:
_ Leo, pra mim não rolou nada e o Jonatan tá indo embora. Vou apelar. Quer ir junto?
Fiquei sem saber o que fazer.
_ Vai lá Leo. – Incentivou o Hugo.
_ Aproveita. Pelo menos você come alguém. – Ajudou o Mário.
_ E vocês? Combinamos de ficar juntos.
_ Não esquenta não. A gente vai levar o Cleber embora.
_ É. Deixa que a gente leva a caixa também. Tá bem mais leve agora.
“Os caras são foda”, pensei, e fui junto com o André. Senti que minhas pernas tremiam.
_ Leo, essas são a Daiane e a Sara. A gente vai dar uma volta. A Daiane quer te conhecer melhor. Vamos?
As duas não eram bonitas, mas, nas palavras do André, era hora de apelar, e conhecendo o André eu sabia no eu aquilo ia dar.
_ Opa! Prazer. Vamos sim.
O André foi seguindo mais à frente com a Sara, falando coisas que a faziam rir embora eu não ouvisse o que eram. Eu estava calado.
_ Então você é primo do André? – Perguntou a Daiane.
_ É. – Foi o máximo que saiu.
_ Você é meio quieto, mas é uma gracinha.
_ Valeu.
Andamos mais um pouco. O André fez um sinal e se afastou mais, virando um quarteirão.
_ Parece que agora estamos sozinhos. – Disse a Daiane. Não soube o que dizer. – Vem cá, vem. – E me puxou.
Ela começou a me beijar e a passar a mão no meu pau por cima da calça. Fiquei duro na hora.
_ Vem comigo, vem. – E começou a me arrastar para uma construção.
Entramos e ela começou a me beijar novamente, já desabotoando a minha calça.
_ Vamos brincar um pouquinho. – E foi tirando a blusa, mostrando os seios. Eu estava muito nervoso, mas comecei a beijá-los.
_ Delícia! Ui! Delícia! Espera aí. – E tirou a calcinha, ficando apenas de saia. – Tira a camisa. – Ordenou.
Tirei a camisa e ela a estendeu sobre um balcão de concreto, deitando sobre ele.
_ Põe a camisinha e vem.
Peguei a camisinha que sempre levava na carteira, abrindo-a, e comecei a coloca-la, me demorando.
_ Vem logo, vem!
E nada.
_ O que está acontecendo?
_ Não consigo colocar.
_ Como assim? Espera que te ajudo. - E se levantou. – Porra! Assim você não vai conseguir mesmo. Que droga! – E começou a se vestir.
Eu estava com o pinto completamente murcho. Nada o faria subir naquela hora. Minha primeira vez e eu havia brochado.
_ Vai, coloca a roupa e vamos embora.

Olhei para fora e o dia estava amanhecendo. Havia perdido meu primeiro pôr-do-sol no ano novo. E havia perdido minha primeira transa...

sábado, 26 de abril de 2014

Aos Meus Amigos - 11 (Parte II)


Como dizem, a vida continua... depois da morte da vó Cotinha procurei passar todos os dias na casa do vô Tonico, me habituando a levar o pão enquanto ele me aguardava com o café e as bolachas para um café da tarde. Era nítido o quanto envelhecera num curto período de tempo, passando a utilizar uma bengala para caminhar e parando de beber por conta dos remédios que agora tinha que tomar. Só o cigarro que não conseguia largar. Quase não falava, apenas respondendo as perguntas que eu fazia. Vez ou outra contava alguma história que sempre envolvia uma lembrança boa da vó Cotinha, e seus olhos se enchiam de lágrimas, e então voltava a se calar. Eram momentos tristes, mas eu os mantinha por medo de perdê-lo mais brevemente.
Em casa estava tudo bem: minha irmã teve um lindo menino no qual deram o nome do pai. Como o Roberto já tinha o nome do seu pai, o filho deles ficou sendo Roberto Neto, ou seja, o Neto. Meus pais estavam muito orgulhosos por serem avós, e sempre levavam o neto para ver se animavam o bisavô, que realmente ficava feliz, mas sem a mesma energia que tinha antigamente, já não fazendo as brincadeiras que tanto gostávamos quando crianças. Meu irmão havia prestado vestibular e todos aguardavam ansiosos os resultados, que sairiam apenas no início do ano. Meu interesse era saber se passaria em alguma cidade bem legal para poder visitá-lo e aproveitar mais o pouco que havíamos presenciado com o João.
Já na escola as coisas não iam tão bem. Eu tinha passado de ano após várias recuperações e quase um exame, e meus pais viviam me cobrando pelo fato do Lourenço ser um exemplo de aluno. Eu nem mesmo sabia o que queria da vida. Mas as amizades estavam a mil, ainda mais pela total união entre a turma da escola e a turma dos primos.
_ Natal vai ser com a família, mas Ano Novo promete, heim? – Comentei em meio a uma partida de bilhar no bar do Pescocinho.
_ Nós vamos na avenida do bairro né? – Perguntou o Hugo.
_ É lá que a coisa pega. Vai ser massa. – Respondeu o André.
Além de nós três estavam também o Jonatan, o Manezinho, o Cleber e o Mário. A avenida do bairro era uma avenida que ficava nos limites da cidade, num bairro onde não haviam muitas casas construídas, o que permitia muita gente parar lá com os carros com o som ligado e a galera bebendo e curtindo, além de ter um nascer-do-sol maravilhoso que todos esperavam para anunciar o Ano Novo. Aquele era o primeiro ano que eu poderia ficar até o amanhecer.
Revezávamos as duplas conforme o resultado de cada partida, e na mesa sempre uma garrafa de cerveja, que era o que mais gostávamos e juntávamos dinheiro para poder beber. Pra variar, idade não era problema no bar do Pescocinho.
_ E tá pegando aquela mina ainda Jonatan? – Perguntou o Manezinho.
_ De vez em quando só. Ela é meio louca. O Silvinho disse que o pelo da boceta dela é verde.
Caímos na risada.
Naquela altura alguns de nós já tinham iniciado suas vidas sexuais, mas o Hugo, o Cleber, o Mário e eu ainda não. O André vivia me dizendo que arrumaria uma garota pra mim, e aquilo me empolgava ao mesmo tempo que me deixava nervoso.
_ Ganhei mais uma, hahaha. – Vangloriava o André. – Vamos pra balada, moçada?
Terminamos as bebidas, pagamos a conta e fomos para a boate, mas não para a mesma de sempre, já que um clube no centro havia inaugurado uma nova boate que estava sendo a sensação do momento apesar de não ter nada de mais em relação à outra, a não ser por ter dois andares: embaixo ficava o bar e uma banda que geralmente tocava pagode, e encima era o som dance.
_ Hahaha! Olha lá uma desprevenida que veio de saia. Não deve ser daqui. – Disse o Mário, apontando uma menina subindo as escadas que tinham os vão vazados, de modo que quem estava embaixo podia ver a calcinha.
_ Da hora! – Concordamos todos.
Compramos doses de conhaque e refrigerante, dividimos em copos para todos e subimos. Observamos o movimento e nos postamos no lugar de sempre, que era próximo a uma grande janela e acendemos nossos cigarros. Da turma da escola apenas o Cleber começou a fumar, sem ninguém insistir, e o que o diferenciava de antes é que já não era tão gordo.
_ Passa o isqueiro. – Pediu o André para o Jonatan.
O Jonatan já sacou a arte e entregou o isqueiro, disfarçando para que o Hugo não visse, sendo ele a vítima da vez. O André se aproximou dele e acendeu o isqueiro na sua perna. Como ele estava de calça jeans não havia o risco de pegar fogo, mas certamente sentiria o calor em segundos.
_ Ai, Porra! Vocês são foda! – Gritou o Hugo.
_ Hahahahaha! – Todos caímos na risada.
_ Vocês tão fodidos comigo. Deixa você marcar André, que vou me vingar. – Desbravava já dando risada também o Hugo.
Copos eram esvaziados, cigarros acendidos e a noite seguia, hora um aprontando com o outro, hora alguém tomando fora de alguma garota. Subíamos e descíamos as escadas conforme enjoávamos de algum lugar, e a cada volta era uma forma de encontrar mais conhecidos e novas paqueras. Como não tínhamos mais hora exata para ir embora geralmente ficávamos até o fim. O fim mesmo:
_ Espera a maioria sair e vamos procurar coisas. – Sugeriu o Jonatan.
E lá íamos nós, olhando para o chão procurando dinheiro perdido ou algum outro objeto. Era comum cair algo no meio da balada e aquilo não ser achado na hora.
_ Achei cinquenta centavos! – Anunciava um.
_ Tem um brinco aqui. Nem vou pegar. – Dizia outro.
_ Hahaha! Uma camisinha! – Mostrava mais um.
_ Vai molecada! A farra acabou! Circulando! – Vinha o segurança nos tirando do salão.
_ Padaria ou praça? – Era a dúvida o Cleber ao sair.
_ A padaria vai demorar pra abrir e já tô meio cansado. Vamos pra praça mesmo. – Sugeriu o Manezinho.
Mais cigarros acesos e seguimos em direção à praça, onde havia uma barraquinha de lanches e lá se concentrava parte da turma que saia da boate.
_ Vai mais um conhaque com soda? – Perguntei.
_ Pra mim já deu. – Respondeu o Hugo.
_ Tomo com você Leo. – Aceitou o Cleber.
Pedimos nossos lanches e bebidas e lá ficamos, relembrando a noite e traçando grandes planos para o domingo e o restante da semana. Comemos nossos lanches, acendemos novos cigarros, refrigerante pra dar uma acalmada na bebedeira e a hora de ir embora se aproximava.
_ Olha lá sua namorada Jonatan. – Apontou o Manezinho.
_ Será que termino a noite bem? – Respondeu ele. – Ela tá com uma amiga. Se alguém for comigo eu vou, se não, não.
_ Eu vou com você. – Se convidou o André.
E lá foram os dois, conversando brevemente e saindo com as duas em direção a algum bairro menos movimentado à procura de algum lugar para um possível coito.
_ Esses dois são foda... – Choramingou o Hugo.
_ Nossa hora vai chegar. – Respondi.
_ Era só um de vocês ter se convidado para ir com o Jonatan. – Cutucou o Manezinho.
Ficamos quietos por nossa covardia.
_ Bora então moçada? – Sugeriu o Manezinho.
_ Vamos sim. Alguém tem uma bala pra disfarçar o bafo do cigarro aí? – Perguntei.
_ Acho que o Cleber tem. – Respondeu o Hugo.

E quando olhamos o Cleber estava dormindo na grama...


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Aos Meus Amigos - 10 (Parte II)


O velório da Vó Cotinha juntou a família toda, inclusive um monte de parentes que eu nem conhecia, como tios e primos da minha mãe que moravam fora ou não. Durante a noite toda a casa foi preparada para o velório enquanto o corpo não chegava, o que havia sido combinado acontecer apenas ao amanhecer para que todos pudessem chegar em tempo. Eu não queria ir de jeito nenhum.
_ Leo, velório é o momento de nos despedirmos das pessoas que amamos. – Dizia meu pai. – E é um momento de dar um apoio ao seu avô.
Aquilo me chamou a atenção e olhei para ele.
_ Como o vô Tonico está pai?
_ Ele está bem quieto, até demais. Sua mãe tá bem preocupada. Faz tudo o que pedem para ele fazer sem falar nada.
_ Tá, eu vou, mas não quero chegar perto do caixão.
Foi um saco um monte de gente que eu nem me lembrava ou conhecia vir me cumprimentar com sorrisos e comentários alegres, como se nada tivesse acontecendo. Agiam como se a vó Cotinha estivesse por ali e tudo bem.
_ Como você cresceu!
_ É o filho mais novo da Marilda? Já tá um moço...
_ Lembra de mim? Seus pais foram visitar minha casa quando você era bebezinho...
Eu ia me esquivando. Queria encontrar o vô Tonico. Ele estava ao lado do caixão, que se encontrava no meio da sala. Me aproximei e ele nem viu. Segurei a sua mão.
_ Leo? Oh, Leo! A sua avó... – E me abraçou aos prantos.
Todos olhavam, pois desde que o corpo chegara a sua casa aquelas tinham sido sua primeira reação de sofrimento. Chorei muito abraçado a ele.
_ Leo, vem se despedir da sua avó.
_ Não quero vô. Não quero vê-la.
_ É só um momento Leo. Você precisa se despedir. – E começou a me puxar calmamente pelo braço.
_ Essa não é minha vó! – Gritei, me soltando de sua mão e correndo dali. Percebi que todos me olhavam.
Saí da casa, atravessei a rua e, inconscientemente, fui em direção ao antigo terreno do circo. Boa parte dele já havia sido vendido e agora eram casas ou barracões, e a mangueira que costumávamos subir já não existia mais havia tempo. Chegando lá não sabia o que fazer, me sentindo perdido.
E agora? - Pensava. - Saber que alguém pode nos deixar e essa pessoa nos deixar era algo muito diferente. Por mais que alguém possa estar preparado para isso é impossível não sentir o impacto no peito, a nebulosidade na mente, o vazio na alma... Aquilo não era justo! Não podia acontecer! - E, no meio da minha revolta, pensei: Se eu estou assim como estará o vô Tonico? E minha mãe e tios? E todas as outras pessoas que amavam a vó Cotinha tanto quanto eu? - E percebi o quão egoísta estava sendo, e decidi voltar. Mal iniciei meu retorno e pude ver outras figuras se aproximando. Eram meus primos, João, André e Manezinho. Todos com os olhos inchados. Se aproximaram em silêncio e nos abraçamos, como quando éramos crianças e queríamos elaborar nossos planos, mas dessa vez sem planos. Não havia planos para a morte. E choramos muito.
_ Temos que voltar Leo. – Disse o João, rompendo o silêncio.
Apenas concordei com a cabeça e começamos a caminhada, ainda abraçados. Nos aproximando da casa vi que o Cleber, o Hugo e o Mário estavam ali. Me desprendi dos meus primos e me dirigi a eles.
_ Meus sentimentos Leo. – Disse o Cleber.
_ Foda cara. Nem conheci seus avós, mas deve ser foda. – Falou o Mário.
O Hugo se aproximou e me abraçou. Mal conseguia falar ao perceber minha tristeza.
_ Força Leo. Nós estamos aqui para o que for preciso. Para isso servem os amigos.
Chorei mais. Agradeci os três e indiquei que iria entrar. Quando me afastei deles senti me tocarem o ombro.
_ Leo?
Me virei e vi que eram o Tomás e o Sidnei. Aquilo me surpreendeu.
_ A gente sabe o quanto você gostava deles. Meus sentimentos. – Disse o Sidnei.
_ Minha família também manda sentimentos. – Falou o Tomás. – Se precisar de algo pode contar com a gente
Dei um abraço nos dois sem dizer nada. Não sabia o que dizer. Teria nossa amizade realmente acabado ou ela estava apenas adormecida, mas sempre ali? Teria eu feito o mesmo se tivesse sido a vó do Tomás a falecer? Minha cabeça ficou mais confusa ainda, mas logo tais pensamentos se dissiparam ao perceber com o canto dos olhos uma presença, e ao olhar pude ver o Vini, do outro lado da rua. Apenas fez um aceno com a cabeça e se afastou. Decidi entrar de vez, agora mais calmo, mas com a cabeça ainda confusa. Muito mais.
Decidi procurar minha mãe, e ela estava ao lado do vô Tonico, junto com os outros tios. No caminha encontrei a Michele e a Milena, a Cássia e o Juninho, meus primos filhos da tia Matilde, os dois filhos do tio Osório que não via há muito tempo também estavam lá, assim como o Humberto. Cumprimentei a todos, mas não chorando mais e sim com certo sentimento de alegria, pois a vó Cotinha, apesar da situação, havia reunido toda a família, e ela merecia uma grande homenagem. Cheguei próximo à minha mãe e meu avô, segurando suas mãos. Os primos também se aproximaram, e percebi que o Silvinho e o Jonatan estavam presentes. Família e amigos. Amigos que são família e família que são amigos. Eu estaria completo se não fosse a ausência da Vó Cotinha.
_ Se despeça dela Leo. – Pediu o Vô Tonico.
Respirei fundo e me aproximei do corpo da vó Cotinha. Vi seu rosto que já não era seu, e toquei em sua mão gelada que não era mais a mesma dos bolos e sopinhas de pão.
_ Obrigado vó. – Falei bem baixinho, quase em pensamento. – Certamente você me fez uma pessoa melhor. Na sua ausência levarei seus ensinamentos, sua alegria, seu amor e seu carinho. Nunca me esquecerei de você e a forma de demonstrar isso será procurando tratar a todos da mesma forma que você tratava todos, sempre com um sorriso no rosto e a paz no coração. Te amo.
Dei um leve beijo na já não sua bochecha e voltei ao meu avô e minha mãe. Eu já não mais chorava e até esboçava um leve sorriso nos lábios. Meu pai estava certo: era um momento de despedida. Só não consegui segurar o choro no momento em que fecharam o caixão para o enterro.


sexta-feira, 28 de março de 2014

Aos Meus Amigos - 9 (Parte II)


O João nos acordou por volta das dez. A dor de cabeça era enorme, apesar de não estarmos enjoados. A primeira coisa que fiz foi olhar para o Marinho, que estava do mesmo jeito de quando chegamos.
_ Cara! Hoje é o dia do lual, hehehe. – Disse ele.
_ Mas antes temos o dia todo. É bom nos recuperarmos para o esquenta. – Falou o João.
Como na escola agrícola tinha ovo à vontade o Bernardo fez uma omelete para nós, com basicamente só ovo e cheiro verde, mas estava muito gostoso. O leite também era tirado direto da vaca. Todos estavam normais, só eu estava estranho.
_ Que foi Leo? – Perguntou o João.
_ Nada não. Só a ressaca. – Disfarcei, dando uma olhada no Marinho.
_ Se quiser podemos dar uma volta no campus. Vai tá bem vazio por ser sábado, mas é legal vocês conhecerem como é uma faculdade.
Aquilo me animou e começamos a nos arrumar. Nem o Bernardo e nem o Marinho foram, e o campus era bem ao lado da escola mesmo, de modo que o curso que o João fazia, apesar de ser colegial, pertencia à faculdade, que tinha curso de agronomia.
_ Aquele prédio lá são as salas de aula, e aquele maior é a biblioteca. – Nos mostrava o João. – Às vezes temos que ir estudar lá pra fazer uns trabalhos mais difíceis.
_ Que massa! – Me entusiasmei. – Meu irmão presta vestibular esse ano. Será que vai pra um lugar assim?
_ Sei irmão é CDF e quer essas coisas de computador, Leo. – Disse o Manezinho. – Certeza que a faculdade que ele quer não tem agronomia.
Ainda assim fiquei viajando na ideia de visita-lo numa faculdade daquele porte, mesmo que não nos déssemos tão bem.
_ Ali é o setor de veterinária. É a ala que mais tem mulher.
_ Vamos lá então! – Empolgou o André.
_ Não deve ter ninguém lá agora. Eu estou levando vocês para a cantina, mas se quiserem ir tudo bem.
Como nem teria garotas nem fomos.
Na cantina tinha pouca gente, mais um pessoal que morava nos alojamentos da própria faculdade. Nos sentamos e o João pegou uma garrafa média de refrigerante, que dividimos enquanto ele nos falava de lá.
_ Aqui é bem tranquilo, mas é bem legal. Geralmente não temos contato com o pessoal da faculdade, mas sempre que tem festa procuramos aproveitar. Claro que ninguém nem liga pra gente, e só o Bernardo pegou uma garota mais velha uma vez. E vocês precisam ver as festas. É muita farra. Como muita gente que estuda aqui mora longe de casa isso permite que eles aprontem um monte, e o povo da agronomia é maluco. Outro dia estavam rodando pelas ruas com uma caminhonete com uma piscina na carroceria, cheio de meninas dentro junto com uns caras, bebendo um monte. Tudo maluco. Mas uma coisa que você acaba vendo um monte aqui também são drogas. Maconha fumam como se fosse cigarro normal, e as vezes se vê uma galera cheirando cocaína também.
_ E o que você faz quando vê essas coisas? – Perguntei.
_ Leo, acaba sendo tão comum que a gente se acostuma. No começo me assustava, agora não. E se oferecerem é só recusar. São tudo gente boa. O Marinho mesmo fuma todo dia e é super gente fina.
Então ele sabia, pensei. E aquilo ficou na minha cabeça: quando o Sidnei e o Tomás deixaram de falar comigo foi por me pegarem fumando, e fiquei puto pela forma como me julgaram e julgavam a turma do André, e agora eu estava agindo do mesmo jeito. Realmente, o Marinho era gente boa. E se eu não soubesse que ele fumava maconha continuaria a achar isso. Acho que eu deveria desculpas a ele.
_ Bem, vamos voltar? Temos que comprar as coisas para o almoço e o esquenta.
_ Deixa eu adivinhar: - Disse o Manezinho. – O almoço vai ser macarronada.
_ Hehehe. Isso mesmo.
_ E para o esquenta? – Quis saber o André.
_ Acho que vamos de vodca com iogurte.
É. A noite prometia.
Chegando ao alojamento o Bernardo se propôs a ir ao mercado, já que tínhamos ido no dia anterior, e perguntou se alguém queria ir com ele.
_ Eu vou. – Disse o André.
Olhei para ele, estranhando, e ele fez um sinal com a mão de que iria fumar um cigarro, então decidi ir junto.
_ Não quer ir também Marinho? – Perguntei, meio que tentando me redimir comigo mesmo pelo que havia pensado sobre ele.
_ Não. Tô de boa, hehehe. – Respondeu, mostrando um cigarro de maconha que provavelmente fumaria logo. Dessa vez achei graça, e saímos.
_ O João disse que você já pegou uma das garotas da faculdade. – Puxei assunto.
_ Pois é. Tive sorte. Era uma gostosa.
_ E ficaram só no beijinho? – Se interessou o André.
_ Que nada. Essa mulherada da faculdade é tudo fogueteira.
_ Conta pra gente então.
_ Era uma festa junina do campus, e tava lotado. Fui com o João, o Marinho e mais três amigos do alojamento vizinho. A festa estava uma loucura, todo mundo bebendo e dançando e se divertindo, quando essa louca me puxou pelo braço pra dançar. As amigas dela ficaram rindo e ela perguntou que curso eu fazia. Nem pensei e respondi agronomia. Cara, nisso ela já me deu um beijão na boca e pediu que eu a levasse embora. Essa é a parte doida, pois a galera da agronomia tem muita grana na maioria das vezes, possuindo cada carrão. Então disse que aquela noite estava sem carro e dormiria no alojamento dos técnicos agrícolas com meu irmão, dá pra acreditar? E ela quis ver onde era. Então a levei para o nosso próprio alojamento e a comi na minha cama mesmo, hahahaha.
_ E ela não descobriu depois?
_ É. Ela se tocou quando viu minha carteirinha de estudante na escrivaninha, mas nem ficou brava. Deu risada, disse que eu era um mentiroso fofo e foi embora antes da festa no campus acabar. Foi bem massa.
Aquilo só deixou o André e eu mais loucos ainda. Quem sabe não teríamos uma sorte daquela à noite?
Compramos as coisas no mercado e na saída o André se arriscou:
_ Bernardo, se eu comprar um cigarro você jura que não fala nada pro João?
_ Tenho certeza que o João não ligaria, mas se é isso que você quer, ok.
Compramos um maço e fizemos o caminho de volta, conversando e fumando. Estávamos encantados com essa vida de morar fora para estudar, mas nem o André e nem eu sabíamos o que queríamos em termos de estudos.
_ Eu não pensava em fazer faculdade, mas vendo como é da hora tô repensando, viu? – Disse o André.
_ Eu quero fazer, mas não sei o que. Meus pais vivem me cobrando pra decidir logo. E pra piorar meu irmão já sabe o que quer desde que era criança. – Desabafei.
Quando estávamos chegando ao alojamento vimos o carro do tio Mané parado na frente, o que estranhamos, pois ele só deveria vir no dia seguinte depois do almoço.
_ Aquele é o carro do pai do João, não é? – Perguntou o Bernardo.
_ É sim. Que estranho. – Respondi.
_ Toma. Leva a sacola com as coisas para o macarrão. Vou esconder as bebidas e já vou.
O André e eu colocamos uma bala na boca para disfarçar o cheiro do cigarro e nos dirigimos ao alojamento. Ao entrarmos encontramos o João e o Manezinho chorando.
_ O que foi tio? O que aconteceu?
_ Vim buscar vocês, Leo. A vó Cotinha morreu...
Não conseguia ouvir mais nada. Vi a boca do tio Mané se mexer, tentando nos acalmar, mas não ouvia nada. Meio que no automático, arrumamos nossas coisas chorando e fomos embora. Nem nos despedimos do Marinho e do Bernardo.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Aos Meus Amigos - 8 (Parte II)

(Não leu desde o inicio? Então aproveite em http://blagoiaba.blogspot.com.br/2013/09/aos-meus-amigos-introducao.html )


_ Mãe! Mãe! – Chamava eu pela casa, procurando-a ao chegar da escola.
_ Aqui Leo. – Ouvi sua voz vinda do quarto.
_ Mãe, você falou que daria a resposta hoje se eu poderia visitar o João... Você tá chorando mãe?
_ Tô preocupada com sua vó, Leo. Ela foi internada de novo. Não sei o que fazer.
Depois da primeira internação após o casamento da Rosália a vó Cotinha não tinha se recuperado totalmente, sendo internada mais três vezes ao longo do mês. Aquela era a quarta.
_ Mãe, vai dar tudo certo. A vó Cotinha é forte, você sabe disso.
_ Ela já tá bem velhinha Leo. Não sei se o vô Tonico aguentaria se algo acontecesse a ela... – E começou a chorar novamente.
_ Mãe... – E a abracei, procurando não chorar também só de imaginar não ter mais os dois.
O João havia reforçado a oferta de passarmos um fim de semana com ele. Apesar da internação da vó Cotinha minha mãe me deixou ir. O tio Mané levaria o Manezinho, o André e eu para passarmos um fim de semana lá e depois nos buscaria. Dessa forma, além de ver o filho, teria tempo junto com minha mãe e minhas tias de cuidar da vó Cotinha sem que sentíssemos a gravidade da situação. E assim fomos.
_ É bom não aprontarem nada de errado lá, heim? – Dizia o tio Mané enquanto nos levava. – Lembrem-se que se der merda o João corre o risco de ser expulso da escola.
Certamente isso era algo que não queríamos, mas sabíamos que as coisas no alojamento do João eram bem liberais segundo suas histórias, então não estávamos muito preocupados com as ameaças do tio Mané. A única coisa que nos desanimava era o fato de a escola ser somente para homens, o que tirava a chance de pegarmos alguma garota.
_ Molecada, já sabem né? Nada de aprontar e qualquer coisa liguem a cobrar do orelhão.
E assim nos despedimos do tio Mané, que voltaria só no domingo depois do almoço.
_ E agora João? – Perguntei, animado.
_ Por hoje ficaremos de boa mesmo. Vamos ao mercado comprar umas coisas e aí jogamos baralho ou algo assim. Mas amanhã tá marcado um lual, e aí sim a coisa pega. Vai ser no campus da faculdade e lá sim tem mulherada. E é bem aqui ao lado.
Ficamos muito animados. O fim de semana prometia.
Ficamos no mesmo quarto que o João, já que alguns dos companheiros de quarto dele haviam viajado para visitar a família. Eram quatro beliches e apenas dois dos caras da casa estavam lá: o Marinho e o Bernardo. O Marinho era bem desencanado. Negro com um cabelo bem avolumado e que falava umas coisas meio que sem sentido. O Bernardo era mais quieto, bem estilo cowboy mesmo: bota, fivela e chapéu na cabeça. Parecia gente boa.
_ Estamos indo ao mercado. Querem algo? – Perguntou o João aos dois.
_ Obrigado João. – Respondeu o Bernardo.
_ Cara, vou com vocês. – Se convidou o Marinho.
O mercado ficava a quarenta minutos de caminhada dali, já que a escola era um pouco afastada da cidade, o que estranhamos, já que nesse tempo atravessaríamos a cidade inteira onde morávamos.
_ Cara, vocês vão pirar aqui. – Disse o Marinho. – Seu primo ainda é certinho, mas tem muito maluco da hora. E o lual amanhã promete, hehehe.
O João não falava nada. Alias, ninguém falava nada, pois o Marinho não dava chance, falava sem parar. Chegamos ao mercado.
_ Qual vai ser, João? – Perguntou o Marinho.
_ Conhaque com refrigerante.
Nos olhamos, Manezinho, André e eu. Nunca tínhamos tomado conhaque.
_ Gosto muito. – Disse o Marinho.
_ Com quanto vocês podem ajudar? – Perguntou o João.
Tiramos nossos dinheiros da carteira e mostramos para ele.
_ Ok. Contando que amanhã precisaremos de grana também, vamos pegar só o suficiente para a bebida e a comida.
Cada um deu um pouco e ele comprou uma garrafa de conhaque, duas garrafas de dois litros de refrigerante, pois pães para cada e um punhado de mortadela.
_ Aqui é assim de fim de semana: ou compramos pão com alguma coisa ou fazemos macarronada.
Era tudo muito estranho e legal para nós.
Chegando ao alojamento o João perguntou o que queríamos: comer ou tomar banho. Decidimos comer, já que não tinha ninguém que nos obrigasse ao banho. Acabamos de comer e o Marinho já veio com o conhaque e uma garrafa de refrigerante.
_ Porradinha? – Perguntou ele.
_ Acho que a molecada vai gostar mais. – Respondeu o João.
_ Opa! Porradinha? – Foi se aproximando o Bernardo ao ouvir a proposta do Marinho.
Que raios era aquilo de porradinha? Nunca tínhamos ouvido falar, mas estávamos empolgados. Enquanto o Marinho abria as garrafas o Bernardo foi buscar um copinho de pinga, só um. Achamos estranho.
_ Chega mais molecada. – Chamou o João. – Senta no chão mesmo, em volta da garrafa.
Sentamos em círculo e ficamos esperando.
_ Quem vai primeiro? – Quis saber o Bernardo, mais animado e menos quieto do que quando chegamos.
Nos olhamos e, antes que alguém pudesse dizer alguma coisa, surpreendi a todos:
_ Eu!
O André deu um sorriso de aprovação, e então o Marinho colocou no copo segurado pelo Bernardo metade de conhaque e metade de refrigerante.
_ Fica preparado. Assim que te entregar o copo vira tudo de uma vez.
Ao falar isso o Bernardo colocou a mão sobre a boca do copo, tapando-a, e deu uma rápida batida na base do copo em sua perna, fazendo com que aquela mistura levantasse uma rápida espuma devido ao gás do refrigerante, estendendo instantaneamente o copo para mim.
_ Vira! Vira! Vira! – Gritavam o João, o Bernardo e o Marinho.
Quase sem pensar peguei o copo antes que a espuma se dispersasse e o virei, descendo gostoso pela garganta.
_ Que massa! Quero mais. – Me expressava, em êxtase.
_ Calma Leo. É uma vez de cada. Acabando a rodada começamos de novo.
E assim foi, todo mundo bebendo. Primeira rodada, segunda rodada, terceira rodada. A garrafa de conhaque descendo.
_ Mais uma! Mais uma!
_ Moçada! Isso é gostoso, mas bate de uma vez. Têm certeza que querem mais uma?
Olhamos um para o outro. Todo mundo com cara de um pouco alto.
_ Hahahahaha! Mais uma com certeza!
A decisão foi unânime.
Terminando a quinta rodada já estávamos todos bêbados, principalmente o Manezinho, o André e eu, que não estávamos acostumados àquilo.
_ João, vou dormir. – Anunciou o Manezinho.
_ Você nem tomou banho. – Deu uma de pai o João.
_ Amanhã eu tomo. – E saiu em direção ao quarto, ziguezagueando.
_ Leo? – Se aproximou o André. – Queria tanto um cigarro.
Aquilo era tudo que eu queria também naquela hora. Combinamos de não levar um maço pelo fato do João não saber que fumávamos, e não sabíamos qual seria sua reação se soubesse. Logo em seguida vimos o Marinho sair do quarto em direção à porta da frente com um isqueiro na mão. Olhamos um para o outro, com uma esperança nos olhos, e decidimos ir para fora também.
_ A gente só pede um trago. Se pedirmos para não falar nada para o João certeza que ele não fala. – Dizia o André.
_ Certeza. O Marinho é gente boa. – Concordava.
Saímos e começamos a procura-lo. Vimos que ele estava um tanto afastado, próximo a uma cerca, e fomos em sua direção.
_ Marinho você não arruma um cigarro pra gente também? – Já foi pedindo o André.
_ Só não fala nada pro João não. Ele não sabe que a gente fuma.
_ Hehehe, moçada. Eu só tenho um, e não sei se é dos que vocês estão querendo não. – Disse ele, mostrando seu cigarro.
Quando olhamos achamos estranho, pois não era um cigarro comum. Era um cigarro enrolado num guardanapo de papel aparentemente.
_ É maconha? – Ouvi o André dizer, estranhando.
_ Hehehe. É isso ai. Se quiserem dar uns tapas, sem problema.
Eu não acreditava naquilo. Maconha! E o cara com ela morava com o João. Aquilo me assustou e comecei a puxar o André. Ele procurou me acalmar, me segurando.
_ Putz! Valeu Marinho. A gente achou que era cigarro normal, mas valeu.
Então começamos a voltar pro bloco do alojamento. Eu estava bem assustado, o André não.
_ Você nunca tinha visto maconha, né Leo?
_ Eu não! Por quê? Você já?
_ Já. Uns amigos da escola fumam.
_ Mas você nunca fumou né?
_ Não. Eu não.
E entramos. O André foi dormir, mas eu quis tomar um banho. Não que eu quisesse de fato, mas para ver se me acalmava. Eu estava bem nervoso mesmo.
Depois do banho fui para o quarto e já estava todo mundo lá, inclusive o Marinho. Todos dormiam muito bem. Me deitei mas demorei bastante até conseguir dormir...

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sexta-feira, 14 de março de 2014

Aos Meus Amigos - 7 (Parte II)

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Depois de todos os preparativos, o casamento da Rosália chegou. Nitidamente estavam todos nervosos, mesmo meu irmão e eu.
_ Vamos receber visitas de fora e precisaremos da ajuda de vocês. – Dizia meu pai para mim e meu irmão.
A igreja escolhida não era a Matriz, e sim uma pequena igreja de bairro escolhida pela mãe do Roberto. Estava tudo muito simples, mas muito bonito. Em nossa casa ficariam o tio Osório com sua mulher, tia Débora, e um neto, o Humberto, que era da idade do meu irmão. Os dois não pareciam se dar muito bem, mas eu gostava bastante dele.
Uma coisa interessante foi o fato do casamento reunir a família do meu pai também, que moravam em outra cidade. Eram dois irmão: o tio Osmar, irmão mais novo, sendo meu pai o do meio, casado com a tia Telma, e possuíam um casal mais novos que meu irmão e eu, sendo a Amélia e o Alex; e a tia Ludmila, casada com o tio Álvaro, e tinham duas meninas mais velhas que nós, a Rosana e a Maria. Meus avós paternos também foram, claro, o vô Joaquim e a vó Ofélia.
_ Fala oi para seus avós e dê atenção para seus primos. Faz tempo que você não os vê. – Pediu meu pai.
_ Ok pai. Vem comigo Humberto?
_ Claro. Assim você me apresenta eles.
E fomos. Meu irmão nos acompanhou.
_ Oi tia...
Mal deu tempo de falar e a tia Telma já foi me apertando:
_ Leo! Como você cresceu! Lourenço! Já tá um moção! Amélia e Alex! Venham falar oi para seus primos...
E assim foi, fazendo o social e interagindo com meus primos. Meu irmão se enturmou mais com a Rosana e a Maria, enquanto eu e o Humberto ficamos papeando com a Amélia e o Alex. Pouco depois os outros primos foram chegando e as atenções foram se dividindo, mas o Humberto ficou comigo o tempo todo. Nos juntamos ao Manezinho, ao André e ao João, que fazia tempo que não o via.
_ E aí Leo? Quanto tempo. É o Humberto com você?
_ É sim. Lembra dele? Como estão as coisas?
_ Muito legal na escola agrícola. Vocês podiam passar um fim de semana lá. Ficariam no alojamento e tudo mais.
A conversa nos empolgou, e ficamos combinando de ir enquanto ele contava as aventuras de morar longe de casa.
Pouco depois foi anunciado que o casamento iria começar. Sentamos todos pertos e teve inicio a cerimônia, naquela velha ordem de sempre: entram os padrinhos, se posicionando no altar; o noivo, aguardando a noiva; o atraso da noiva, trazida pelo tio Mané no carro bonito do tio Osório e, finalmente, a entrada da noiva.
_ Você tá chorando Leo? – Se espantou o André.
_ Não enche! – Respondi, com os olhos cheios de lágrimas.

A cerimônia foi muito bonita, deixando bastante gente emocionada. Minha mãe não parava de chorar, e percebia que meu pai só não chorava porque estava se segurando. Sentados juntos, meus primos e eu aproveitávamos para localizar umas gatinhas entre os convidados na igreja, e tinha algumas, conhecidas ou não.
_ Gostosa aquela ali de amarelo. É parente do Roberto? – Perguntou o João.
_ Deve ser. Nunca a vi. – Respondi. – Tem aquela perto da porta lateral também. Bem gata.
_ Aquela é a Michele? Neta da tia Matilde? – Reparou o Manezinho.
_ É sim. Lembra que falei que tá um espetáculo? Depois a gente vai falar com ela.
_ Ô Leo? Será que a gente consegue umas bebidas escondidas na festa? – Era a preocupação do André.
Na festa ficamos todos juntos em duas mesas: eu, André, Manezinho, João, Humberto, Michele, Milena, Cássia, Amélia, Alex, Rosana, Maria e meu irmão. A festa era num salão comunitário que pertencia à igreja, com decoração mínima e servindo churrasco e bebidas: cerveja, refrigerante e água. Sob o olhar de vários membros da família enchíamos nossos copos com refrigerante, mas matutando para conseguir alguma cerveja escondida, sem encontrar soluções.
_ E se você fosse lá, Humberto? Quase ninguém te conhece mesmo? – Sugeriu o André.
_ Desculpe moçada, mas eu não bebo. E se meu vô me pega numa dessa ele não me leva mais pra lugar nenhum.
_ Droga!
_ O Alfredo não pegaria pra gente, né? – Cheguei a sugerir.
_ Conhecendo o tio Alfredo, de jeito nenhum. – Já avisou a Michele, que se empolgava com a ideia de beber com a gente.
_ André! E seu irmão? – Indagou o João, que já havia nos contado de cachaçadas memoráveis no alojamento em que morava.
Todos nós olhamos para o Rodolfo: mais velho, solteiro, bon vivant. Vivia indo para baladas em outras cidades e sempre chegava chapado segundo o André. Decidimos arriscar.
O Rodolfo estava sentado com uns amigos solteiros do Roberto, e todos bebiam empolgados, enchendo a mesa de garrafas.
_ Faz tempo que não o vejo. – Disse o João. – Então vou lá cumprimenta-lo só pra medir a febre.
_ Vai com ele Humberto. Mesmo que você não beba, por ser mais velho talvez ajude. – Sugeri, e ele topou.
Os dois foram, enquanto observávamos curiosos, e nos surpreendemos logo de cara: mal o Humberto e o João chegaram o Rodolfo os cumprimentou, cheirou seus copos fazendo uma careta, jogou fora o conteúdo e encheu de cerveja. O João dava umas olhadas pra gente, animado, enquanto o Humberto olhava para o copo sem saber o que fazer. Os dois se sentaram com ele um pouco e vimos o João cochichar algo. O Rodolfo deu risada, um pouco irônica, e chamou o João para acompanha-lo. Nisso o Humberto voltou para nossa mesa.
_ Tó! Vê o que fazem com isso. – Disse, entregando o copo. – Se meu vô me pega com isso tô ferrado.
_ E aí? O que aconteceu? Conta pra gente! – Queríamos saber.
_ Não ouvi direito o que conversaram, mas o Rodolfo deu uma risada, disse que somos tontos e chamou o João para a cozinha.
Procuramos os dois e nada, até que pouco depois vimos o João saindo da cozinha com uma garrafa de refrigerante e vindo pra nossa mesa com um grande sorriso.
_ Olha o que eu trouxe!
_ Grande coisa! Refrigerante tão servindo na mesa. – Retrucou o André.
_ Então bebe desse “refrigerante” que você vai ver...
Me levantei e peguei a garrafa. Virei meu copo de refrigerante e o enchi com o conteúdo da garrafa, percebendo se tratar de cerveja. Ficamos todos felizes.
_ Seu irmão é foda André. – Contou o João. – Ele me levou até a caixa térmica de bebidas na cozinha. Cerveja e refrigerante estão na mesma caixa, e o gelo faz com que os rótulos se soltem. Como as garrafas são iguais ele só trocou os rótulos. Pronto! Agora, sempre que quisermos “refrigerante” é só buscarmos direto na cozinha.
Aquilo foi o êxtase para nós. Até meu irmão deu umas bicadas na cerveja depois daquilo, juntamente com a Rosana e a Maria, que às vezes davam pequenas goladas. O Humberto não quis se arriscar.
_ Se vocês contarem pra alguém vão se ver com a gente, viu? – Era a ameaça da Michele para a Cássia e a Milena.
Claro que também pedimos sigilo para a Amélia e o Alex.

O restante da festa foi maravilhoso. Procuramos nos controlar para não dar na cara que estávamos bebendo, sempre revezando as garrafas com uma de refrigerante mesmo. Durante a passagem dos noivos pelas mesas dos convidados rimos muito com a farra que o Roberto fez com o vô Tonico e a vó Cotinha. Ele gostava muito dos dois, e o Roberto sabia ser divertido. 
No final nos despedimos de alguns primos que iriam embora para outra cidade e combinamos com os outros de fazer algo no domingo. Dessa forma a Michele, a Milena e a Cássia forma embora, o Humberto, o André, o João, o Manezinho, meu irmão e eu iriamos almoçar na vó Cotinha mas depois passaríamos na casa do vô Joaquim para ir tomar sorvete com a Amélia, o Alex, a Rosana e a Maria antes deles irem embora. Foi um fim de semana muito gostoso, e foi o comentário entre a gente por toda semana. Mas a alegria acabou logo, pois na quinta-feira a vó Cotinha foi internada. Sua diabete estava muito alta.

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quinta-feira, 6 de março de 2014

Aos Meus Amigos - 6 (Parte II)

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O fim de semana tinha sido muito bacana. Além da cachoeira o Hugo também foi na boate com a gente e se enturmou mais ainda, contando empolgado para a turma da escola, o que os animou para uma próxima vez. Isso era tudo o que eu queria: juntar as duas turmas. Não disse nada para os meus pais da descoberta do Vini, mas de certa forma eles sabiam, pois não me viram mais com ele ou falar dele, e acho que isso já era o suficiente para não tocarem mais no assunto. Depois do episódio passamos a ter uma chave cada, de modo a eliminar a tal chave no fundo.
Claro que eu ainda veria o Vini, e foi naquela mesma semana, enquanto andava pelo centro. O avistei do outro lado da rua e a primeira intenção que tive foi de ignorá-lo, mas resolvi olhar para ele, ver sua reação, e assim o fiz. Fiquei encarando-o, esperando. Ele me olhava, e depois olhava para o chão, sem saber o que fazer, até que fez um joia com o dedão, balançou a cabeça negativamente para si mesmo e saiu andando. Não havia mais dúvidas que tinha sido ele, e depois disso ele sumiu dos lugares que costumávamos ir, avistando-o apenas de vez em quando, em lugares isolados. E mais uma amizade chegava ao fim.

_ Vocês passam no meu primo comigo? – Perguntei à turma ao sairmos da escola. – É rapidinho.
_ Claro Leo. – Disse de imediato o Hugo.
_ Vocês vão combinar algo para o fim de semana? – Quis saber o Cleber.
_ É isso mesmo. – Respondi.
_ Opa! Vamos sim. Quem sabe da para eu ir. Vamos Mário?
_ Pode ser...
Pegamos nossas bicicletas e fomos, chegando quase que ao mesmo tempo que o André.
_ Qual o plano para o fim de semana André? – Foi perguntando o Hugo, já se mostrando bem amigo dele.
_ Durante o dia ainda não sabemos, mas pra noite estamos combinando um bilhar antes da boate.
_ Bilhar? – Se surpreendeu o Mário, que sempre jogava no clube e gostava bastante.
_ É. O Jonatan foi com o Silvinho jogar no bar do Pescocinho e disse que é bem massa lá. Que acham?
Para mim estava ótimo, e se o Mário ficava em dúvida em relação a sair com a gente acho que naquela hora o havíamos fisgado. O Hugo e o Cleber que estavam mais relutantes por não estarem acostumados a bares e coisas assim.
_ Tá dentro Hugo? – Perguntei.
_ Não sei...
_ Bem, vocês me falam depois. Até mais moçada. – Despediu-se e entrou o André.
Enquanto pedalávamos até onde nossos caminhos se dividiam fomos conversando.
_ Nunca fui a bares, Leo. Acho que não é legal. – Estava preocupado o Hugo.
_ Eu também não. – Disse o Cleber.
_ Que isso gente! Não tem nada de mais. Sempre vou com eles pra jogar fliperama ou comprar cigarro. E é pra jogar bilhar.
_ Cara! É isso que tá me animando. Nunca joguei com outras pessoas fora do clube. Acho que vou, Leo. – Disse o Mário.
_ Então gente! Vamos os quatro. Assim ninguém fica isolado se tiver chato.
E acabaram concordando, mas com certa dúvida ainda.

Chegou o fim de semana. Na sexta dormi na casa do André e saímos para dar umas voltas, encontrando os moleques da escola na praça. Como não tinha nada certo para o sábado a tarde cada um marcou algo diferente.
_ Vou jogar bola. – Disse o Cleber.
_ Acho que vou pro clube. – Falou o Mário.
_ Posso ir com vocês na sua casa André? – Pediu o Hugo.
Mas para a noite estava tudo combinado: bilhar no bar do Pescocinho.
No sábado depois do almoço na vó Cotinha o Manezinho e eu seguimos para a casa do André junto com ele. Encontramos o Hugo e ficamos lá de bobeira, subindo no telhado, jogando bola na rua e brincando em construção, até que a tarde nos despedimos para um banho e o preparo para a noite.
Era por volta das oito e quinze quando nos encontramos na praça: André, Manezinho e Jonatan chegaram juntos, e eu cheguei com o Mário, o Hugo e o Cleber. Apresentei aqueles que não se conheciam e seguimos para o bar.
O bar do Pescocinho era um verdadeiro boteco bem simples. Um balcão comprido com banquinhos, poucas mesas de quatro lugares, três fliperamas à frente do balcão e três mesas de bilhar ao fundo. O Pescocinho era um sujeito engraçado: um senhorzinho de pouco mais de um metro e sessenta de altura, magro com uma barriguinha saliente, cabelos brancos e um pescoço diminuto que mal dava para ver. Pelo jeito o apelido vinha de longa data, pois todos o chamavam assim e ele não parecia se importar. O bar estava praticamente vazio a não ser por um grupo de moleques no fliperama, dois clientes aparentemente antigos no balcão e um eterno freguês, o Boina, como o chamavam, que era um sujeito de bigode e bem magro usando uma boina e sentado ao lado de um barrilzinho de pinga que o víamos utilizar para encher seu copo toda vez que o Pescocinho virava as costas. Dávamos muita risada com aquilo. O Pescocinho não estava nem aí por sermos menores de idade.
_ Seis fichas pra começar, Pescocinho. – Pediu o Jonatan.
_ E o que vão beber?
Nos olhamos, mas o Jonatan não nos deu a chance de chegarmos a uma decisão.
_ Cerveja.
Percebi que o Mário, o Cleber e o Hugo ficaram um pouco incomodados.
_ Cerveja Jonatan? Tá louco? – Disse o André. – Além de caro tem que beber mais pra dar um grau.
_ Relaxa André. Ajudei meu pai no sítio essa semana e ele me deu uma boa grana. Hoje eu pago.
O Pescocinho chegou com três garrafas e sete copos. Encheu os sete, apesar de um esboço de resistência por parte do Hugo, que não conseguiu concluí-lo.
_ Vamos brindar moçada! – Disse o Jonatan, erguendo seu copo.
Pegamos nossos copos, menos o Hugo, o Cleber e o Mário.
_ Vamos moçada! – Insistiu o Manezinho.
_ A gente não bebe. – Finalmente falou o Mário.
_ Larga mão! Só esse copo, vai? – Praticamente ordenou o Jonatan.
Com clara expressão de dúvida eles pegaram os copos.
_ É isso aí molecada. A nois!
E brindamos. Jonatan, André, Manezinho e eu viramos os copos. Os outros três deram um pequeno gole e fizeram uma careta.
_ Querem ver uma coisa que aprendi com um amigo do Silvinho? – Disse o Jonatan, enchendo novamente o copo.
Ficamos olhando ele arreganhar os lábios, encaixar a boca do copo inteira na sua boca e erguer a cabeça com tudo, fazendo com que a cerveja descesse como que num galão de água por sua garganta.
_ Que massa! Quero tentar. – Gritei.

E começamos a beber, jogar bilhar e nos divertir. Pouco depois os três tímidos já tinham se soltado e se divertiam também, dando altas risadas enquanto jogávamos bilhar e bebíamos. Eles ficaram bêbados rapidamente, mas não ao ponto de darem trabalho. Quase que como um devaneio, sem ter total consciência da realidade, saímos de lá e fomos para a boate, nos divertindo muito. E tudo foi tão massa que até o Hugo beijou uma menina. As amizades das turmas estavam seladas.

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